Cidades

Sócia de bar de samba e brasilidades em Adamantina denuncia preconceito, intolerância e ataques

Representante do Encruza 7 Bar denuncia preconceito e intolerância após nova onda de ataques.

Por: Da Redação atualizado: 17:59
Bar Encruza 7, no Parque dos Pioneiros, em Adamantina (Siga Mais). Bar Encruza 7, no Parque dos Pioneiros, em Adamantina (Siga Mais).

O Encruza 7, bar de temática ligada a samba e brasilidades, localizado na região do Parque dos Pioneiros, em Adamantina, voltou a denunciar episódios de preconceito, intolerância e ataques direcionados ao estabelecimento. Nesta segunda-feira (13), a sócia e idealizadora do espaço, Maria Eugênia, publicou uma "Carta de Desabafo" nas redes sociais em que afirma que esta será a última manifestação pública do empreendimento sobre o assunto e relata episódios de discriminação enfrentados desde antes da inauguração.

Na publicação a empresária afirma que o estabelecimento foi criado para celebrar a cultura brasileira, o samba e as brasilidades, e não para representar ou promover qualquer religião. "O Encruza 7 nunca foi um espaço religioso. Nunca fizemos culto, nunca tentamos convencer ninguém de qualquer crença. É um bar. Um lugar para ouvir samba, comer bem, reunir amigos e celebrar a cultura brasileira", escreveu.

Antes da abertura do Bar, no final de abril, os proprietários Maria Eugênia e Vitor Brunelli apresentaram o conceito do empreendimento pelas redes sociais.

Na ocasião, destacaram que o espaço nasceu para ser um ambiente de convivência, diversidade e respeito às diferentes manifestações culturais e religiosas. "Todas as crenças são bem-vindas. Todas as fés são respeitadas. Todas as formas de existir têm espaço", dizia a publicação de apresentação do Encruza 7.

Maria Eugênia é praticante da Umbanda há cerca de dez anos, informação que nunca foi ocultada pelos idealizadores do empreendimento.

Primeiras manifestações ocorreram em maio

Pouco depois da abertura do estabelecimento, em maio, a empresária gravou um vídeo respondendo aos primeiros comentários ofensivos publicados nas redes sociais.

Na ocasião, afirmou que o objetivo sempre foi criar um ambiente acolhedor e reforçou que clientes de qualquer religião são bem-vindos. "Infelizmente estamos enfrentando ataques e comentários cheios de intolerância, mas acreditamos que nada fala mais alto do que a verdade e a experiência de quem vive o nosso espaço de perto. Antes de julgarem, venham nos conhecer", dizia a mensagem divulgada na época.

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"Isso não é crítica. Isso é preconceito"

Na nova carta publicada nesta segunda-feira, Maria Eugênia afirma que aceita críticas relacionadas ao atendimento, à gastronomia ou ao funcionamento do estabelecimento, mas diferencia essas manifestações de ataques motivados por preconceito religioso.

Segundo ela, o que mais a entristece é ver o trabalho do bar resumido a expressões como "bar da macumba", "lugar amaldiçoado" ou "lugar do diabo".  "Isso não é uma crítica. Isso é preconceito", escreveu.

Ela também afirma que parte dos ataques parte de pessoas que sequer conheceram o estabelecimento.

Crítica à intolerância e à incoerência

Outro trecho da carta aborda aquilo que a empresária considera uma contradição presente na sociedade.

Segundo ela, muitas pessoas valorizam manifestações culturais brasileiras e utilizam elementos associados às religiões de matriz africana como símbolos de proteção, mas rejeitam referências semelhantes quando presentes na identidade visual do Encruza 7.

Maria Eugênia cita como exemplo plantas ornamentais bastante comuns em residências e estabelecimentos comerciais, como a Espada-de-São-Jorge e a Espada-de-Santa-Bárbara, tradicionalmente associadas, respectivamente, aos orixás Ogum e Iansã em religiões de matriz africana.

Para ela, o preconceito decorre, muitas vezes, do desconhecimento sobre a cultura afro-brasileira. "O preconceito quase sempre nasce do desconhecimento", afirma.

Empresária também relata decepção com parte dos ataques

Na carta, Maria Eugênia relata ainda que alguns comentários negativos teriam partido de pessoas do próprio setor comercial e até de pessoas próximas.

Segundo ela, entristece perceber que empreendedores do mesmo segmento optem por desencorajar clientes a conhecer o estabelecimento. "Há espaço para todos. Nunca precisamos diminuir ninguém para defender o nosso trabalho", escreveu.

Ela acrescenta que também recebeu manifestações preconceituosas de pessoas que imaginava serem amigas e, em alguns casos, até de familiares que nunca visitaram o local.

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"Seguiremos trabalhando"

Ao encerrar o texto, a empresária afirma que esta será a última manifestação pública do Encruza 7 sobre o tema.

Segundo ela, o estabelecimento não foi criado para alimentar conflitos, responder provocações ou disputar espaço com outros empreendedores, mas para valorizar a cultura brasileira e promover encontros entre pessoas. "A quem nos enxerga como concorrência e sente necessidade de nos diminuir para se fortalecer, desejamos sinceramente muita paz. Que cada estabelecimento prospere pelo seu próprio trabalho, e não pelo enfraquecimento do outro", escreveu.

Ela afirma que a resposta do empreendimento continuará sendo o trabalho diário. "Seguiremos fazendo o que sempre fizemos: trabalhando, aprendendo, evoluindo e recebendo cada cliente com respeito, alegria e gratidão."

Intolerância religiosa é crime

A Constituição Federal assegura a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. No Brasil, a discriminação motivada por religião pode configurar crime, conforme a Lei nº 7.716/1989, que trata dos crimes resultantes de preconceito ou discriminação.

Embora o Encruza 7 afirme não ser um espaço religioso, a empresária sustenta que parte dos ataques recebidos decorre justamente da associação do estabelecimento às religiões de matriz africana por causa de sua identidade visual, de sua temática cultural e da religião professada por uma das sócias.

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