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Cultura e educação são as formas para se alcançar a liberdade

Cultura e educação são as formas para se alcançar a liberdade, de se (re)inventar, de ser - como verbo de ação - e estar nesse nosso mundo.

Por: Isabel Gonçalves
Cultura e educação são as formas para se alcançar a liberdade

Tenho acompanhado alguns debates sobre a "cultura" em Adamantina, a respeito dos “grandes” shows que demandam um investimento considerável e, também, como não poderia deixar de ser, sobre a ExpoVerde e suas cifras estratosféricas. Basicamente estas festas são regadas a música sertaneja, e no caso da ExpoVerde, também há o rodeio. Cabe ressaltar que a festa do verde nasceu com a pretensão de sensibilizar a população em relação às questões ambientais, mas com o tempo ganhou dimensões muito maiores, não necessariamente em retorno cultural para a cidade, mas certamente em investimentos financeiros, afinal, mesmo que esta quantia estratosférica - para a realidade financeira da cidade - seja financiada pelo governo federal e estadual, é muito dinheiro. 

São os eventos culturais que "mexem" com a cidade, mas eu pergunto a vocês, afinal, o que é esta tal de cultura? Qual a importância da cultura para uma sociedade?

Temos o péssimo hábito de colocar todas nossas esperanças, de um povo e de um país melhor nas “costas largas” da educação formal, acreditamos, piamente, que ela será a solução de todos os nossos problemas, mas pergunto a vocês, um povo com educação e sem cultura tem sentido? Não, pois educação e cultura deveriam caminhar lado a lado. Um povo sem cultura é um “povo” pobre de espírito e realizações, mas afinal, o que vem a ser esta tal cultura?

Uma definição simples para vocês “cultura abrange várias formas artísticas, mas define tudo aquilo que é produzido a partir da inteligência humana. Ela está presente desde os povos primitivos em seus costumes, sistemas, leis, religião, em suas artes, ciências, crenças, mitos, valores morais e em tudo aquilo que compromete o sentir, o pensar e o agir das pessoas.”

Fica evidente que cultura vai muito além de musica, teatro, cinema, leitura e abarca o que há de mais precioso em uma sociedade, sua capacidade de ser protagonista de sua história. Um povo sem cultura é um povo que produz retrocessos, que não constrói, apenas “destrói coisas belas”. Da educação vem às habilidades e competências para "criar" cultura! Por isso, é tão precioso para uma sociedade ter, viver e respirar cultura!

Peguei-me perguntando, como é tratada a cultura em Adamantina? Há muitos shows, caros, muito caros por mais que justifiquem que é este o preço, li justificativas como “é mais fácil conseguir dinheiro com o ministério da cultura do que em outras pastas”, poxa, que bom, né? Mas será que não estamos simplificando esta busca por cultura de uma forma rasa e pouco profícua!? Música é bom, claro que é? Mas que tal um show com música clássica ou estilos diferentes como MPB, ou música eletrônica, entre outras, por que não? Afinal, com 300 mil seria possível trazer a Orquestra Sinfônica do Estado, talvez até por bem menos. Ópera! Que tal ópera para Adamantinenses!? Vocês poderiam argumentar, "o povão não gosta dessas coisas", pode até ser, mas a gente não gosta do que não conhece, talvez devêssemos apresentar todas as formas de cultura para a população, democratiza-la e não apenas deixa-las para determinados nichos da população.

Secretarias deveriam se mobilizar para promover cultura na cidade, buscar recursos, não apenas para shows, mas para uma grupo de teatro bem estruturado, muito mais livros para a biblioteca pública, construir mais bibliotecas públicas, em todos os bairros da cidade, nichos de cinema, sarau, costura, música de todos os tipos, capoeira, balé, centros que possibilitem que nossas crianças viagem pelo país, entre tantas formas de se estimular uma abertura de horizonte, do pensar, criar e agir da sociedade de Adamantina.

A gente vê e compreende o mundo através de nossa história de vida, pois, então, que esta vida ganhe novas formas de ser vivida, que vários “espectros de cores” sejam abertos e disponibilizados para a população. Povo nenhum andará com passos firmes para frente sem que receba educação de qualidade e, doses maciças e cavalares de cultura!

