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Pequenas Mentiras

Ameaça fatal

18:18

As relações ficam ainda mais suspeitas, e perigosas, nos bastidores do poder.

Por: Cesar Carvalho | pequenasmentiras49@gmail.com

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Ameaça fatal

Na rua, Jotabê caminhava em direção ao carro, estacionado pouco a frente, quando seu celular tocou. Tirou-o do bolso e o atendeu, mas, antes que dissesse alô, o telefone emudeceu por falta de bateria. Entrou no carro e colocou o celular no painel, conectando-o ao carregador. Ligou o motor e saiu cantarolando: Quando não é um vereador roubando, é um deputado/Eu quero me esbaldar, quero lavar a alma/Quem sabe, sabe; quem não sabe bate palma.
Parou num semáforo. À sua esquerda, a passageira do carro ao lado olhou para ele e começou a rir. Jotabê ouviu as risadas e voltou-se. Ela não teve dúvidas, falou em voz bem alta:
− Você desafina muiiiiiito – e riu.
− Quem canta seus males espanta – falou em voz alta e mostrou a língua para a garota, que reagiu, brava:
− Babaca! Sua música não tá com nada, voz de taquara rachada – e gritou, enquanto o sinal abria e o carro se movimentava – idiota!
Jotabê deixou o carro da garota ganhar distância. Não daria importância a uma dondoca cujos pais, certamente, faziam parte da elite local e, portanto, tinha certeza, eram reacionários. E depois, o dia tinha sido muito produtivo para perder tempo com aquela guria. Vendera as imagens que roubara de Danilo por um preço excelente, dinheiro que somado aos que depositara antes, lhe daria a chance de viajar por muito tempo e, quem sabe, com mais alguns golpes, se aposentar. E, caramba, morando no exterior não precisaria mais fingir-se de pobre, sempre sem dinheiro, principalmente na hora de pagar as contas. Ganhara o apelido de Coçaco, ainda que ninguém o chamasse assim e achassem que ele não sabia. Mas, sabia sim. Tinha plena consciência de que ganhara esse apelido por causa de seu gesto brincalhão na hora de pagar: enfiava a mão no bolso, como se fosse pegar o dinheiro, coçava o saco e ria de todo mundo. Aí os amigos juntaram as palavras coçar e saco e criaram Coçaco.
O celular tocou. Jotabê fechou as janelas do carro e atendeu no viva-voz, sem conseguir identificar a chamada:
− Alô!
− Olá, Jotabê! Tudo bem com você? Precisamos conversar.
Jotabê desligou o telefone. Brecou. Conseguiu ouvir o ruído estridente dos pneus do carro que, logo atrás, freou a tempo de evitar uma batida. Jotabê olhou pelo retrovisor, engatou a marcha e pisou no acelerador, ganhando velocidade aos poucos. Aos gritos do motorista que o ultrapassou, limitou-se a acenar num pedido silencioso de desculpas. Parou o carro na primeira vaga que encontrou. Deu um murro no volante e falou em voz alta:
− Que merda é essa! Como o Jandir conseguiu meu telefone?
Depois, pegou o telefone do painel, tirou o chip, amassou-o e jogou-o pela janela. Esta merda não poderia estar acontecendo. Afinal, como Jandir teria conseguido o número do telefone? Ele lembrava-se muito bem. Ao telefonar para negociar a venda das imagens dos índios sendo presos havia usado outro número. Chip do qual tinha se livrado assim que pegou o dinheiro do investigador. E, se ele tinha seu número do telefone e seu nome, ainda que fosse apenas um apelido, Jotabê estava com os dias contados. Jandir não era o tipo de policial que seguia regras. Muitos dos bandidos do Centro do Poder tremiam ao ouvir seu nome. Ele era implacável. Batia. Torturava. Matava. Sem hesitação. Depois, arrumava um jeito de produzir provas contra as vítimas. Processado algumas vezes por assassinato, outras por abuso de autoridade, saía sempre inocentado dos julgamentos e aclamado por muita gente da cidade que o considerava um herói. A velha história de bandido bom é bandido morto. E Jotabê não queria cair na mão desse carrasco. Urgia esconder-se. Mas onde? Como? Aproveitar o dinheiro e fugir?
Começou a suar frio. Que fazer? Não tinha como pedir ajuda ao pessoal do partido, pois estava prestes a ser expulso. Além do mais, como explicar a eles que estava sendo perseguido pela polícia? Que desculpas inventaria? Falar que vendeu imagens roubadas para a TV? Nem pensar. O que fazer? Jandir era perigoso demais e seu medo aumentava. Melhor seria, antes, conversar com Danilo que, apesar de moralista e chato, tinha bom senso e a cabeça fresca. Quem sabe encontraria alguma saída.
Consultou o relógio digital do painel do carro e falou para si mesmo, em voz baixa:
– Danilo tá no trabalho. Vou ligar na prefeitura.
− Saiu?!... Entendi. Saiu cedo... Não. Tudo bem. Ligo na casa dele. Obrigado.
− Danilo? É o Jotabê.... Eu quero falar com você... urgente! Ah, você também quer falar comigo? O que é?...  Tá. Tô indo praí.
Jotabê ligou o carro, olhou pelo retrovisor e saiu em alta velocidade, sequer percebendo o radar semafórico que registrou a infração. Pela voz de Danilo, alguma coisa tinha acontecido, mas o quê? Que mais poderia acontecer? Já não chega a ameaça de Jandir? Ou será que é algum problema com Baiá? Justo agora que poderia vender sua imagem por preços cada vez maiores, ganhando rios de dinheiro, deveria sair de cena? Muito azar. Mas, enfim, melhor fugir com dinheiro do que ser um morto rico.
