Protagonismo: como Sônia Moreno transformou perdas em um negócio de sucesso e inspiração regional
Empreendedora de Osvaldo Cruz encontrou no gengibre a reconstrução da própria vida.
“Foi na dor. Começou na dor.” A frase é dita sem cerimônias por Sônia Maria Moreno. E talvez nenhuma outra consiga resumir tão profundamente a trajetória da empreendedora de Osvaldo Cruz (SP), que há uma década transformou perdas pessoais, dificuldades financeiras e inseguranças em um negócio consolidado, reconhecido regionalmente e sustentado por uma rede de conexões humanas construída a partir do cooperativismo, da fé e do trabalho.
Hoje, aos olhos de quem encontra os produtos da Moreno Gengibres em feiras, farmácias, universidades e pontos comerciais do interior paulista – sobretudo no oeste do estado de São Paulo e estados vizinhos – o que aparece é uma marca fortalecida, dona de uma linha diversificada de produtos artesanais à base de gengibre e frutas desidratadas.
Sônia leva seus produtos à sua banca em Adamantina (Acácio Rocha/Siga Mais).
Mas a origem da empresa está muito distante da ideia de planejamento empresarial tradicional.
Ela nasceu em meio ao fim de um casamento de 30 anos, à morte do pai — sua principal referência afetiva — e a um período de fragilidade emocional e financeira. “Eu precisava me reinventar. Meu casamento acabou, meu pai faleceu, tive problemas de saúde e fiquei praticamente um ano parada. Eu precisava preencher aquele vazio”, relembra.
O começo improvável
Em 2016, sem capital e sem um plano estruturado, Sônia começou a buscar caminhos para reconstruir a própria vida. O empreendedorismo, segundo ela, sempre esteve presente em sua essência, mas ainda sem uma direção clara.
Foi então que surgiu um elemento improvável: o gengibre.
Raiz de gengibre (Tohamina/Magnific).
A inspiração veio de diferentes memórias afetivas. Primeiro, de uma antiga conversa com dona Nair Kobayashi, uma senhora de 90 anos de Osvaldo Cruz, que havia lhe ensinado técnicas artesanais de conserva de gengibre. Depois, de um sonho. “Uma noite eu sonhei com gengibre. Sonhei que estava mexendo com gengibre”, conta.
Da cozinha improvisada surgiram os primeiros cristais de gengibre. Pequenas experiências feitas manualmente, em embalagens simples, levadas inicialmente para amigos, integrantes do coral da igreja e conhecidos.
Diversidade de produtos com gengibre (Acácio Rocha/Siga Mais).
A primeira venda aconteceu quase sem intenção comercial. Em uma excursão organizada pela FAI, Sônia levou sete pequenos potes do produto dentro do ônibus. “Perguntaram quanto custava e eu nem tinha preço. Falei: ‘Ah, dez reais’. Voltei embora com R$ 70 e feliz da vida”, recorda.
Na segunda-feira seguinte comprou mais gengibre. Depois meia caixa. Depois caixas inteiras. E nunca mais parou.
A reconstrução pela necessidade
A Moreno Gengibres não nasceu de uma oportunidade confortável de mercado. Nasceu da urgência. “Eu precisava vender porque precisava pagar as contas. Tinha filha entrando na faculdade, filha querendo casar. Eu precisava realmente me reinventar”, afirma.
O trabalho ocupou o espaço deixado pela dor. “Eu me joguei no trabalho. Sem hora para dormir, sem hora para acordar. Sem medo de oferecer meu produto”, relata. E aquilo que começou artesanal e improvisado, rapidamente passou a exigir conhecimento técnico, adequações sanitárias, regularização e gestão empresarial.
Entrega de produtos em um dos pontos de venda em Osvaldo Cruz (Acervo Pessoal).
Empreendedora apresenta seus produtos em uma rede de supermercado em sua cidade (Acervo Pessoal).
Sônia buscou qualificar tudo e buscou sérvios profissionais para essas tarefas. Criou tabelas nutricionais, estruturou a engenharia de alimentos, regularizou embalagens, implantou código de barras e organizou emissão de notas fiscais desde os primeiros passos do negócio. “Falar ‘feito à mão’ é bonito. Mas na hora de pôr a mão… eu nunca tinha ralado, cortado. Tudo foi aprendizado”, relembra.
