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Povo que elege corrupto não é vitima... É cúmplice!

Nas relações políticas, onde prevalecem poder e dinheiro, os interesses pessoais ocupam espaço e nele, se instala a corrupção. E qual é a responsabilidade de quem os elege? No Brasil, e na nossa parte do Brasil – em Adamantina – quais os reflexos disso?

Por: Isabel Gonçalves
Povo que elege corrupto não é vitima... É cúmplice!

Fato recorrente em eleições, muitos insatisfeitos, sem saber muito bem o que fazer, ou em quem votar, entre a cruz e a espada, pra no final das contas, para não votar nulo, escolher o “menos pior”.

Votar no “menos pior” é lavar as mãos e escolher o caminho e solução mais cômodos. Ao menos ouve uma tentativa, é o argumento. Mas na maioria dos casos, votar no “menos pior” pode implicar também, na anuência ao que está aí estabelecido. Pois o “menos pior” significa usualmente o mais do mesmo, com uma pitada menor de corrupção, ou corrupção mais disfarçado ou até mesmo, e isso mostra como a zona de conforto pode ser muito danosa, tem a corrupção dos seus quadros mais tolerada.

Convivemos há tanto tempo com a corrupção e a sangria do Estado, que passamos a dar nossa anuência e consentimento a desvios e descalabros desde que venham “mascarados” com uma política pretensamente social, ou que privilegie nosso campo de atuação, nosso estado, nossa cidade, ou nosso bairro. Justificando, com aquela velha conversa, afinal, no fim das contas são todos iguais!

Nossos governos, federal, estadual e o municipal, loteiam e distribuem cargos para privilegiar seus conchavos. E, em muitos casos, por melhor que seja a intenção desse governo, ele não se mete nesses lotes, pois passou a ser refém. Este naco distribuído aos “parceiros políticos” são regidos conforme vontades pessoais, ou de grupos, ou até mesmo dos partidos, que não priorizam a ocupação desses cargos para benefício popular, e se há algo neste sentido, geralmente tende a ações populistas pontuais de curto prazo que amealharão uns “par de votos” nas próximas eleições, nunca visando mudanças significativas, mudanças estruturais e estruturantes em médio e longo prazo, pois para a nossa “elite” política o que vale é o aqui e agora, e, claro, eleger seus candidatos a cada dois anos.

Ao votarmos no “menos pior” estamos dando a anuência a esta prática. A mudança no cenário político e político partidário é imprescindível pra quebrar esta apatia social gerada pela falta de opção. Pois hoje (com)vivemos uma mistura aterradora: corrupção potencializada pela incompetência gestora e distribuição de cargos - não para quem de competência, mas para apadrinhados.

Quer melhor exemplo do que a escolha do novo ministro da saúde? Um inexpressivo ministro da saúde que adora fazer piadinhas, e entre sarcasmos e ironias clama para que mulheres tenham zika antes de engravidar para não correr o risco da microcefalia.

Um país onde a palavra de ordem é “não engravide” certamente tem algo extremamente errado e fora da ordem, enquanto cada um de nossos políticos está preocupado com seus cargos e com o que mais poderá saír da lava a jato, o país foi imerso em uma epidemia sem precedentes de dengue, com o governo do estado de São Paulo, o mais rico da federação - omitindo 200 casos suspeitos de microcefalia - que o colocaria no triste quarto lugar do país. Este aterrador cenário é mostra inequívoca de nosso fracasso no que tange o saneamento básico e saúde pública. Nada foi feito por nosso gestores, mais preocupados em alçar cargos públicos, vencer eleições, reeleições, vender automóveis e medidas provisórias, fazer caixa dois, se manter no poder e enricar os seus.

O buraco é muito mais embaixo meus caros.

Somos bombardeados por sucessivas denúncias de improbidade administrativa, prevaricação, incompetência de gestores (ineptos e incapazes) e MUITA corrupção baseada em desvios de dinheiro público destinado a programas sociais, taí o caso do desvio de recursos da merenda para nos lembrar que “eles” não tem limites.

Parece exagero, mas não é, “graças” a estes desvios e incompetência gestora - em estados, municípios e federação -, crianças, adultos, velhos, morrem por falta de atendimento, seja por falta de saneamento, seja por falta de segurança, seja por falta de educação, seja por falta de saúde, seja por escolhas equivocadas dos modais de transporte.

São índices aterradores, cruéis e insustentáveis, mas que em nada alteram a boa vida da corrupção em nosso país ou que sejam capazes de provocar um terremoto nos conluios político partidário e, nos conluios públicos e privados no Brasil. Por este motivo não existe gestão socioambiental, socioeconômicas e sociopolíticas inteligentes e sustentáveis voltadas para quem realmente interessa - nossa sociedade.

Infelizmente em nosso país a política se resume em, poder e dinheiro! Vale tudo para conserva-los! Na escala de prioridades dos governos primeiro vem quem os coloca lá, ou seja, quem paga a campanha. Segunda prioridade, os cargos loteados para alimentar as coligações espúrias. Terceira prioridade, os cargos para os militantes profissionais que de forma quase visceral e violenta são os responsáveis pela força da campanha. Tudo isso “alimentado” pela sangria descarada dos cofres públicos, má fé e incompetência administrativa. E por último na escala de prioridades, vem a população e suas necessidades básicas, saneamento básico, saúde, segurança, educação, transporte. Por isso não sobra dinheiro, pois nesta escala de prioridades ele é sugado ao longo do seu sujo percurso ou desperdiçado nas mãos de incompetentes. Por estes motivos não existe muita coisa boa vindo de nossos governantes, devido a tudo isso a cada dia que passa nossa esperança se esvai.

