Opinião

Aquele Olhar

Leia o novo conto de Cacá Haddad, comunicador, professor universitário, cineasta e autor literário.

Cacá Haddad Colunista
Cacá Haddad
(Imagem ilustrativa/Freepik). (Imagem ilustrativa/Freepik).

Surgiu com a mesma certeza do nascer de um sol. Em um dia não estava; no outro, eternizou-se. Trazia um olhar carregado, denso; não oferecia indulgência. Estava na esquina, caminho do meu trabalho, do meu dia e do meu cotidiano. O seu olhar era incompreensível, parecia inquirir os apressados que ali transitavam com seus habituais afazeres. Não eram todos que a notavam. Eu, particularmente, fiquei atarantado, desorientado e mergulhado em seu mundo. Parei o carro na esquina e não percebi os outros veículos atrás de mim. Só depois de ouvir uma buzinada atinei que deveria retomar o caminho das formigas que se dirigiam ao seu dia-a-dia infernal.

A manhã inteira fiquei pensando nela, naquele olhar, naquela postura de Afrodite plantada em uma eternidade sedutora e traiçoeira; uma beleza feminina fecunda. Mais de uma vez fui chamado a atenção pelos parceiros de trabalho que viam o meu estado catatônico. “O que houve? Está com a cabeça nas nuvens?” atento ao relógio na parede e o decurso do arrastar das agulhas do tempo

Porém, atento ao relógio na parede e o arrastar das agulhas do tempo, o ofício das atividades repetitivas do expediente enfraqueceu a idealização. Meus sentimentos arrefeceram e percebi que a batelada de encantamento esvanecera como nuvens que sucumbem ao vento.

Depois do dia de serviço, dediquei o final da tarde e as primeiras horas da noite à rotina familiar, aos filhos, à minha cansada esposa, também como eu, refém de seu hábito cotidiano de afazeres. Antes de dormir, pensei o quão inocente havia sido. “Imagina! Um simples olhar havia me deixado como um imberbe que sentiu a primeira faísca do amor. Que besteira!” Olhei para minha esposa na cama, já com os olhos fechados e as primeiras respirações profundas dedicadas a Morfeu. “Como pude ser tão infantil?”

Na manhã seguinte, ela estava lá, na mesma esquina, no caminho do meu dia, novamente com aquele olhar de Medusa, petrificando meus braços no volante. Milagrosamente, não havia nenhum carro no cruzamento. Observei atentamente sua pele de leite, o esticar de um sorriso cínico, o queixo alto que denunciava altivez desmedida. Não conseguia dirigir. Ali fiquei ao menos um minuto dormente, sem nenhum tipo de reação. Infantil?... Eu estava prostrado! Até que um motoqueiro me despertou com um sonoro “Acorda porra!”.

Mais uma manhã de martírio. Se me perguntassem a hora, olhava para o relógio de pulso e esquecia de dar a resposta. Se pediam um relatório, respondia bom dia! A manhã gasta com pouco foco no trabalho. A cabeça mergulhada naqueles olhos profundos, da intensidade de um buraco negro. Depois do almoço, o patrão me chamou. “Está acontecendo alguma coisa? Algum problema em casa?” Retomei a tarde com a mesma sensação do dia anterior; com peso na consciência.

Como pude? De novo me enamorei por uma menina, uma ninfeta de olhar certeiro. Sou casado, três filhos, um emprego estável. Minha esposa, assim como eu, é uma batalhadora; dirige todas as manhãs ao trabalho para cumprir sua função moderna e feminina. Quem essa moleca pensa que é? Não terá êxito em mudar a direção da minha sina.”

