Sirene que marca o ritmo de Adamantina há mais de 70 anos resiste ao tempo e à tecnologia
Tradição iniciada na década de 1950 segue como sÃmbolo da cidade e da história do comércio local.
Por décadas, um som característico tem marcado o início e o encerramento das atividades comerciais em Adamantina. Muito antes dos celulares, da internet e dos relógios digitais sincronizados por satélite, a sirene instalada na Ótica Relojoaria Confiança era uma das principais referências de horário para moradores e comerciantes da cidade.
Mantida há mais de 70 anos, a tradição começou com a fundação da relojoaria, por volta de 1952, e atravessou gerações. Hoje, o responsável por manter vivo esse costume é o empresário Gilson Kitamura, que herdou do pai a missão de acionar diariamente, de forma manual, o equipamento que se tornou parte da identidade sonora de Adamantina.
Em entrevista ao portal Siga Mais, Gilson relembrou as origens do serviço e explicou que a sirene teve funções que iam muito além da abertura e fechamento do comércio. “Quando havia alguma situação especial na cidade, como o falecimento de uma pessoa ilustre, a sirene era acionada como forma de aviso. Na virada do Ano Novo também tocávamos à meia-noite para que toda a cidade soubesse o horário exato”, recorda.
Segundo ele, em uma época em que a população não dispunha de meios precisos para consultar as horas, a sirene assumiu um papel essencial na rotina da cidade. “Nem televisão existia para informar o horário. Muitas vezes as pessoas dependiam do rádio. A sirene era uma referência para todo mundo”, afirmou.
A precisão era questão de honra
A tradição carregava consigo um compromisso rigoroso com a exatidão. Gilson conta que seu pai utilizava o sinal horário da Rádio Nacional de Brasília para calibrar diariamente os relógios da relojoaria. “O horário era ajustado todos os dias. Quando chegava oito horas da manhã, a diferença máxima era de sete ou oito segundos. Era um trabalho feito com muito cuidado”, relembra.
Gilson em entrevista ao jornalista Acácio Rocha (Siga Mais).
O processo exigia paciência e dedicação. Munido de um cronômetro mecânico, o fundador da relojoaria sincronizava os equipamentos manualmente para garantir que a sirene fosse acionada no instante correto.
A preocupação fazia sentido. Naquele período, a maioria dos relógios era mecânica e sujeita a variações provocadas por fatores como temperatura, umidade e desgaste natural das peças. “Praticamente todo mundo acertava o relógio pela nossa referência. Uma pessoa podia estar vários minutos adiantada ou atrasada sem perceber. Quando a sirene tocava, sabia que aquele era o horário certo”, explica Gilson.
O som que movimentava a cidade
A influência da sirene era tão grande que o seu acionamento se confundia com o próprio funcionamento do comércio.
Gilson lembra que bastava o sinal tocar às oito horas da manhã para que as portas dos estabelecimentos começassem a se abrir simultaneamente. “Você ouvia aquele barulhão das portas de aço sendo levantadas em toda a rua. Era uma verdadeira referência para o comércio.”
Rotina de todos os dias, na abertura e fechamento do comércio (Siga Mais).
Mesmo com a popularização dos celulares e relógios digitais, a tradição continua presente. Muitos comerciantes ainda utilizam a sirene como indicação para iniciar ou encerrar as atividades.
A importância do serviço ficou evidente nos momentos em que precisou ser interrompido para manutenção. “Quando a sirene parou, muita gente sentiu falta. Recebíamos pedidos pela rádio para que ela voltasse a funcionar. O próprio prefeito veio conversar comigo sobre isso”, conta.
Um ritual diário
Embora a tecnologia tenha reduzido a necessidade prática da sirene, Gilson mantém o compromisso diariamente. O acionamento continua sendo manual, repetindo um ritual construído ao longo de décadas.
Após tocar a sirene, ele costuma permanecer alguns minutos sentado em uma cadeira ao lado dos equipamentos, em um momento reservado para reflexão. “Depois que eu toco a sirene, sento aqui para pensar no dia. Planejo o que vou fazer, reflito sobre as coisas que aconteceram e no que posso melhorar. Fico aqui uns quinze ou vinte minutos para organizar tudo”, revela.
Uma tradição sem sucessores
Ao falar sobre o futuro, Gilson demonstra preocupação com a continuidade de uma das mais antigas tradições urbanas de Adamantina.
Gilson Kitamura faz o acionamento da sirene nos dias de funcionamento do comercio (Siga Mais).
Sem sucessores interessados em assumir a relojoaria e a responsabilidade de manter o serviço, ele reconhece que a história da sirene poderá chegar ao fim em algum momento. Já pensei nisso. Uma hora vai acontecer. A relojoaria não terá continuidade comigo. Acho que sou o último dessa tradição. Depois de mim, não sei o que será feito, porque não há herdeiros interessados em seguir com isso”, afirma.
Empresário dirige a Ótica e Relojoaria Confiança Siga Mais).
Apesar da incerteza sobre o futuro, o som da sirene continua ecoando diariamente pelas ruas centrais de Adamantina, ligando gerações e preservando uma memória coletiva construída ao longo de mais de sete décadas.
Mais do que indicar horários, ela se transformou em um símbolo da cidade — um patrimônio afetivo que resiste ao tempo, às transformações tecnológicas e às mudanças nos hábitos da população.
Enquanto continuar sendo acionada por Gilson Kitamura, a sirene seguirá lembrando aos adamantinenses que algumas tradições têm o poder de atravessar gerações e permanecer vivas na memória de uma comunidade.