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Você sabe de onde vem e como é tratada a água que você bebe?

Desafios na utilização e gestão da água.

Por: Isabel Gonçalves
Você sabe de onde vem e como é tratada a água que você bebe?

A combinação de investimentos maciços em estrutura sem preocupação com os seus impactos - quando não há gestão inteligente que contemple a complexidade da dinâmica destes investimentos financeiros – promove no local um crescimento desordenado de bairros e cidades, que na maior parte dos casos, não conta com um plano diretor que pense a expansão em relação à saúde, segurança, transporte, saneamento básico e segurança, gerando, assim, prosperidade para poucos e sérios problemas para muitos.

Em relação aos impactos ambientais, é importante entende-los através de uma perspectiva de mobilidade, com a capacidade de espraiar-se para vários locais, mesmo longe das fontes geradoras – como no caso da poluição de solos, de águas e do ar próximos aos centros industriais. Infelizmente estes problemas ficaram relegados a segundo plano, uma vez que ainda são pensados e entendidos, por gestores empresariais, estado e órgãos de regulação, normatização e fiscalização, de forma isolada, como se estes permanecessem confinados em determinadas regiões. No entanto, os impactos nocivos da contaminação não são restritos a população que vive em seu entorno - que o sente o problema, não apenas de forma crônica, mas também aguda - mas efetivamente estes impactos ambientais (também sociais, culturais, políticos e econômicos) afetam toda uma cidade e região.

Em relação da qualidade a água em rios, além do aporte de contaminantes oriundos das indústrias, esgoto doméstico, chuva ácida, e lixiviação devido à chuva, estes corpos de água usualmente recebem a contribuição de contaminantes carregados - pela água “lixiviada” (carregada) pelas chuvas - de áreas agrícolas, com alta concentração de agrotóxicos.

A excessiva emissão antropogênica (causadas pelo ser humano) de metais, nutrientes e outras substâncias contaminantes levam a uma rápida deteorização da qualidade da água. Outro fator que agrava este cenário são as alterações na hidrodinâmica de rios e lagunas causadas por diversos fatores, como as construções de diques, aterros, molhes, processos de drenagem, ou pela mudança do uso da terra como nas desflorestações e urbanizações desordenadas.

Soma-se a este cenário a destruição da mata ciliar, banhados e marismas que formam a primeira barreira a estes contaminantes, fazendo com que esta água contaminada seja despejada diretamente nos rios. Se não bastasse tudo isso, também há a contribuição de contaminantes de lixões, contaminando o lençol freático e corpos de água próximos.

Cabe ressaltar que há uma grande contribuição da contaminação dos corpos de água - inclusive das captadas para tratamento e distribuição - de agrotóxicos, metais, e, de antibióticos e hormônios oriundos de nossas casas.

É importante frisar que o tratamento de água que é distribuída para as nossos lares é baseado no tratamento de patogênicos (através da cloração) e na separação de sedimentos finos (tratamento de sulfato de alumínio e filtração – carvão, areia e cascalho).

O sulfato de alumínio provoca a floculação do sedimento fino (silte e argila - que dá a coloração escura da água do rio). O nome já diz tudo, forma flocos, fazendo com que este sedimento fino vá se juntando, um ao outro, ficando assim, maior e mais pesado, dessa forma ele decanta (afunda). Ao afundar forma no fundo uma lama (lodo), composta pelo sedimento e pelo alumínio que foi usado no processo para forçar a floculação (sulfato de alumínio). Há grande concentração de alumínio neste lodo, portanto ele é altamente contaminante, mas é importante frisar que este alumínio, não está mais disponível na água, que será filtrada, clorada, fluorada e distribuída.

Cabe ressaltar que existem concentrações específicas de alumínio utilizado no processo, se for colocado em excesso não será retirado com a formação do lodo e, portanto, ficará disponível na água que será distribuída. Consequentemente esta água que chegará às torneiras estará contaminada. Isso acontece e com mais frequência do que manda a prudência. 

No final do tratamento são formados dois produtos
1.    A água potável clorada e tratada com flúor que será distribuída
2.    O lodo que sobrou (sedimento+alumínio)

Perguntas que faço a vocês. O lodo altamente contaminado por alumínio é levado para onde? Ele é tratado? Depositado clandestinamente em rios ou em solos? É muito importante que você saiba sobre como é tratada a água em sua cidade, pois o órgão responsável pelo tratamento pode tratar à água, mas contaminar o ambiente se depositar este lodo de forma inadequada. O lodo precisa passar por um tratamento para a retirada do alumínio ou ser segregado em aterros sanitários específicos para recebê-los.

Já se perguntaram se nossos sistemas de tratamento de água estão preparados para tratar esta imensa concentração de hormônios e antibióticos que são despejados continuamente nos corpos de água?

Lembrem-se meus caros, nossa ignorância leva a nossa omissão, longe dos olhos longe do coração.

E que podemos estar, sem nos darmos conta, sendo contaminados pela água que bebemos, ou no rio que tomamos banho, ou no peixe, na carne e até mesmo nas hortaliças que comemos que podem estar sendo irrigadas por águas de lençol freático contaminadas, por exemplo, pelo chorume de lixões...

É imperativo que nossa sociedade seja informada e educada para que compreenda a complexidade e o contexto sobre estas “coisinhas” básicas de nosso cotidiano, como por exemplo, de onde vem e como é tratada a água que sai de nossas torneiras todos os dias – afinal de contas é muito importante conhecermos os “vizinhos” dos rios de onde de onde á captada esta água, como está a “saúde” dessa água, se a mata ciliar está preservada, entre outras “cositas básicas”.

É muito importante saber sobre tudo isso, pois a contaminação pela água provavelmente não matará ninguém instantaneamente, mas pode sim, através de processos cumulativos, em um futuro provocar doenças renais, fígado e câncer. E o pior, o sujeito nem se dará conta que foi envenenado de forma crônica por toda sua vida e que a doença que ele tem hoje tem como principal responsável a água contaminada que ele bebia todos os dias.

(*) Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre em Educação e Doutora em Educação Ambiental. Atualmente trabalha como pesquisadora, Pós-Doutoranda, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP".

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