Opinião

Missiva para um epitáfio

Ensaio do autor adamantinense Cacá Haddad.

Cacá Haddad Colunista
Cacá Haddad
Missiva para um epitáfio

Caros,

Ao entrar na avenida principal caminha-se sobre concreto e fendas com mato enraizado. Se atento ao final da via consegue-se, forçando a vista, enxergar a cruz encarvoada pela fumaça das orações que lá se elevam.  

É um lugar inexistente aos seus hóspedes, pois lá também eles não existem mais. Pleno, no entanto, de elucubrações por parte dos seus visitantes; questionam o sentido da vida. A arquitetura de granito polido, bronze lustrado, amontoados de terra e cruzes cambaleantes, anuncia que o modelo fora dos muros caiados, ao menos no que tange sua aparência, também ali impera em suas diferenças econômicas.

Este sem fim de inexistência, enredada em afirmações inócuas, sempre calou em mim tal qual intensa quimera. Mas, para os que lá repousam, e aos seus familiares, autores destas estruturas, não parece haver incertezas: tudo está eternamente no seu lugar. Caminha-se no Campo Santo circundado por símbolos religiosos. Seriam tais estruturas o modo de afirmar a pretensa verdade absoluta como a companheira de toda eternidade?

É inerente à condição humana a busca por sentido: um caminho pródigo, busca-se com frequência, encontra-se pouco e quase sempre de forma fugaz; eis aí a tragédia da vida. É inquestionável a religião empenhar-se em dar sentido à vida e confortar na morte, sem as certezas da razão, mas com a esperança da fé; apenas da fé! José Saramago dizia em Ensaio sobre a Lucidez que “a esperança é como o sal no pão, não alimenta, mas dá sabor”. Apenas sabor!

Naquele lugar, alienamos eternamente a nossa razão, ou a memória do que foi a razão, à fé. Naquele lugar, as certezas, sempre evidentes fora dos muros: carros, iPhones, roupas, viagens, redes sociais..., que compartilhavam com a fé o sentido da vida, milagrosamente saem de cena a fim de dar lugar exclusivamente aos símbolos religiosos.

Sempre me chamou atenção, a falta, por parte dos que se foram, de expressar o mundo vivido, além do religioso, em suas lápides. Esta pedra, por um bom tempo, será responsável em identificar o que fomos. Quando vivos tatuamos o corpo e postamos nossos hábitos e costumes em redes sociais; auto afirmamos em demasia. Mas na morte, a quase totalidade delega exclusivamente à Deus, por meio de símbolos religiosos, expressões que justificaram a sua existência, ou melhor, agora, a sua inexistência.

Sem desmerecer o Altíssimo, entendo que trazer percepções e questionamentos da experiência, do absoluto, do real vivido, pode trazer mais dúvidas do que certezas aos que lá caminharão com flores e velas. E dúvidas e incertezas é o que move a raça humana a questionar. E questionar é o que nos faz pensantes. Portanto, uma frase certeira, humana, vivida, bem terrestre, escrita sobre uma lápide, mata dois coelhos com uma cajadada apenas: expõe o questionamento do inexistente e questiona o existente. Assim sendo, o precavido deveria deixar seus familiares de sobreaviso a respeito do que expor sobre sua lápide; além do símbolo religioso que o possa confortar, também uma frase ou representação icônica daquilo que dera significado a sua vida. Se músico, quiçá uma partitura, se comerciante, uma caixa registradora, se psicólogo a miniatura de um divã, se influenciador digital uma frase: “tinha 3 milhões de seguidores”.  

Portanto, seguindo esta lógica, utilizarei palavras de outrem procurando dar o parco significado de minha breve existência. Eu, caros amigos e familiares, aprecio os escritores que de forma sucinta conseguiram, em poucas palavras, dar o seu recado e deixar o leitor com a pulga atrás da orelha. Dado que minha criatividade não é das melhores, proponho o que há muito ronda meu juízo: utilizar frases de alguns volumes que li em vida para justificar, questionar e até mesmo enfeitar meus ossos ali deitados. Ao lê-los sublinhava trechos ou frases inteiras. E assim o fiz em vários livros, grifando e riscando fragmentos que identificavam e representavam minhas aflições.

Dias destes resolvi escrever esta missiva para aqueles que irão cuidar de meus despojos. Mas antes que algum douto corneteiro linguístico queira perturbar meu sono eterno, cabe fazer o mea-culpa e assumir que as passagens escolhidas talvez possam se descontextualizar de suas tramas. Considerando que o túmulo é meu, coloco do jeito que melhor me apraz. Quero dizer também que antes de revelar a frase escolhida, farei uma digressão de citações que foram fortes candidatas à minha pedra lisa.

E para começar proponho a indagação que fazia frente ao espelho, principalmente nas manhãs de segunda-feira. Por que começar mais uma vez o ritual que exerço há anos? Para este questionamento indicaria em minha lápide uma frase de Saramago na já citada obra Ensaio sobre a Lucidez“É como a vida, minha filha, começa não se sabe para quê e termina não se sabe porquê”.

