Praticantes de umbanda relatam terem sido alvo de intolerância religiosa durante rito em Lucélia
Grupo afirma ter sido interpelado ao se preparar para oferenda no Salto Botelho.
Praticantes da Tenda de Umbanda Pai Jacob de Angola, de Lucélia, relataram ter sofrido interpelação que pode caracterizar intolerância religiosa e tentativa de obstrução à liberdade de culto, quando se preparavam para realizar um rito às margens do Rio Aguapeí, no local conhecido como Salto Botelho, no município.
Segundo os relatos encaminhados ao portal Siga Mais, o episódio ocorreu no último sábado (14), quando cerca de 20 integrantes do grupo estiveram no local com o objetivo de realizar uma oferenda dedicada às entidades Iemanjá e Oxum, conforme os ritos e a tradição religiosa praticada pela comunidade.
De acordo com a representante do grupo, a abordagem ocorreu no momento em que os participantes desembarcavam dos veículos e iniciavam a organização do ritual. As oferendas ainda estavam dentro dos carros quando um homem interpelou os praticantes e questionou a presença do grupo no local.
Oferendas levadas pelo grupo no Salto Botelho (Cedida).
Ainda conforme o relato, o cidadão afirmou que, em ocasiões anteriores, teriam sido deixados animais e velas nas pedras próximas à cachoeira, e mencionou que o espaço também seria frequentado por pessoas de outras religiões, como evangélicos e católicos.
O que disse o homem
A abordagem foi registrada em vídeo pelos participantes. “Não tenho nada contra a religião de vocês”, disse o homem. “Aqui tem pessoas que são evangélicas, que são católicas. E no outro dia de manhã tem restos de animais cheirando mal, tem velas em cima das pedras. Esse aqui é um parque natural e todo mundo tem o direito de frequentar. Se ficar sujeita, quem faz sujeira tem que limpar”. Após o clima tenso, o grupo conseguiu realizar os ritos no local.
A representante da Tenda de Umbanda informou que pretende registrar boletim de ocorrência junto às autoridades, sob a alegação de intolerância religiosa e tentativa de impedir o exercício da liberdade de culto, direito garantido pela Constituição Federal. Se houver registro formal, o caso poderá ser apurado pelas autoridades competentes.
Ritos da umbanda e as oferendas na tradição religiosa
A umbanda é uma religião brasileira de matriz africana que reúne elementos das tradições africanas, indígenas e do espiritismo. Seus rituais envolvem cânticos, orações, uso de elementos simbólicos e oferendas destinadas aos orixás e entidades espirituais.
Oferendas levadas pelo grupo no Salto Botelho (Cedida).
As oferendas são práticas tradicionais e têm caráter simbólico e religioso, representando gratidão, pedidos de proteção ou homenagens a divindades como Iemanjá, associada às águas, e Oxum, ligada aos rios e à fertilidade. Esses ritos costumam ser realizados em ambientes naturais, como rios, cachoeiras e praias, considerados locais sagrados dentro da tradição.
Intolerância religiosa e o direito constitucional ao culto
A liberdade religiosa é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal, que garante a todas as pessoas o livre exercício de sua fé, bem como a proteção aos locais de culto e suas práticas. Impedir ou constranger alguém por motivo de crença religiosa pode configurar crime de intolerância religiosa, previsto na legislação brasileira.
Casos de intolerância religiosa ainda são registrados no país, especialmente contra religiões de matriz africana. A denúncia e o registro formal das ocorrências são medidas importantes para que as autoridades possam apurar os fatos e garantir o respeito aos direitos individuais e à diversidade religiosa.
Quem são Iemanjá e Oxum nas religiões de matriz africana
Iemanjá é uma das principais divindades cultuadas nas religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. Considerada a “mãe das águas”, ela está associada ao mar, à proteção, à maternidade e ao cuidado com as famílias. Seus fiéis recorrem à orixá em busca de proteção espiritual, equilíbrio e fortalecimento emocional. As homenagens geralmente incluem flores, velas e perfumes, depositados em ambientes naturais como mares, rios e cachoeiras.
Oxum é a orixá das águas doces, especialmente dos rios e cachoeiras, e simboliza o amor, a fertilidade, a beleza e a prosperidade. É considerada protetora das mulheres, das gestantes e das crianças. Nos rituais religiosos, os devotos oferecem elementos simbólicos como flores, mel e objetos que representam cuidado e gratidão. Assim como Iemanjá, Oxum é uma figura central nas tradições de matriz africana e integra um importante patrimônio cultural e religioso presente no Brasil.