Do escritório ao haras: a trajetória de Wilson Dosso e a revolução dos leilões de cavalos no Brasil
Empresário construiu carreira do zero, inovou com leilões virtuais e agora leva modelo aos EUA.
A trajetória do criador de cavalos e empresário Wilson Vitório Dosso é, acima de tudo, uma história de construção — paciente, estratégica e marcada por decisões que, muitas vezes, exigiram recomeços. Do início precoce no mercado de trabalho à consolidação como referência nacional na criação de cavalos da raça Quarto de Milha, no Haras WV, em Mariápolis e nos leilões de equinos pela bandeira WV Leilões com sede em Lucélia – ambas as operações referência em reputação e credibilidade em todo o país – o empresário moldou um caminho que hoje influencia todo um setor.
Em seu haras, em Mariápolis, ele pausou sua agenda dinâmica, recebeu o Siga Mais e contou sua trajetória de sucesso. “Foi um caminho longo. Eu comecei a trabalhar aos oito anos de idade. Eu era office-boy de um escritório de contabilidade”, relembra. A carreira seguiu firme: vieram os estudos, a formação como contador, economista e auditor, e a construção de um grupo com quatro escritórios de contabilidade e uma empresa de auditoria.
Mas a ligação com o campo falava mais alto. “Quando ganhei o primeiro dinheirinho, por ter uma origem rural, eu acabei comprando uma propriedade rural. E, como qualquer garoto, comprei um cavalo de raça e um boi de raça”.
Wilson Dosso na sede do Haras WV (Siga Mais).
Foi nesse momento que encontrou o Quarto de Milha — e, com ele, uma paixão que mudaria completamente o rumo de sua vida. “Eu primeiro comecei a criar e depois fui para o esporte, porque precisava de uma base de animais. Desde o início, eu escolhia animais voltados para aquele esporte, sempre de olho em quem era o melhor”.
A estratégia deu resultado. Dosso construiu um plantel competitivo e dominante. “Nós ganhamos durante 10 anos o Campeonato Nacional de Laço e Bezerro. Era o campeonato mais importante da época”, conta. Mais do que vitórias, o período consolidou um método: seleção rigorosa, visão de longo prazo e compromisso com qualidade.
Haras WV (Siga Mais).
Haras WV (Siga Mais).
Haras WV (Siga Mais).
Ao longo do tempo, a atuação se expandiu para outras modalidades, como o tambor, onde permanece até hoje. “Recentemente, alcançamos pela terceira vez consecutiva o título de melhor criador no Brasil, de cavalos de tambor”, celebra.
Ainda assim, o caminho esteve longe de ser linear. Ao deixar a contabilidade aos 32 anos, acreditando que poderia viver da pecuária, enfrentou um choque de realidade. “Achei que viver de pecuária era fácil, mas não foi. Foi muito difícil. A receita é lenta, não vem como numa prestação de serviço”.
A necessidade de adaptação o levou aos leilões de gado, com a criação e expansão de estruturas em várias cidades da região, como Lucélia, Flórida Paulista, Osvaldo Cruz e Parapuã. Mas uma nova crise econômica impactou fortemente o setor. “As leiloeiras vendiam com seis meses de prazo, com qualquer gado, e isso levou a um baque muito grande.”
Haras WV (Siga Mais).
Haras WV (Siga Mais).
Haras WV (Siga Mais).
Foi nesse contexto que surgiu uma das decisões mais importantes de sua trajetória: manter apenas a base em Lucélia e reinventar o negócio. “Fundada em 1991, a Poema foi a única leiloeira que eu não me desfiz. Eu continuei com ela”, ressalta.
Início dos leilões de equinos e das transmissões
A transição para os leilões de equinos não foi apenas uma mudança de segmento, mas uma nova forma de pensar o mercado. Influenciado também por um pedido do filho — “Pai, eu não quero viver em São Paulo, arruma um negócio pra mim no interior” —, Dosso estruturou a WV Leilões com base na experiência acumulada e na credibilidade conquistada. “Não fomos tirar leilão de ninguém. Começamos do zero e fomos construindo.”