Produtos do seu mix em evento regional (Acervo Pessoal).
Versatilidade para produzir e vender (Acervo Pessoal).
O produto que se transformaria no carro-chefe da marca também surgiu quase por acaso. Depois de utilizar mel no processo de cristalização do gengibre, sobrava um líquido aromático que parecia não ter utilidade. Foi então que uma memória da infância reapareceu. “Minha avó fazia xarope para tudo. Eu pensei: vou fazer um xarope de gengibre.”
O resultado se tornou o produto mais conhecido da Moreno Gengibres: o xarope natural de gengibre.
Cooperativismo que acreditou primeiro
Em meio às dificuldades financeiras, Sônia encontrou um parceiro decisivo para transformar uma ideia artesanal em um empreendimento sustentável: o Sicredi. A conexão começou por indicação de amigos que acreditavam no potencial do negócio, em especial o incentivo dado pela professora Izabel Castanha Gil, de Adamantina (SP). “Eu não tinha praticamente nada. Mas o Sicredi acreditou no meu sonho”, afirma.
Ela recorda com emoção a primeira visita à unidade em Adamantina, distante cerca de 30 km de sua cidade, e o acolhimento recebido ainda quando a empresa sequer estava estruturada. “O gerente da agência em Adamantina na época, Marcos Antônio Peruchi, tomou um café comigo e falou: ‘O seu sonho tem futuro. O Sicredi vai acreditar no seu sonho’.”
Com quem a incentivou, professora Izabel Castanha Gil (Acervo Pessoal).
Foi ali que começou uma relação que ultrapassaria a simples prestação de serviços bancários, aliás, que poderia acessar em sua cidade, na rede bancária tradicional. Porém, encontrou no modelo cooperativista o acolhimento e a percepção para sua necessidade e seu negócio.
Capital de giro, crédito para compra de panelas, embalagens, caixas, vidros, insumos e equipamentos passaram a viabilizar etapas fundamentais do crescimento da empresa. “Teve um inverno em que eu tinha produto para vender, mas não tinha vidro, não tinha embalagem. O Sicredi entrou em várias etapas da minha história”, relata.
Sônia leva seus produtos em feiras e eventos na região (Acervo Pessoal).
Ela afirma que o apoio da cooperativa foi determinante para sua autonomia financeira e emocional. “Se não fosse o Sicredi, acho que eu não estaria contando essa história para você hoje.”
A relação evoluiu para além do crédito. Sônia passou a integrar o Comitê Mulher do Sicredi, tornou-se coordenadora de núcleo e começou a atuar em projetos ligados à educação financeira e ao empreendedorismo feminino. “Vestir a camisa do Comitê Mulher foi algo emocionante. Eu me senti empoderada”, afirma.
Uma rede construída por conexões
Ao longo dos anos, a Moreno Gengibres deixou de ser apenas uma marca de produtos artesanais. Transformou-se em uma ponte entre pessoas, regiões, produtores rurais, universidades, mulheres empreendedoras e iniciativas sociais.
Os fornecedores de gengibre vieram de conexões construídas com produtores do interior paulista, especialmente Tapiraí, na região de Sorocaba. Já os produtores de mel, de Adamantina, passaram a integrar a cadeia produtiva regional.
Presença em feira realizada em Presidente Prudente (Acervo Pessoal).
Expositora na Feira do Empreendedor 2025 na capital paulista (Acervo Pessoal).
As experiências com cursos e feiras abriram portas para universidades, assentamentos rurais e redes comerciais e hoje, os produtos da Moreno Gengibres chegam a cidades do interior paulista e estados vizinhos.
A empreendedora também ministra cursos sobre desidratação de gengibre e processamento de alimentos, levando conhecimento a outras comunidades. “É muito mais do que um negócio”, resume.
Mulher que inspira mulher
A trajetória pessoal de Sônia também se transformou em uma bandeira coletiva.
Ex-presidente da associação Artplic, ligada às mulheres artesãs de Osvaldo Cruz, ela passou a defender o protagonismo feminino como uma missão de vida. “Mulher que inspira mulher.” Esse foi o lema que adotou durante sua gestão.
Exposição na Faculdade Reges de Osvaldo Cruz (Acervo Pessoal).