Mas para isso, o poder público precisa entender a sua função de promotor do bem estar e do bem comum. Não há dinheiro para isso? Pois que se faça dinheiro, através de parcerias com o poder privado – afinal, a cidade conta com uma Usina de Álcool,  com uma Cooperativa de Agricultores muito bem estruturada, com uma grande confecção, entre outras - que tal estimular a Responsabilidade Social dessas empresas, creio que seriam muito receptivas e parceiras de bons projetos, pergunto, que empresa não estaria disposta a associar a sua marca a projetos que tragam considerável ganho social e cultural para os moradores da sua cidade?  Além disso há diversas outras fontes de recurso, projetos devem ser criados e enviados ao governo federal e também, estadual que lançam diversos editais em várias áreas. É difícil? Pode não ser fácil, mas nada que uma equipe de secretários e assessores dispostos, engajados e bem formados não possam dar um jeito.

O nosso país é extremamente desigual, mesmo com mais empregos e trabalhadores sendo melhor remunerados, pois há um abismo cultural imenso!!!
Essa desigualdade é, sim, financeira, mas ela é, também, e principalmente, resultante do desigual acesso a educação e cultura em nosso país. Mas não pense você que uma pessoa apenas porque tem dinheiro é educada e culta, não, não é não! Este é nosso principal problema, pessoas sem cultura e cheias do dinheiro ditando regras e normas em nosso país. Pois elas não têm a mínima noção de bem comum e, segregam o acesso da sociedade a educação e cultura que são tão preciosos. Por este motivo, nosso país parece patinar ou até involuir em todas as esferas de nossa sociedade, por isso estamos imersos em tanta violência, intolerância, desrespeito, descaso.

E por que este estado de coisas é possível e pior, mantido? Isso acontece quando a classe dominante joga “migalhas” para o povo e os convence que eles têm o que mais precisam. Para alcançar este fim, a estratégia utilizada é sonegar do sujeito o que realmente importa e convencê-lo de que o que é "dado" é o que ele realmente necessita. Para tanto, importante manter a sociedade distante de qualquer possibilidade que a faça dar contexto a sua realidade, inviabilizando que foque suas lentes e compreenda como é mantida apartada de sua própria vida.

Existe um apartheid intencional de acesso à cultura, cultura e educação são as formas para se alcançar a liberdade, de se (re)inventar e, de ser (como verbo de ação) e estar em nosso mundo. É o que disse o dr, Drauzio Varella “Mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que ter pais pobres e ignorantes. Nutrição inadequada, infecções de repetição e indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança” – “Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um ambiente acolhedor promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno”.

Ou seja, por mais que a pessoa ascenda na escala social, entrando para a classe média C, por mais que seu salário seja melhor, ela ainda é excluída do que é mais importante para desenvolvimento de seu potencial máximo. Existe um Brasil de inclusão e um Brasil de exclusão! O mais grave disso tudo, é que esta terrível exclusão que separa o país em castas é mascarada por esta inclusão no mercado de consumo, disfarçada por esta sensação de que chegamos onde tínhamos que chegar, mas não, há muito que se caminhar nesse nosso país tão desigual.

Políticas de trabalho e salário que incluam a população nas calasse médias, são um tanto quanto inócuas se todas estas ações não vierem em conjunto com um efetivo e maciço investimento em “coisinhas básicas” como saneamento, educação e acesso a cultura. Tai a epidemia da dengue como exemplo.

O dinheiro e o consumo por si só não produzem educação e cultura, deles não virá a libertação do sujeito e de suas amarras culturais e históricas. Neste sistema não existe uma revolução social, apenas uma explosão do consumo e uma falsa sensação de bem estar, falsa, pois este bem estar e bem viver, bem (com) viver, nunca será pleno enquanto houver este abismo cultural que nos separa e afasta cada vez mais.

Devemos lutar pela melhoria do salário de cada trabalhador, claro que devemos!  Mas nesta luta míope deixamos para trás o essencial, que é lutar pela igualdade real de direitos, que vai além da remuneração do trabalho assalariado, deixamos de lutar pelo direito de cada um a ter acesso ao conhecimento e principalmente à cultura! Educação e cultura, a única forma para se alcançar a liberdade, de se (re)inventar, de ser e estar em nosso mundo!

Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre em Educação e Doutora em Educação Ambiental. Atualmente trabalha como pesquisadora, Pós-Doutoranda, pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP".

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