Adamantina pelos olhos de quem veio de longe: histórias de recomeço revelam o valor da Cidade Joia
Imigrantes encontraram em Adamantina acolhimento, oportunidades e qualidade de vida.
O que faz uma cidade ser especial para quem vive nela? A resposta pode variar entre moradores, mas talvez ganhe um significado ainda mais profundo quando vem de pessoas que deixaram para trás seus países, suas culturas, suas famílias e toda uma trajetória de vida para recomeçar em outro lugar.
Nas comemorações dos 77 anos de Adamantina, o Portal Siga Mais ouviu quatro moradores que nasceram em outros países e escolheram a Cidade Joia para viver. Suas histórias são marcadas por desafios, coragem e superação, mas também por gratidão, acolhimento e esperança.
São relatos que ajudam a responder uma pergunta simples, mas poderosa: qual o valor que você dá para Adamantina?
Da televisão cubana para uma nova vida no interior paulista
Natural de Cuba, Jorge Alejandro Fernández Espinosa construiu sua carreira profissional no universo da comunicação. Trabalhou como jornalista, fotógrafo e atuou na televisão e no rádio de seu país.
A ligação com Adamantina começou por intermédio do pai, médico participante do Programa Mais Médicos, que chegou ao município em 2014 e decidiu permanecer após o encerramento do contrato.
Durante anos, Jorge ouviu relatos sobre a tranquilidade e a qualidade de vida da cidade. Em 2023, decidiu seguir o mesmo caminho.
Jorge Alejandro Fernández Espinosa (Siga Mais).
A mudança significou deixar para trás a esposa, familiares, amigos e toda uma história construída em Cuba. “Era aquele medo de pensar o que eu faria da minha vida. Mas, pouco a pouco, tudo foi tomando seu rumo”, recorda.
Hoje, Jorge trabalha como social media no Supermercado Godoy e também cursa ciências contábeis no Centro Universitário de Adamantina (FAI). Ele faz questão de destacar a acolhida recebida no ambiente de trabalho, na faculdade e na comunidade adamantinense.
Para ele, Adamantina possui riquezas que muitas vezes passam despercebidas por quem nasceu aqui. “Temos um tesouro nas mãos. Adamantina é uma cidade abençoada, tem tranquilidade, segurança e qualidade de vida. Nós que viemos de fora nos sentimos parte da sociedade adamantinense. Adamantina cresce e nós queremos crescer com ela”, afirma.
Professor venezuelano encontrou acolhimento e novas oportunidades
A história de Jesus Israel Usme também é marcada pela reinvenção.
Na Venezuela, atuava como professor de ciências sociais no ensino médio. Porém, diante das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país, precisou exercer diversas atividades para complementar a renda, trabalhando como ajudante de pedreiro, motorista e auxiliar de serralheria.
A chegada ao Brasil trouxe desafios comuns a muitos imigrantes: a adaptação cultural, o aprendizado do idioma e a reconstrução da vida profissional.
Jesus Israel Usme (Siga Mais).
Segundo ele, o acolhimento recebido pela população brasileira e pela comunidade adamantinense foi determinante para que a adaptação acontecesse de forma mais rápida. “Quando cruzamos a fronteira percebemos que o povo brasileiro é muito acolhedor. Recebemos ajuda de igrejas, de pessoas da cidade e de instituições que apoiam famílias em situação de vulnerabilidade. Isso fez toda a diferença”, relata.
Atualmente trabalhando no setor de recebimento de vasilhames do Supermercado Godoy, Jesus define Adamantina como uma cidade organizada, limpa e segura. “A cidade é ótima. É um lugar onde nos sentimos acolhidos. Existe aqui um verdadeiro tesouro”, destaca.
Ao mesmo tempo, ele aproveita para chamar atenção para uma necessidade enfrentada por muitas famílias estrangeiras: o acesso à moradia.
Segundo o venezuelano, políticas habitacionais que contemplem também imigrantes poderiam contribuir para uma integração ainda maior dessas famílias à comunidade local.
Uma decisão difícil em busca de um futuro melhor
A venezuelana Yusmary Tortolero Contreras nunca imaginou que um dia deixaria seu país.
Na Venezuela, trabalhava com pequenos empreendimentos familiares, produzindo bolos e alimentos para complementar a renda da casa. Seu marido atuava na área da saúde, em programas relacionados ao combate à malária e à dengue.
Mas o agravamento da crise econômica e social enfrentada pelo país tornou a permanência inviável. “Foi uma decisão muito difícil. Nunca tínhamos pensado em vir para o Brasil. Mas chegou um momento em que percebemos que não havia mais condições de continuar lá”, conta.
Yusmary Tortolero Contreras (Siga Mais).
Ao chegar a Adamantina, a principal preocupação era encontrar trabalho e garantir condições para sustentar a família.
Outro desafio foi a adaptação da filha à escola brasileira, que chegou primeiro à cidade. A barreira do idioma dificultava a comunicação com colegas e professores. “Não foi fácil aprender português. Ainda hoje estou aprendendo. Mas precisava entender as pessoas e ser entendida por elas”, relata.
Atualmente trabalhando no atendimento da padaria do Supermercado Godoy, ela afirma que encontrou em Adamantina um ambiente acolhedor e tranquilo. “Muitas pessoas perguntam por que não vamos morar em outra cidade. Mas nós conhecemos Adamantina e gostamos daqui. É uma cidade muito tranquila. Onde estamos é ótimo. Não precisamos de mais”, afirma.
Entre o Japão, o Peru e Adamantina
A história de Yuvitza Janet Calderon Nitzuma reúne diferentes culturas. Filha de mãe japonesa e pai peruano, viveu grande parte da vida no Japão antes de se mudar para Adamantina aos 19 anos.
A adaptação não foi simples. Além das diferenças culturais, precisou superar as dificuldades com o idioma enquanto cuidava dos filhos e construía uma nova rotina.
O acolhimento recebido pela família do pai de seus filhos foi fundamental nesse processo.
Yuvitza Janet Calderon Nitzuma (Siga Mais).
Com o passar dos anos, consolidou sua trajetória profissional e acadêmica. Formou-se em serviço social pela FAI, tornou-se cidadã brasileira e ingressou no serviço público municipal.
Hoje atua é funcionária pública concursada como orientadora social e secretária executiva dos conselhos municipais na Secretaria Municipal de Assistência Social.
“Adamantina me abriu os braços e acolheu minha família. Aqui construí minha vida, me formei e desenvolvi minha carreira profissional. Sou muito grata por tudo que encontrei nesta cidade”, afirma.
Um olhar que convida à reflexão
Embora tenham histórias diferentes, os quatro entrevistados compartilham sentimentos semelhantes: gratidão, pertencimento e admiração pela cidade que escolheram para viver.
Vindos de realidades marcadas por desafios econômicos, mudanças culturais e recomeços, eles enxergam em Adamantina características que muitas vezes passam despercebidas na rotina dos moradores: segurança, tranquilidade, acolhimento, oportunidades de estudo, trabalho e convivência comunitária.
Se para quem nasceu aqui essas qualidades podem parecer naturais, para quem veio de milhares de quilômetros de distância elas representam conquistas valiosas.
Talvez seja justamente esse olhar de quem chegou de fora que ajude a responder a pergunta proposta nesta reportagem especial de aniversário: afinal, qual o valor que Adamantina tem para você?
Para Jorge, Jesus, Yusmary e Yuvitza, a resposta parece estar nas oportunidades encontradas, nos laços construídos e na certeza de que, longe de suas terras natais, encontraram na Cidade Joia um lugar para chamar de lar.