Como será a relação entre médico-paciente no Sistema Público de Saúde de Adamantina?
A saúde pública e a distância entre os direitos do cidadão e deveres do Estado.
Esta semana duas denúncias “sacudiram” os alicerces da Santa Casa de Adamantina e, consequentemente, a população da cidade. O absurdo e desumano atendimento “a distância” (assista aqui) - a uma criança atropelada e com fratura - via Whats App pelo ortopedista de plantão – atendimento que segundo um vereador, em comentário publicado no Siga Mia, é legal e remunerado - que analisou a radiografia da criança via aplicativo, e constatou uma fratura, pediu a internação do garoto e não apareceu para fazer o atendimento. A criança, até o dia da reportagem, já estava há três dias sem receber o atendimento de médicos especialistas do Sistema Público vinculados a Santa Casa.
No mundo “ideal” esta criança deveria ter sido analisada de cima abaixo por um profissional da área, afinal, não foi um simples tombo, mas um atropelamento, mas o médico chamado não se dignou em saír de onde estava para fazer este atendimento. Um segundo caso (leia aqui), um rapaz faleceu simplesmente porque o médico que o atendeu se recusou a fazer um exame mais detalhado e acolher as súplicas da família que alertavam o profissional de saúde que o rapaz não tinha apenas gases, como insistia o médico.
Conhecemos a precariedade do sistema único de saúde, que é mal gerido, sucateado e palco de muitas maracutaias, mas lutando contra este nefasto sistema encontramos muitos profissionais da saúde que lutam bravamente para, ao menos, dar dignidade para seus pacientes diante de um cenário de gestão tão devastador. Sim, há médicos excelentes, humanos, competentes e bravos que lutam com todas as suas forças contra este sistema nefasto da produção da doença, mercantilização e desumanização de nosso sistema de saúde.
Mas por outro lado, infelizmente, com a desculpa de que não há dinheiro, muita coisa ruim que vem acontecendo nos hospitais é relevada e contemporizada, mas é importante que algo fique claro, no caso de relação interpessoal entre paciente e médico o dinheiro não deveria fazer nenhuma diferença ou servir como desculpa, pode sim fazer diferença no tratamento porque há deficiência de leitos, material, exames e remédios, mas jamais na relação entre o profissional de saúde e seus pacientes, e estes dois casos ocorridos nesta semana em Adamantina escancaram e colocam luzes no profissional de medicina, aquele que deveria, como premissa básica, segundo seu juramento:
Código de Ética Médica. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS
I A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e será exercida sem discriminação de nenhuma natureza.
II - O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.
IV - Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina, bem como pelo prestígio e bom conceito da profissão.
VI - O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade.
Temos a tendência em associar violência e qualquer tipo de preconceito à ignorância e a falta de cultura de um povo, mas o que dizer quando a violência parte de profissionais que teoricamente são qualificados e bem informados? Pois negligenciar atendimento a quem busca socorro é sim uma forma de violência física e, também psicológica, é rasgar estes 4 princípios fundamentais do Código de Ética Médica
O mais grave nisso tudo é a compreensão que um médico, no mínimo por sua vocação, deveria ter como premissa ética básica o cuidado para com o outro ser humano. Estamos mais do que habituados com histórias bizarras e de incompetência, imperícia e exercício nefasto do poder praticados por alguns médicos, que infelizmente são protegidos por um corpo médico altamente especializado em se auto blindar.

Infelizmente muitas escolas de medicina têm formado profissionais desumanizados, mercantilistas que tratam a medicina como comércio e forma de ganhar dinheiro, um investimento de médio prazo com retorno garantido. Aquelas escolas que cobram fortunas para formar adolescentes despreparados para exercer a medicina, que tratam a medicina como um rendoso negócio e que terão todo seu “investimento” ressarcido por preços extorsivos cobrados em consultas de 15 min. onde ele pode praticar livremente a péssima medicina que foi educado para exercer.
Infelizmente, muitas faculdades de medicina são de péssima qualidade e formam, todo ano, profissionais medíocres que entram no mercado de trabalho. Muitos médicos são educados para acreditar que são deuses – Tanto por sua família, quanto nas faculdades - e caso duvidem desse dom divino, a posição quase servil da sociedade perante os “doutores” certamente leva uma parcela significativa desses seres humanos a acreditar em sua divindade, sem se dar conta que são humanos, demasiado humanos! A criação desses seres é um ranço do elitismo de nossa sociedade e da empáfia acadêmica, mas a sua manutenção enquanto espécie divina advém de um tal corpo, o tal corporativismo, de onde eles tiram o poder e a força. Através do corpo os pares se protegem, mesmo quando o que tenha sido feito por um deles não mereça proteção, mas sim condenação.
