Suicídios: juíza alerta sobre alto número de casos em Adamantina
Juíza destaca que fechamento da Clínica de Repouso traria impactos ainda mais preocupantes.
Na reunião realizada na última sexta-feira (20), onde a juíza de direito da 3ª Vara da Comarca de Adamantina, Ruth Duarte Menegatti, expôs sobre o problema vivenciado pela Clínica de Repouso Nosso Lar, ela destacou, à imprensa, um ponto crônico vivido na cidade: a alta incidência de suicídios. “O índice de suicídio é alarmante na nossa cidade, por isso fiquei comovida” disse.
A magistrada destacou que a preocupação com esse tema passa diretamente pela necessidade de manter os serviços de psiquiatria hospitalar e terapêuticos, em Adamantina, dentro de uma nova proposta de trabalho. E disse que o olhar para os reflexos de uma medida que possa pôr fim a esses serviços na cidade se dá diante da de um percepção mais ampla e humana, no exercício da magistratura. “Em verdade, o juiz perdeu essa perspectiva de ficar só em gabinete”, disse. “O juiz tem que ir à comunidade e ver as necessidades”, completou.
Ainda em sua fala, a juíza reiterou que a região de Adamantina tem um dos maiores índices de suicídio no Estado de São Paulo, e reforçou a importância de um suporte em psiquiatria. “Até que ponto nós vamos encerrar um trabalho?”, perguntou. Ao fim, lançou o desafio, de melhorar, e não encerrar os serviços hoje prestados.
As colocações da juíza foram feitas para destacar a importância da manutenção das atividades da Clínica de Repouso Nosso Lar na cidade, que hoje pede socorro diante de uma dívida de R$ 30 milhões acumuladas desde sua instalação, na década de 80, e corre risco de encerrar suas atividades, também, em decorrência do programa nacional de desospitalização psiquiátrica. E desde janeiro deste ano a Clínica está sem convênio, ou seja, sem os canais oficiais para recebimento de recursos financeiros, o que pode ser restabelecido mediante uma eventual intervenção judicial que autorize a Prefeitura a efetuar os repasses oriundos do SUS (veja mais aqui).
Suicídio: posvenção, prevenção e trabalho em rede
Em recente artigo publicado no SIGA MAIS, a psicóloga Ana Vitória Salimon Carlos dos Santos, responsável técnica pelo Núcleo de Psicologia da UNIFAI e membro da Rede Promover Vida, aborda que o suicídio é de causalidade complexa, e envolve fatores socioculturais, psicodinâmicos, filosófico-existenciais e ambientais, presentes e passados, conhecidos e desconhecidos. “Muitas vezes, existem sinais anteriores ao ato que podem ser perceptíveis possibilitando cuidados; outras vezes, estes são tão sutis que podem não ser percebidos. Em algumas situações, mesmo com todo esforço e dedicação, em um lapso de segundo, o fatídico ocorre”, escreve.
Mundialmente, o suicídio está sendo compreendido e cuidado como um grave problema de Saúde Pública, afeta a vida de muitas pessoas, e medidas de posvenção e de prevenção devem ser tomadas.
A psicóloga escreve que a posvenção abrange cuidados com as pessoas próximas a quem faleceu, sejam familiares, amigos ou outros que de alguma maneira se impactaram. Já a prevenção abrange medidas a serem tomadas promovendo saúde e objetivando evitar novas mortes. São muitas as medidas, algumas bastante direcionadas a questão do risco de suicídio, outras de caráter mais geral para promoção da vida e desenvolvimentos saudáveis.
Ana Vitória escreve que “O suicídio em si não é uma doença. Não é um problema (só) dos profissionais de Saúde, envolve condições de vida complexas. Na maioria das vezes, pode ser prevenido. Tanto a prevenção quanto a posvenção devem contar com a ação de pessoas próximas no cotidiano, tanto da família e amigos, como de profissionais e órgãos das redes pública e privada”.
Ela orienta que, na ocorrência ou na iminência de uma tentativa de suicídio, pessoas próximas podem acompanhar, quando possível, a pessoa em risco ao Pronto-Socorro ou solicitar auxílio do Corpo de Bombeiros pelo número telefônico 193. Os bombeiros são profissionais sensibilizados e treinados para intervenções em crise.
No mesmo texto, a psicóloga orienta que, na percepção de indicativos de risco para tentativas de suicídio, podem ser buscadas orientação e intervenção na rede de serviços privada ou junto aos serviços da Secretaria Municipal de Saúde: Centro de Saúde (Setor de Psicologia, Enfermagem e Médicos), nas Estratégias de Saúde da Família, no CAPS-Centro de Atenção Psicossocial, assim como, em período letivo, no Núcleo de Psicologia da UNIFAI-Centro Universitário de Adamantina. Também os órgãos municipais da Assistência Social, como CRAS-Centro de Referência em Assistência Social e CREAS-Centro de Referência Especializado em Assistência Social, o Conselho Tutelar e a psicóloga da Secretaria de Educação poderão orientar e fazer os encaminhamentos necessários. “Todos, cada um dentro de suas especificidades, atuam em rede – Rede Promover Vida – focando a promoção da vida e a prevenção de violências”, destaca.
De acordo com Ana Vitória, estes mesmos órgãos podem ser acionados pelas próprias pessoas quando avaliam que a vida está por um fio, quando estão muito infelizes e/ou em crise e avaliam que nada poderá ser modificado, que a vida não vale a pena, que estão perdendo o controle sobre si mesmo. “Amigos e familiares também podem ajudar: escutando com atenção, procurando conjuntamente soluções para dificuldades, encaminhando e/ou acompanhando para os serviços profissionais, quando necessário, sem julgamento, com respeito e afetividade”, reforça.
Ao final, a psicóloga reitera o compromisso de todos, e a colaboração que cada um pode dar ao tema. “No cotidiano, podemos promover a vida o tempo todo das formas mais simples e, ao mesmo tempo, tão difíceis nos tempos atuais. Em casa, na escola, no trabalho, na rua ou em qualquer lugar, podemos conversar, acolher, brincar, sorrir, ouvir, abraçar, falar, trocar, ser tolerante, ser paciente, cuidar e, também, ser cuidado. Independente de times, partidos, credos ou qualquer outra diferenciação existente, somos humanos e o que mais nos move para a vida é a relação com outros seres humanos. Sentir-se amado, cuidado, respeitado nos diversos ambientes e setores de nossas vidas promove mais vida” (leia aqui o artigo na íntegra).