Caros, vejam bem, não é minha prerrogativa o pessimismo exacerbado a respeito da rotina. Em As cidades invisíveis Italo Calvino advertia sobre o vazio da vida: “Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio. Os habitantes voltam a recitar as mesmas cenas com atores diferentes, contam as mesmas anedotas com diferentes combinações de palavras; escancaram as bocas alternadamente com bocejos iguais”. Este questionamento diante do espelho lembra aquela frase de Nietzsche em O Eterno Retorno“Homem! Tua vida inteira como uma ampulheta será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez – um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo e então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e cada inimigo, esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez”. 

Deveríamos empenhar a vida na busca de um sentido exato e rigoroso? Talvez um sentido aberto, não tão certo como a certeza. Em Crônica da Casa Assassinada Lúcio Cardoso dá o seu pitaco: “(...) pode acreditar em mim, nada existe de mais diabólico do que a certeza. Não há nela nenhum lugar para o amor. Tudo que é firme e positivo é uma negação do amor”. Logo seria no caos e no respeito à natureza contraditória do homem que a vida se realiza? Ainda que pareça confuso, a estabilidade dá ares de dificultar a evolução. Cardoso continua: “olhei as colunas, formidáveis, perfeitas dentro da sombra. E pensei que, afinal, todas as casas, na sua fixidez, são estacas do mal. O amor de Deus, quem sabe, mora nos descampados e nas zonas inquietas de instabilidade”. Nós, sapiens, temos o pressuposto de nos movimentar em busca de sentido, ainda que pouco conquistado ou inatingível. As atitudes devem ser coerentes perante nossas propostas, caso contrário não progredimos, não movimentamos.  À vista disso lembro Érico Veríssimo em Olhai os lírios do campo“A vida deve ter um sentido. Agora ele começa a adivinhar nela contornos mais lógicos, o princípio dum desenho nítido. Ser bom e ser forte na bondade, fugir à violência e à ambição desmedida, ter olhos para a profunda beleza das coisas, ser às vezes como uma criança que está a todo instante redescobrindo o mundo. “A vida começa todos os dias”.

Então recomeçar todos os dias não é um problema? O fardo de Sísifo é antigo e inerente a condição humana. Para mim a questão foi quando o fardo perdeu a essência e se transformou em commodities. Verissimo no mesmo livro calharia bem em minha lápide: “Nós somos homens, (...), e vivemos quase como máquinas. Essa ânsia de progredir, de acumular dinheiro, de construir, faz a gente esquecer o que tem de humano. Nunca pensaste nisso?... Bom. Não tenho nada com a tua vida”.

A alma do homem é plena de ambição, sempre foi e sempre será! É esta ambição desmedida, esta futilidade escancarada, refutada pelo Verissimo, que deveria utilizar na pedra lisa? “Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?” – ouviria esta resposta singular: “Para ganhar a vida”. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos”. E quando assim nos comportamos, desaprendemos um princípio fundamental para o viver bem, imortalizado em uma frase de Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”.

Ditado também concorrendo à minha pedra e corroborado pelo poeta mato-grossense Manoel de Barros em Memórias Inventadas“Vi que tudo que o homem fabrica vira sucata: bicicleta, avião, automóvel. Só o que não vira sucata é ave, árvore, rã, pedra. Até nave espacial vira sucata. Agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. Peço desculpas por cometer essa verdade”.

Cemitério de Adamantina (Siga Mais).

Nossa espécie destoa entre o pensar e o agir. Se esforça continuamente em substituir sua capacidade racional pelo ilógico, seja lá onde o ilógico estiver, nos céus ou na vitrine de uma loja. O olhar humano deslumbra-se de forma irrefletida e leviana com as sombras da caverna platônica, sabotando sua capacidade de pensar o ser e o mundo. Em Demian, Herman Hesse nos fala deste pavor de abandonar a caverna e enfrentar o exterior, ou a si mesmo: “Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo!”

Por que esta repugnância frente ao ser? De minhas leituras lembro a frase de Italo Svevo em A consciência de Zeno, também forte candidata a minha pedra: “A lei natural não dá direito à felicidade; ao contrário, prescreve a miséria e o sofrimento”. Pronto! Estaria aí a resposta? Naturalmente somos repulsivos conosco devido a nossa asquerosa natureza? Não nos enfrentamos por medo do que vamos encontrar? Somos, portanto, o asco do firmamento? Ainda que as redes sociais procurem provar o contrário, sim, a alma humana é puro lodo.

Logo, estamos fazendo o que neste mundo? Quem nos colocou nesta furada? Realmente não sei! Saramago tem uma boa, também em Ensaio sobre a Lucidez“Quando nascemos, quando entramos neste mundo, é como se firmássemos um pacto para toda a vida, mas pode acontecer que um dia tenhamos de nos perguntar Quem assinou isto por mim”.