Hoje, através do Comitê Mulher do Sicredi, ela desenvolve projetos voltados à educação financeira e ao empreendedorismo feminino, especialmente para mulheres do agro. “Quero despertar mulheres que estão adormecidas. Mostrar que elas podem ser protagonistas do próprio sonho”, afirma.
Partilhando sua história com mulheres do agro em Adamantina (Acácio Rocha/Siga Mais).
As ações envolvem encontros, rodas de conversa e cafés com mulheres do campo, estimulando autonomia financeira e geração de renda. “Se mora no sítio, faça pimenta em conserva, faça doces, faça geleias, e seja protagonista do seu próprio sonho”, reforça.
O legado da dignidade
Talvez a maior transformação da trajetória de Sônia Moreno não esteja apenas no sucesso empresarial.
Mas na forma como ela redefiniu a própria identidade. “Eu era a esposa do doutor. A Sônia era ninguém”, diz, ao recordar os anos em que viveu em posição secundária dentro do casamento.
Hoje, ela se reconhece como protagonista da própria história. “Se alguém perguntar para quem eu tiro o chapéu, eu tiro o chapéu para mim”, afirma.
Reconstruiu a vida praticamente do zero (Acácio Rocha/Siga Mais).
A frase carrega o peso de quem reconstruiu a vida praticamente do zero. Uma mulher que saiu da dor para criar renda, autonomia, reconhecimento e pertencimento.
Que encontrou no cooperativismo um instrumento de apoio concreto. E que transformou um simples cristal de gengibre em símbolo de dignidade. “Hoje eu posso falar: se quero comprar algo para minha filha, para meu neto, eu compro com o meu próprio suor. Isso é muito gratificante.”
Cooperativas de crédito: quando o financiamento vem acompanhado de relacionamento e desenvolvimento
Para milhares de pequenos empreendedores brasileiros, especialmente em cidades do interior, o acesso ao crédito ainda representa um dos principais desafios para transformar ideias em negócios sustentáveis. Nesse cenário, as cooperativas de crédito têm assumido um papel cada vez mais relevante ao oferecer não apenas produtos financeiros, mas também proximidade, orientação e apoio ao desenvolvimento local.
Diferentemente das instituições financeiras tradicionais, as cooperativas são formadas pelos próprios associados, que participam da gestão e dos resultados da organização. Na prática, isso significa que os recursos movimentados retornam para a própria comunidade por meio de crédito, investimentos, projetos sociais, programas de educação financeira e iniciativas voltadas ao fortalecimento da economia regional.
Krentrão, bebida à base de gengibre, sem álcool, está no seu mix (Acácio Rocha/Siga Mais).
No caso dos pequenos empreendedores, o impacto costuma ir além da simples liberação de recursos. Muitas vezes, o primeiro apoio recebido é a escuta. Em diferentes regiões do país, histórias de negócios que começaram em cozinhas domésticas, pequenas propriedades rurais, garagens ou espaços improvisados têm encontrado nas cooperativas um ambiente favorável para crescer.
Além de linhas de crédito para capital de giro, aquisição de equipamentos, ampliação de estruturas e compra de insumos, cooperativas como o Sicredi oferecem consultoria financeira, orientação de gestão, programas de capacitação e iniciativas voltadas ao empreendedorismo feminino, rural e comunitário.
Atendimento na feira livre dominical em Adamantina (Acácio Rocha/Siga Mais).
Outro diferencial está na presença local. Com equipes inseridas nas comunidades onde atuam, as cooperativas conseguem compreender de forma mais próxima a realidade econômica dos associados e construir soluções compatíveis com cada necessidade.
Os números demonstram a força desse modelo. Nos últimos anos, o cooperativismo de crédito ampliou significativamente sua participação no sistema financeiro nacional, alcançando milhões de associados em todo o país e fortalecendo especialmente municípios de pequeno e médio porte, onde muitas vezes representa uma das principais portas de acesso a serviços financeiros.
Diversidade de produtos com gengibre (Acácio Rocha/Siga Mais).
Para empreendedores como Sônia Moreno, da Moreno Gengibres, esse apoio se traduz em algo que vai além das operações financeiras. Representa confiança, incentivo e oportunidade de transformar um projeto pessoal em fonte de renda, autonomia e realização.
Ao conectar pessoas, negócios e comunidades, o cooperativismo de crédito consolida seu papel como uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social, capaz de impulsionar sonhos individuais e, ao mesmo tempo, gerar benefícios coletivos para toda a região.