Na manhã seguinte, dirigindo e ouvindo rádio, fui enfrentar o dragão. Vou provar que é só um moinho de vento! Se lá estiver, vou mostrar quem está no controle. E ela estava, com a mesma pose, a mesma roupa, o mesmo olhar machadiano de cigana oblíqua e dissimulada. Minha coragem, de mãos dadas com meu orgulho, irritados e desafiados com a sedução que padecia, exigiram que eu estacionasse o carro cara a cara com meu algoz, evitando assim motoristas apressados. “Hoje ela não me pega!”... Pegou! Nem consegui desligar o carro. O locutor do programa matinal se dispôs a relatar as notícias do fim do mundo, mas eu não escutava. Fiquei trinta minutos fora do tempo, ignorante aos ruídos e agitações que atravessavam olhos e ouvidos, mergulhado sob uma água densa, um líquido amniótico que me exilava da existência, um desterro voluntário. O olhar era o mesmo, indiscreto, impiedoso e desumano, voltado contra a minha existência. Só despertei do transe porque ligaram do trabalho cobrando minha presença.

Cheguei correndo, suado, levando uma bronca do chefe. Pediu que aquilo não se repetisse. De fato, não houve mais reclamações no trabalho; resignado, me entreguei. Vi que não podia lutar, o melhor era aceitar, deixar-me levar por aquele arroubo visual. Entendi que era um títere em suas mãos, não tinha o que fazer. Mudar o percurso? Jamais! Criei uma organização própria para nossa relação promíscua. Acordava mais cedo, deixava os filhos meia hora antes na escola e ia para a lida. Minha esposa questionou: “Por que chegar mais cedo? As crianças estão abrindo a escola com o zelador!”, “O expediente do escritório está sobrecarregado. Será apenas por um período”, justificava.

Estacionava o carro, e antes de me entregar ao canto da sereia, colocava o despertador do celular para tocar. Era o sinal de que Ulisses deveria voltar à Ítaca. Assim existi por um mês. Sob o sol de manhãs delicadas ou sob a chuva e o vento que investiam inclementes, lá estava ela, enraizada na esquina. Sempre na mesma posição, com a mão sob o queixo, em pose de ninfa endiabrada. “Por que? Todos os dias eterna!” O mesmo olhar de Capitu, me arrastando como ondas para o fundo de um mar de angústia e delícia. Bentinho entregue às vagas que o afogam em um devaneio de tempo.

Nos primeiros quinze dias, já me acostumando à feitiçaria, desenvolvi certa consciência para trabalhar. Desempenhava as funções automáticas como gado no abatedouro, passo a passo vivendo sem saber que a morte poderia estar perto. Em casa, minha dócil esposa, entregue também às atividades de seu trabalho de Sísifo, não percebia minha cabeça avoada.

Ao final daquele mês, percebi que a ninfa desbotava, sua cor perdia vivacidade. Mesmo assim estacionava, colocava o despertador para me lembrar da vida e seguia o caminho do seu olhar inquieto.

As intempéries não a perdoaram. Começou a descascar, sua pele antes viva demonstrou cansaço, sua cor perdeu contraste, mas ainda o seu olhar me impelia ao nada do fim do mundo.

Em uma manhã prosaica, encontrei a escada apoiada em seu rosto. Um sujeito trazendo certa adiposidade, com um palmo de barriga e umbigo vazando por baixo da camiseta surrada, bruscamente rasgava seus olhos de ressaca, descartando seu olhar de papel, ora tão insidioso, aos pés do outdoor; agora eram fragmentos de um olhar. Desci do carro, fechei a porta nervoso e, gritando, disse que ele não tinha autoridade para tal. Tomei um empurrão, chorei e voltei para o carro com a não existência vazando pelos meus dedos. Um dia a ser esquecido.

Na manhã seguinte, na mesma esquina, uma nova figura exibia um olhar um pouco fugitivo e um tanto matemático. Trazia sorriso sarcástico, de cafajeste. Era um jovem de cabelos escuros e dentes brancos, posando para uma propaganda de jaqueta jeans, revelando peito liso e delineado. Na minha frente, um carro conhecido e estagnado. Era minha esposa, entregue ao doce olhar de um deus grego. Seu nome? Escobar!

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