O problema está encravado nas entranhas de municípios, estados e federação. Alimentado por políticos corruptos e/ou incompetentes e políticas tacanhas. O cerne da questão nunca é atacado. A sociedade está refém de vontades politiqueiras, populistas e corruptas, engendradas não mais nos porões da corrupção, mas hoje em dia, às claras, para quem quiser ver, nem mais disfarçar se dão ao trabalho, imersos na podridão do toma lá-da-cá público e privado.

No caso dos municípios, mais próximos a nós. Sabemos que as prefeituras estão em quase estado de penúria, muito devido ao estrangulamento promovido pelo governo federal e estadual, e para piorar o cenário, no caso de Adamantina e região – por exemplo -, há nenhuma, ou pouquíssima força política, pois, por estas bandas não conseguimos união para eleger deputados, nem estadual, o que dirá federal, mas muito dessa “miséria”, também, é consequência administrações obtusas, fisiológicas e clientelistas. Cabe ressaltar o absurdo e aterrador número de prefeitos e vereadores afastados e inelegíveis, outro tanto presos, outros investigados, este é o triste cenário de uma região abandonada a sua própria sorte, tratada como província por seus políticos e dominada por ineptos, incompetentes e corruptos. O que de bom poderá sair desse cenário?

Por outro lado, no que tange a gestão, infelizmente nossos políticos se acostumaram a governar com o que tem, não estão “habituados” a buscar novos recursos e investimentos, condenando a cidade e viver com migalhas. Outro grande problema - devido ao clientelismo, fisiologismo, conluios e apadrinhamento - é que sujeitos despreparadas assumem secretarias, além de uma máquina extremamente inchada. Há um sucateamento estrutural e, também, humano, isso é grave e precisa ser revertido, mas para tanto, a população precisa entender este processo e fazer seu papel, que é o de não apenas exigir que a “coisa” certa seja feita e fiscalizar, mas acima de tudo, entender todo este processo e sacudir a cena política partidária.

É imperativo que a população compreenda a dimensão de uma péssima gestão e corrupção, pois elas irrigam um mórbido sistema que se alastra tomando o estado e cidades como um câncer - câncer em estado de metástase chegando a órgãos ainda sadios - sistemas públicos, outrora eficientes – dentro de seus limites, claro! - foram tomados pela incompetência gestora e corrupção comprometendo de forma devastadora os sistemas da saúde, educação, segurança pública, entre tantos outros.

Pois é meus caros, um povo que elege corruptos e incompetentes não é vitima, é cúmplice! Enquanto não mudarmos esta apatia arraigada em todos nós, não haverá voto que seja capaz de promover uma efetiva mudança ética e gestora, estejam certos: “‘se voto mudasse o mundo seria proibido e não obrigatório”!

Pois é, meus caros, infelizmente nossa sociedade não consegue atribuir responsabilidades, isso acontece porque não compreende o que é função do cidadão, da federação, do estado e do município, por não participar da vida pública da cidade, por ser subserviente a qualquer autoridade política como se fossem seres superiores e não o que realmente são, agentes públicos que ocupam cargos públicos para servir a população e não se servir da população. Um basta a este estado de coisas precisará partir do povo, de uma povo esclarecido que saiba que seu voto no “menos pior” continuará a dar asas e força a corrupção e a péssima gestão dos sistemas públicos.

E não, este texto não é uma apologia ao voto nulo! Mas sim é uma reflexão sobre nossa tolerância ao que nos está posto, sobre a nossa passividade em aceitar bandas poderes de governos e seus conchavos. Enquanto não houver pressão popular que force partidos a rever sua forma de agir, continuaremos trocando seis por meia dúzia. É pura ilusão acreditar que votar em um candidato e não em um partido fará diferença, pois estes aspirantes a agentes públicos são e serão submetidas as “normas” de cada partido.

Pois tem jeito não meus caros, o que aí está, está podre, tão podre que não mais consegue esconder tamanha podridão que começa a escorrer pelos poros. O que podemos esperar disso tudo? Que cresça em nossos jovens e na sociedade a vontade de participar dessa cena política partidária, se envolvendo e mudando, de forma estratégica, as entranhas dos partidos que aí estão, ou através da criação de novos partidos, mais éticos e atrelados diretamente à vontade de mudança desse sistema mórbido, que hoje impera em nosso país.

Que brote no seio de nossa nação a vontade de mudar.

Sempre ouvimos, que muita gente boa e competente não sem mete em política porque não tem estomago, tá na hora dessa gente boa e competente, sem rabos presos, meter, sim, a mão nessa cumbuca e atacar de frente este sistema mórbido, pois do jeito que está....


Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP" & KAOSA/Rio Grande – Rio Grande do Sul. Acesse aqui seu perfil no Facebook.

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