Hospital de Base de Rio Preto institui o primeiro Centro de Manutenção de Órgãos do Brasil
HB realiza primeiro transplante de fígado em paciente SUS do país com máquina que preserva o órgão.
O Hospital de Base (HB) de São José do Rio Preto instituiu o primeiro Centro de Manutenção de Órgãos do país. A nova unidade é viabilizada pela aquisição da máquina de perfusão hepática Liver Assist, aliada à infraestrutura avançada do centro cirúrgico e à expertise da equipe multidisciplinar da instituição.
Nesta primeira etapa, conforme a instituição, a tecnologia é utilizada em transplantes de fígado, e o projeto prevê ampliar também para transplantar rins. O primeiro transplante já utilizando o novo equipamento foi realizado no último sábado (28).
Na prática, a máquina de perfusão Liver Assist mantém o fígado em funcionamento fora do corpo por meio da circulação contínua de uma solução oxigenada, controlando parâmetros essenciais como temperatura, fluxo e oxigenação. Esse ambiente permite não apenas preservar, mas também avaliar e até recuperar órgãos que, anteriormente, poderiam ser descartados.
Fígado submetido ao novo equipamento (Cedida/Da Assessoria).
Já quanto ao primeiro transplante realizado sábado passado, entre a captação do órgão, ocorrida também no centro cirúrgico do HB e o término do transplante transcorreram quase 13 horas. O fígado permaneceu por 4h35 na máquina de perfusão até ser transplantado no paciente, o analista de sistemas Rodolfo Aparecido Chicone, de 39 anos, morador de Araraquara. Conforme o HB, seu quadro é estável. Ele está internado na UTI do HB.
Referência em transplantes
O HB de Rio Preto e o complexo hospital ao qual integra, o da Fundação Faculdade Regional de Medicina (Funfarme), são um dos maiores centros transplantadores do Brasil. Desde 1990, quando foi instituído o Centro Integrado de Transplantes de Órgãos e Tecidos (Cintrans), a Funfarme já realizou mais de 5.800 procedimentos de fígado, rins, pâncreas, coração, pulmão, medula óssea e córneas. Deste total, foram realizados 968 transplantes de fígado e 2.170 de rim.
Além da iniciativa pioneira no país da criação do Centro de Manutenção de Órgãos, o HB de Rio Preto torna-se também o primeiro hospital vinculado ao SUS a realizar um transplante utilizando a máquina de perfusão hepática. Conforme a instituição, este projeto é totalmente financiado pela Funfarme e voltado aos pacientes do SUS.
A exemplo de Rodolfo, o primeiro transplantado com o novo equipamento, a Funfarme quer beneficiar muitas outras pessoas que estão na fila de espera e pretende expandir o seu Centro de Manutenção de Órgãos, incorporando tecnologias semelhantes para recuperar rins.
Tecnologia que pode salvar mais vidas
Segundo o diretor executivo da Funfarme, Horácio José Ramalho, a inovação representa um marco institucional. “Nosso complexo hospitalar existe para proporcionar bem-estar e salvar vidas. A incorporação da máquina de perfusão hepática marca um novo capítulo na história de nossa instituição, ao unir a excelência de nossos profissionais a esta tecnologia de ponta, beneficiando diretamente milhares de pacientes que aguardam por um transplante de fígado no país”, afirmou.
Paciente Rodolfo, o primeiro a usar o equipamento (Cedida/Da Assessoria).
A avaliação também é compartilhada pelo diretor geral da Famerp, Helencar Ignácio. Para ele, o avanço vai além da inovação tecnológica. “Há conquistas que representam mais do que inovação: representam maturidade institucional. Este avanço revela a capacidade da Famerp/Funfarme de integrar formação, pesquisa e assistência em alto nível, com impacto real na vida das pessoas”, declarou.
Mais eficiência e melhores resultados
De acordo com o diretor do Centro Integrado de Transplantes (Cintrans), Mario Abbud Filho, a tecnologia deve melhorar significativamente os resultados clínicos. “Queremos sempre oferecer melhores desfechos clínicos aos pacientes, como os com doenças hepáticas graves neste primeiro momento, e aumentar ainda mais o número de transplantes, contribuindo para que o país reduza a fila de espera”, destacou.