Ao chegar, foi recebido de forma habitual. Cumprimentou Danilo e perguntou:
− Que aconteceu? Saiu mais cedo hoje.
− Vamos até a cozinha tomar um café?
Jotabê acenou com a cabeça e dirigiram-se à cozinha, em silêncio. Jotabê tinha certeza de que Danilo o torturaria novamente. Faria o café em silêncio. Serviria o café em silêncio. Beberia o café em silêncio. Daria o último gole e, em silêncio, colocaria a xícara na mesa. Para aumentar a angústia, faria uma pausa ou qualquer comentário boboca sobre o sabor do café. Só então tocaria no assunto, fosse ele qual fosse. E a angústia aumentava a cada passo pelo corredor e piorou na cozinha enquanto o ritual se processava. Depois de colocada a xícara na mesa, Danilo olhou para Jotabê e disse:
− Ainda bem que você apareceu.
Jotabê ameaçou falar qualquer coisa, mas Danilo, sem elevar o tom de voz, falou em seguida:
− Baiá e Avati precisam mudar daqui. Hoje.
Jotabê ficou estático. Desviou os olhos de Danilo. Procurou ajeitar-se na cadeira e serviu-se de mais café. Porra! Tenho que fugir da polícia e Danilo vem com esse papo! Logo agora? Baiá e Avati que se danem. São maiores de idade. Fixou os olhos em Danilo e falou:
− Pra dizer a verdade, Danilo, não vim aqui falar deles... – esperou uma reação que não veio e continuou – Tô com um problema maior, sabe? – esperou nova reação. Continuou – Você não vai acreditar – fez nova pausa, esperou e nada – Tô sendo perseguido Danilo. Pela polícia.
− Pela polícia? Que história é essa?
− Não sei explicar. Eles descobriram meu número e agora vão me achar.
− Como não sabe explicar? O que você fez para ser procurado?
− A história das fitas, lembra? Já te contei. Vendi prum monte de gente. Inclusive pro Jandir, o investigador da polícia. Ele que está atrás de mim. Tô fudido. Se ele me pegar, não escapo. Ele me mata.
− Jotabê, deixe-me entender uma coisa. Acho que você não contou essa história direito não. Tá. Tudo bem. Você vendeu a mesma coisa para vários concorrentes. Tudo bem. Mas não é proibido gravar. Qualquer um pode gravar.
− Não quando você vende uma cópia para o prefeito, uma para o delegado e outra para a TV.
Danilo começou a rir. Jotabê se indignou:
− Pôrra, Danilo. Tô ameaçado de morte e você rí?
− Não foi por falta de te avisar. Você ia fazer merda. E fez!
− Preciso de ajuda. O que eu faço? Tô em dúvida... Por favor.
− Não sei dúvida do quê! Você só tem uma saída, fugir. Cair fora. Esconder-se e demorar a voltar. Melhor nem voltar. A fama desse Jandir não é fantasia. Você sabe.
− Você acha que eu deveria ir pro exterior? Ficar uns tempos fora?!
− Ir pro exterior?! Mas, e o dinheiro? Vai emprestar de alguém?
− Bem... Na verdade... Eu tenho algum dinheiro sobrando.
− Você tem?!
− Tenho – meio sem graça, fez uma pequena pausa e continuou – Um dinheirinho que estava juntando para ajudar a família, sabe. Minha mãe mora no norte, na beira do rio Madeira, perto de Porto Velho, sabe. Tá lá, sozinha. E eu quero trazer ela pra cá. Agora não vai dar, né. Vou ter que adiar. Esse dinheiro vai ser meu passaporte pra liberdade. Não fico aqui nem morto.
− Se ficar, com certeza será morto – disse Danilo, rindo. Diminuiu o riso e continuou: − Acho que você deveria desaparecer de verdade, esteja onde estiver.
− Desaparecer? Esteja onde estiver? Não entendi.
− É simples. Você tem que ser invisível. Não se identificar. Não usar celular, internet, rede social, nada. Não existir. Aí fica difícil o Jandir te achar. Mas, mudando de assunto, como resolveremos o caso do Baiá e do Avati?
Jotabê fez ouvidos de mercador. Danilo levantou-se, pegou o bule com café e dirigiu-se ao fogão. Esquentou o café e voltou a sentar-se, depois de servir Jotabê, que se remexia, inquieto, na cadeira.
− As time goes by... Desembuche – disse Danilo, imperativo.
Jotabê desviou o olhar para a parede da cozinha e comentou:
− Agora que estou reparando! Você mandou arrumar o buraco!
− Claro que você já reparou! Veio aqui várias vezes. Não fuja do assunto.
Sem alternativa, Jotabê resignou-se a falar. Primeiro, ajeitou-se na cadeira, deu uma encolhida nos ombros, depois disse:
− Danilo, pensei bastante a respeito, sabe? O Baiá tem grana suficiente pra se virar sozinho. O Avati, logo, logo, ganha o dele. Está se dando super bem na organização dos índios. Então, eles que se virem.
− Como eles que se virem? Ficou maluco? São descartáveis agora?
− Que é isso, Danilo? Claro que não. E sabe o que vou fazer? Vou dar um celular pro Baiá e passar todos os meus contatos pra ele. Assim ele continua ganhando uma grana e, quem sabe, não vira um político de verdade?
Antes de levantar-se da mesa para ir embora, Jotabê perguntou:
− Você acabou não me respondendo a pergunta que te fiz logo que cheguei. Você não trabalhou hoje?
− Fui dispensado mais cedo.
− Ué?! Por quê?!
− Jotabê, vai cuidar da sua vida, vai.
− Já sei. Já sei. Você é adepto da campanha pela vida. Cada um cuida da sua.

 
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