Esse processo de construção passou, necessariamente, pela inovação. Em um momento em que o mercado ainda dependia da presença física, Dosso enxergou o potencial da transmissão remota. “Eu já recebia compradores que levavam dois, três caminhões de cavalo para o Nordeste. Existia um vazio aí.”
A aposta foi ousada: usar a televisão para conectar vendedores e compradores distantes. Os espaços foram buscados junto a canais segmentados, com transmissão via satélite, como Agro Canal e Canal do Boi. “No começo, ninguém acreditava que alguém compraria um cavalo sem ver. Porque o cavalo é pessoal, a pessoa quer olhar, quer sentir.”
Estúdio da IPrime TV, braço tecnológico que atende a WV Leilões (Siga Mais).
Estúdio da IPrime TV, braço tecnológico que atende a WV Leilões (Siga Mais).
A resposta veio com transparência. “Nós criamos um leilão com credibilidade, mostrando altura, peso, características e até os defeitos dos animais.”
O modelo funcionou — e se tornou referência. Com o avanço da tecnologia, a operação deu um novo salto. “Quando a internet passou a oferecer mais robustez e suporte, lá por 2014, 2015, nós passamos a transmitir o mesmo leilão que estava na televisão. Fomos acostumando o público a olhar no celular”, apostou.
A transição foi inevitável. “Chegou um ponto que nós não precisávamos mais da televisão.”
Estúdio da IPrime TV, braço tecnológico que atende a WV Leilões (Siga Mais).
IPrime TV na transmissão de leilão da WV Leilões (Siga Mais).
Com isso, nasceu uma nova estrutura, hoje consolidada na IprimeTV, também sediada em Lucélia, capaz de transmitir leilões ao vivo de qualquer lugar do Brasil — e até do exterior. “Hoje nós fazemos leilões de qualquer lugar do Brasil e do mundo”, celebra orgulhoso.
Já a estrutura do estúdio, em Lucélia, permite realizar leilões virtuais com a mesma dinâmica e credibilidade.
Mais do que tecnologia, o que Dosso construiu foi um conceito. “Nós transformamos o leilão em um evento. Em muitos casos, em um ambiente de luxo”, conta. A agenda da WV em seu site lista mais de 100 leilões previstos para 2026, em diferentes regiões do país, e virtuais.
WV nos Estado Unidos
Esse formato, que une negócio, experiência e relacionamento, diferencia o mercado brasileiro de outros países. “Nos Estados Unidos, é diferente. Lá é comércio. Você vai, compra, paga até o lanche. Aqui virou evento social”.
Apesar das diferenças, o empresário já prepara o próximo passo: levar esse modelo ao mercado norte-americano. “Nós já temos uma base da WV nos Estados Unidos e queremos começar a operar lá rapidamente”, revela.
Crescimento e consistência
A confiança para dar esse salto vem de uma base construída ao longo de décadas. “Você tem que ser sério, responsável. Não pode enganar ninguém. Tem que ser homem. Sendo homem, você merece o respeito”, ressalta Dosso.
Essa filosofia se reflete não apenas nos resultados, mas na estrutura que sustenta o negócio. “A equipe é o que transforma visão em execução. Leilão não é improviso. É antecedência, método, detalhe”. Ao longo dos anos, a empresa formou profissionais em diferentes áreas, oportunizou carreiras e estruturou uma cadeia completa de serviços.
Ao lado da equipe, a família ocupa papel central. “A família dá direção, propósito e continuidade. Foi dentro de casa que surgiram decisões importantes”.
Empresário mira estratégias nos Estados Unidos (RZL Filmes).
No meio desse cenário, Dosso se vê como o ponto de equilíbrio. “Eu fico no centro tentando alinhar essas duas forças. De um lado, a equipe, que entrega. Do outro, a família, que sustenta”.
O resultado é uma trajetória que se sustenta não apenas pelo crescimento, mas pela consistência. “Essa história é contada por números, por resultado, por idoneidade, por seriedade, por relacionamento”, celebra.
De um menino que começou a trabalhar aos oito anos a um empresário que ajudou a transformar o mercado de leilões no Brasil, a trajetória de Wilson Dosso revela mais do que sucesso: revela método, visão e capacidade de adaptação. “Foi um caminho longo”, define. E, ao que tudo indica, ainda em plena construção.