Talvez, uma boa forma de enfrentar este dissabor se desse por meio de um olhar enviesado sobre a efemeridade. Em O fio da navalha William Somerset Maugham diz: Mesmo que ao meio-dia a rosa perca a beleza que teve de madrugada, sua beleza naquele momento foi real. Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos. Se mutabilidade é da essência da existência, nada mais natural do que fazer dela a premissa da nossa filosofia. Não podemos pisar duas vezes as mesmas águas de um rio, mas o rio corre continuamente e as outras águas que pisamos são também frescas e agradáveis”.

Então podemos ser felizes? Desde que felicidade não se confunda com valores “eternos” como final de novela, botox e foto de Instagram! Não à felicidade com “F” maiúsculo, sim a muitas felicidades com “f” minúsculo.  Vai mais uma do Verissimo: Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. São estes intervalos entre um trabalho cansativo e outro trabalho cansativo, estes momentos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler um bom livro... O erro é pensar que o conforto permanente, o bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade. Como agora eu vejo claro! É preciso o contraste...”

No decorrer da vida confrontei o peso de valores escusos que me impediam de exercer a vocação humana: ser homem real! Homem que sabe lidar com a dor e a alegria. Demorei para entender que a graça tem o mesmo peso da desgraça, que não existe receita para lidar com a vida e que o sentido é não ter sentido. Cada um sabe onde dói o seu calo. Cada um de nós deve aprender a lidar com seus dissabores. O meu exemplo pertence apenas a minha experiência; que cada um construa a sua. Em A Peste Albert Camus também seria pedra angular: Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem”.

Foi árduo saber que a autonomia pesava sobre mim; condenado, segundo Sartre, à liberdade. Se na rotatória escolhi esta ou aquela entrada a responsabilidade foi tão somente minha, fui eu que escolhi, eu que decidi seguir a primeira ou a segunda entrada. E as minhas escolhas foram fatais. Clarice Lispector, em Paixão Segundo G. H. deixa uma contribuição: “O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana”.

Por mais difícil que seja, ainda que fadado ao escárnio das certezas, cabe ao homem, e coube a mim, escolher e tomar consciência do meu papel; só meu. Nunca existiu e nunca existirá uma conduta igual a minha! Fui único; e quando pude, procurei ser fiel à minha essência. Uma enxurrada social pesou sobre minha história: manutenções eternas nas estruturas que me cercavam, boletos e faturas inesgotáveis, supermercados ad nauseam, feriados e aniversários mil. Do outro lado a arte plena, sem um tostão. Mesmo que uma arte de merda, ainda valeu a pena. O extraordinário foi lançar-me no vazio da vida! Tem uma boa do já citado Antoine de Saint-Exupéry em Terra dos HomensQuando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte”.

As decisões não ocorrem no ontem ou no amanhã, mas no instante obscuro e vazio do agora, foi lá que dei com os burros n’água. Em O homem duplicado Saramago genialmente contesta o amanhã, não como o espaço das esperanças, mas como o banquete de aniquilação do presente: “Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome de futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais que o tempo de que o eterno presente se alimenta”. Foi no salto e no desamparo do precipício que a vida se realizou. Lúcio Cardoso se aproxima: “... o abismo dos santos não é um abismo de harmonia, mas uma caverna de paixões em luta. Aprender a viver em queda livre sem a segurança das certezas parece ser a vocação do homem; negar a angústia da existência não foi a minha opção. Em A Náusea Jean-Paul Sartre afirma que “Todo ente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por acaso. (...) a existência é uma plenitude que o homem não pode abandonar”. Ainda segundo Sartre: “O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar aqui; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita”.

Definição para a vida? De minha parte nenhuma tentativa! Mas não faltaram bons autores da minha pequena estante que a definiram. A melhor talvez coube ao Bardo em MacbethA vida não é mais que uma sombra errante, um mau ator que se pavoneia e se aflige no seu momento sobre o palco. E então nada mais se ouve. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”.

Para o meu desespero as ilusões escassearam. As sombras ficaram na parede da caverna e o agora clamou tomar as rédeas: Apolo e Dionísio pareados. Fustigar um, segurar o outro e não ter medo da porra do fim, como nos traz Plínio Marcos em Prisioneiro de uma canção“Presta atenção, gadjo. Quando a sombra da morte for te envolver, deixa que ela te envolva. Não se desespere, não se defenda, não acorde. Deixa ela chegar e te abraçar inteiro. A sombra não mata. Você é imortal. Ela te envolve e não pode fazer nada com você. A sombra é uma sombra e se dissipa. Mas você ri dela. Caga e anda. E está livre”.

Enfim caros familiares e amigos. Se vos confortam, escolham um belo símbolo religioso para minha eternidade. Cabe a mim, no entanto, escolher uma citação que razoavelmente identifique minha efêmera vida. De tantas frases lidas e meditadas, ora sob a angústia e o terror, ora sob a inconstância da ilusória esperança, para ficar no terreno dos mortos, escolhi Machado de Assis e as Memórias Póstumas de Brás Cubas, com seu autor defunto, ou defunto autor: “Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Cacá Haddad

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