Reflexões Matutas

O grito de independência: um relato de Mateus Augusto Martins

Graduado na Fatec Adamantina, gestor narra trajetória acadêmica e pessoal enquanto homossexual.

Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com Colunista
Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com
Mateus Augusto Martins (Acervo Pessoal). Mateus Augusto Martins (Acervo Pessoal).

Carolina Josefa Leopoldina, Imperatriz do Brasil, decreta aos 2 de setembro de 1822 a independência do Brasil em relação a Portugal, mas é só mais uma mulher, e como bem sabemos isso não interessa tanto a um país misógino. Logo, vamos a D. Pedro I, e o grito da independência que nunca aconteceu, mas em teoria se deu em 7 de setembro, tornando o Brasil um Império independente, marcado pelo elitismo e pelas aspirações da corte recém instaurada. Todavia, olhemos para o percurso dos gritos de independência de outros tantos brasileiros e brasileiras.

Dentre os gritos de independência, boa parte deles possuem como base a educação emancipatória. Um dos poucos caminhos possíveis para a ascensão social e econômica no Brasil contemporâneo, para isso, olhemos para as lutas sociais e as minorias outrora renegadas usando da história de vida de Mateus Augusto Martins, recém formado em Gestão Comercial na primeira turma deste curso na Faculdade de Tecnologia (FATEC/Adamantina).

“Minhas vivências que antecederam a FATEC foram marcadas pelo fundamentalismo religioso. A negação da minha identidade e das minhas formas de ser foram extremamente renegadas, estar inserido na igreja consistia numa modulação constante da forma como eu deveria agir, me aproximando mais do arquétipo masculino vigente, o que ainda me marca em alguma medida. Foi somente quando eu me afastei da organização familiar nuclear é que eu pude refletir acerca da minha sexualidade de forma significativa.

O meu ingresso na FATEC/Adamantina ocorreu logo após eu retornar à casa dos meus pais, e assumir a minha orientação sexual aos meus familiares. Foi na faculdade em que criei meus primeiros vínculos com pessoas que não me julgavam em função da minha orientação sexual. Isso também coincidiu com o meu momento de distanciamento da igreja, o que foi libertador.

Para mim a educação sempre foi muito importante, a FATEC me permitiu me desenvolver não somente enquanto profissional, mas dela derivou também a construção do que eu sou hoje. Foi um desenvolvimento sincrônico de empoderamento e de apropriação do conhecimento técnico e teórico de um gestor comercial. Ir para a faculdade representava me sentir parte de um grupo, era ter a certeza da construção de um futuro.

Em 2018 a FATEC me permitiu participar do Projeto Escola de Inovadores, sob a coordenação da Profª Drª Izabel Castanha Gil e do professor de Projeto Integrador. Nesse projeto eu trabalhei diretamente com as artesãs de Paulicéia/SP, o que me possibilitou ainda mais sentir-me amado e pertencente a um grupo acolhedor. Todavia, no contexto acadêmico houveram também situações em que fui colocado como vitimista e em que tive de lidar com as construções sociais homofóbicas, mesmo que de forma indireta.

A Faculdade me permitiu, dentre outras coisas, pesquisar a composição de LGBT+ nas empresas regionais. Das trinta e duas empresas que pesquisei, somente duas delas possuíam pessoas deste grupo em cargos de liderança, evidenciando a dificuldade do grupo a esses espaços, sobretudo no corporativo. Dentre as causas dessa discrepância, está a ausência do debate acerca dos grupos minoritários especialmente no ambiente acadêmico de minha formação, o que reflete diretamente tais situações, voltadas os estereótipos lançados aos membros da comunidade LGBT+ em contextos profissionais. Hoje estou formado, fui membro da 1ª turma de Gestão Comercial da FATEC/Adamantina, e meu artigo de Trabalho de Graduação, que construí em colaboração à minha orientadora, traz discussões da temática que tanto me representa, uma vez que já foi submetido e provavelmente será publicado em breve; digo com firmeza que atualmente, e em um processo contínuo, possuo minha independência social e econômica, não mais limito o meu ser aos ideais cultivados por outros ou por cenários e núcleos específicos, agora posso ser, sem medida, extensão, profundidade, ao estímulo da independência”.

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