Reflexões Matutas

Kaingangs acampados em Dracena gera reflexões sobre o passado e o presente da Nova Alta Paulista

Indígenas da etnia Kaingang retornam para comercializar seu artesanato e provocam reflexões.

Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com Colunista
Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com
(Fonte: Coletivo Rancho Y-Îara). (Fonte: Coletivo Rancho Y-Îara).

Indígenas da etnia Kaingang, que ocupavam até o início do século XX as cidades da região, retornam para comercializar seu artesanato e provocam reflexões.

De acordo com a pesquisa de Carlos Vitório Martins Joviano, intitulada “O colono e o índio na ocupação da Nova Alta Paulista”, a área situada entre os rios Peixe e Aguapeí, assim como a maior parte das terras do extremo oeste paulista era ocupada até meados do século XX por indígenas da etnia Kaingang.

A marcha do café rumo ao oeste do estado, junto à construção da ferrovia da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF) em nome do capital, do lucro e do colonialismo, usaram de seus artifícios para que os “terrenos desconhecidos habitados por índios” como a região do estado é tratada em antigos mapas, se tornasse um símbolo de progresso.

“A incursão no território Kaingang começou por volta de 1895, de maneira ainda tímida, mas sempre caracterizada pela ação truculenta dos bugreiros (matadores de índios), que agiam inicialmente a mando de grileiros que se aventuravam no espigão entre os rios do Peixe e Aguapeí, onde loteavam e vendiam ilegalmente terras devolutas. As atrocidades cometidas contra os Kaingang e as transações ilegais terras deram, portanto, o tom do início da ocupação deste vasto território”.

Se estima que no início do século passado vivessem na região cerca de quatro mil indígenas dessa etnia, a grande maioria foi morta num genocídio escancarado, e alguns poucos conseguiram migrar para a região norte do estado do Paraná.

Nesse mês, um pequeno grupo de remanescentes Kaingangs fez parada na cidade de Dracena a fim de comercializarem seus cestos artesanais na região. Aproveitando o momento, um grupo de jovens dracenenses, Gabriel Módolo, Isabela Paschoalotto e Naélia Forato organizaram na última segunda feira (20) a projeção de um pequeno documentário expondo a cultura kaingang na cidade de Apucaraninha/PR, e promoveram uma roda de conversas entre os indígenas e a população regional, desconstruindo mitos e preconceitos que afetam os povos tradicionais quando esses estão fora do contexto de suas aldeias, em meio aos homens brancos.

(Fonte: Coletivo Rancho Y-Îara).

A fala dos indígenas expressou diversas dificuldades, desde a manutenção de suas culturas, alimentação, idioma, a aculturação das crianças dentre outras questões. Ao longo do debate os membros refletiram acerca da necessidade de que repensemos os modelos e configurações urbanas para que consigamos atender as demandas dos legítimos donos dessas terras, levando em consideração suas especificidades.

(Fonte: Coletivo Rancho Y-Îara).

Após algum tempo de diálogo, o Instituto de Desenvolvimento Econômico, Ambiental e Social (IDEAS) Diversas, que ocupa a estação ferroviária de Dracena há cerca de dois anos, cedeu o espaço como abrigo aos indígenas que aos poucos se transferem para lá, a parceria garante a eles um pouco mais de segurança, conforto e dignidade.

A construção da linha férrea e por consequência das estações ferroviárias são frutos diretos do movimento colonialista do século XX, que matou e expulsou indígenas do território que atualmente corresponde às cidades da região. A ocupação desses espaços pelos indígenas nos dias atuais, são mais do que a permanência num mero lugar de poso, é uma luta histórica e simbólica, na qual o povo tradicional originário dessas terras não somente demonstra sua força e resistência, mas reivindicam, mesmo que talvez desconhecendo esses tantos fatos elucidados, seu lugar ao sol na cultura e história dessa região.

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