O cirurgião Renato Ferreira da Silva, responsável pela equipe que realizou o primeiro procedimento, reforça os ganhos práticos da inovação. “Poderemos salvar muito mais vidas. A máquina representa uma evolução significativa em relação ao método tradicional de preservação de órgãos em gelo”, afirmou.
Ele explica que, enquanto a técnica convencional limita o tempo de preservação entre 10 e 14 horas, a nova tecnologia pode estender esse período para até 24 horas, mantendo o órgão em condições mais próximas do ideal. Além disso, segundo o médico, a perfusão em máquina permite avaliar com maior precisão a viabilidade do órgão, reduzindo riscos e ampliando o número de fígados aptos para transplante. “Isso reduz riscos, melhora os resultados e amplia significativamente o número de fígados que podem ser aproveitados”, afirma o cirurgião.
Outro benefício importante destacado pelos profissionais está na redução de complicações pós-transplante. No método tradicional, o fígado submetido ao resfriamento extremo pode sofrer maior estresse celular, desencadear processos inflamatórios e apresentar complicações biliares. Com a perfusão feita na máquina (chamada hipotérmica), estes riscos são minimizados, já que o órgão recebe oxigênio continuamente e permanece metabolicamente ativo.
Primeiro procedimento e impacto regional
A criação do Centro de Manutenção de Órgãos inaugura uma nova fase na medicina pública brasileira, ao integrar tecnologia de ponta, formação acadêmica e atendimento pelo SUS.
Médicos e equipe durante o transplante (Cedida/Da Assessoria).
E com o sucesso do primeiro transplante utilizando o equipamento, o incremento da nova tecnologia representa uma perspectiva concreta de ampliação no acesso a transplantes, especialmente diante da possibilidade de expansão da tecnologia para rins.
Com isso, cresce a expectativa de que mais órgãos possam ser aproveitados, reduzindo perdas e ampliando as chances de vida para milhares de pacientes — incluindo aqueles que aguardam por transplantes em Adamantina e toda a região.
Funfarme é referência nacional também em captação de órgãos e tecidos
O Centro de Manutenção de Órgãos vem se somar ao Cintrans e à Organização de Procura de Órgãos (OPO) do HB de Rio Preto para consolidar ainda mais a Funfarme como referência nacional no país.
Instituída há 20 anos, a OPO do HB apresenta um dos melhores desempenhos do país na captação de órgãos. Em atuação conjunta com outros 23 hospitais da região noroeste paulista, a OPO capta 56 órgãos por milhão de pessoas (pmp) nas cidades sob a jurisdição do Departamento Regional de Saúde (DRS 15) e 32 órgãos pmp no DRS 2, ambos bem acima do que a média do Estado de São Paulo (22 pmp) e do Brasil (20 pmp).
Também se destaca o índice de aceitação das famílias. Das famílias consultadas sobre a doação de órgãos de seus entes falecidos pelos profissionais dos 24 hospitais, 65% delas dizem “sim”, enquanto no Estado de São Paulo este índice é de 60% e no Brasil, de 55%.
Desde sua criação, a OPO do HB já capacitou mais de 700 profissionais de saúde nos mais de 140 municípios das regiões oeste e noroeste do Estado de São Paulo, consolidando-se como referência regional em educação e atendimento humanizado no processo de doação de órgãos.
São todos profissionais voluntários, cientes de sua responsabilidade e do quanto é importante acolher e cuidar dos familiares e amigos em momento tão doloroso enquanto explicam a importância de o ente querido tornar-se um doador e salvar vidas e beneficiar talvez outras dezenas de pessoas.
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), um único doador falecido pode beneficiar até 10 pessoas com órgãos (coração, 2 pulmões, fígado — que pode ser bipartido em 2 receptores, pâncreas e 2 rins). Além disso, a doação de tecidos (córneas, pele, ossos, válvulas cardíacas, tendões, cartilagens, vasos sanguíneos) pode beneficiar mais de 50 pessoas.