Muitas universidades finalmente se deram conta da necessidade de “educar” este futuro médico para a vida, universidades sérias estão trazendo para sua grade curricular matérias que tratem de humanizar este futuro profissional, a que ponto chegamos, é necessário humanizar o futuro profissional de medicina, educado que foi a pensar na tal medicina como um negócio sem riscos que o tornará rico. Chega a ser assustador como muitos médicos criticam os médicos cubanos, como se o médico brasileiro fosse à essência da perfeição e o médico cubano um charlatão que veio ao mundo, única a exclusivamente, para receitar dipirona. O caso do atendimento via whats já seria mais do que suficiente para ilustrar a hipocrisia de alguns.
Eu ao contrário de muitos, não compactuo com as críticas aos médicos cubanos, muito pelo contrário, basta você ter uma um pouco de sensibilidade e ouvir pessoas atendidas por eles que saberá que são, hoje, em nosso país, da saúde sucateada, imprescindíveis. Mas eles não são especialistas, eles atuam lá no começo, basicamente na ajuda à prevenção. E são necessários porque médico brasileiro não que ser sanitarista.
Creio que para qualquer um de nós que tenha um pouco de sensibilidade, não haja duvida quanto à importância, para a saúde pública, de um projeto como o Mais Médicos - não apenas na figura dos cubanos, mas também, de outros estrangeiros e brasileiros que aderiram ao programa e na constituição de novas faculdades de medicina – afinal, este rojeto resgata a figura do médico da família, do médico sanitarista e, principalmente, a prevenção que deve ser a base de todo sistema de saúde.
Com planejamento de médio e longo prazo é possível fazer muito mais, por exemplo, formar mais médicos com este perfil no país, seria ingenuidade de nossa parte acreditar que significativa parcela de médicos brasileiros recém formados se dedicarão a esta especialidade. É preciso haver uma revolução nas escolas de medicina, na formação desse futuro profissional.
Em relação aos médicos cubanos, já seria uma grande alternativa, em curto prazo, pagar integralmente os salários desses profissionais, permitir a vinda de toda sua família para o Brasil e revalidar os diplomas.
Milhares de médicos cubanos estão espalhados por este Brasilzão de meu, seu, nosso Deus, ajudando, sim, milhões de brasileiros que não tinham assistência. Os médicos cubanos nesta briga, no cabo de guerra, são os que NÃO têm culpa.
O que podemos esperar de nossa sociedade quando nossos métodos de educação, valores e princípios foram “violentados”? Se o SUS paga pouco, simplesmente não faça parte do SUS, senhor médico, porque compor o quadro de médicos, reclamar do que é pago e justificar a negligência e o descaso para com a vida do outro, é indesculpável e em algum país sério desse mundo, seria imputado a este “profissional”, no mínimo, crime de responsabilidade.
Hospital já é triste por si só e, quando existe um mix de indiferença e agressividade no tratamento de um doente, certamente esta pessoa fragilizada tende a ficar ainda mais doente. Isso é caso de SAÚDE PUBLICA, de gestão.
É imprescindível que sejam “construídos” espaços onde uma pessoa doente seja acolhida e não um lugar que a deixe mais doente.
Sabemos que o amor, o carinho e a atenção faz com que qualquer ser humano se sinta melhor em situação de fragilidade. O Brasil é muito grande tem muita gente desassistida sendo tratado como animal em muitos hospitais desse país, é mais do que hora de darmos um basta nisso!
Dinheiro existe, sim, não venha me dizer que não, está perdido na má gestão e corrupção, sugado para o ralo, precisamos exigir que este dinheiro seja bem gerido e aplicado com qualidade na gestão dos hospitais, em sua estrutura e também na formação dos que trabalham neles, desde os porteiros, os enfermeiros até chegar nos médicos, que estes tenham uma formação humanista e humanitária e não apenas técnica e capitalista.
Isabel Cristina Gonçalves é Adamantinense, Oceanógrafa, Mestre e Doutora em Educação Ambiental. Pós-doutorado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no projeto: "Mudanças climáticas globais e impactos na zona costeira: modelos, indicadores, obras civis e fatores de mitigação/adaptação - REDELITORAL NORTE SP" & KAOSA/Rio Grande – Rio Grande do Sul. Acesse aqui seu perfil no Facebook.