Você me ensina a ser político?
Depois de descobrir a cidade grande e conhecer o homem branco, o índio mostra sinais de interesse pela política.
Os olhos abriram-se lentamente e se fixaram no teto feito de sapê. As pálpebras se franziram. Teria voltado para sua oca, no meio da Amazônia? Quem o teria colocado ali, numa rede? Baiá ergueu um pouco a cabeça. Seu rosto se contraiu. Pôs a mão na cabeça. Ai... Essa dor. Que poderia ter acontecido para ela doer tanto e, ao mesmo tempo, dar a sensação de estar vazia, oca? Pressionou os dedos na testa e, ao mesmo tempo, com os polegares massageava as têmporas. Respirou fundo, segurou nas bordas da rede e começou a erguer o corpo, com cuidado, para examinar o ambiente.
À sua frente, deitado debaixo da janela conseguiu reconhecer Avati. Do outro lado viu dois corpos estendidos. Quem seriam? Não tinha a menor ideia. Com a pouca luz que penetrava pelas frestas das paredes, feitas de barro e bambu, não conseguia perceber-lhes os rostos. Além disso, da noite anterior tinha poucas lembranças – copos de bebida, Avati sentado numa mesa com dois estranhos, multidões em frente ao palanque – que se misturavam com as do seu tempo de escola – as mãos marcadas pela palmatória, o escárnio dos colegas, a indiferença dos professores – acompanhadas pelo eco – Baiá político, Baia político – feito trilha sonora.
Colocou os pés no chão. Sentiu a textura macia do piso, diferente da rugosidade do chão de terra batido de sua oca. Tinha a sensação de estar pisando num tapete, diferente daqueles feitos pelas mulheres em sua aldeia, mais macio. Com certeza ele não estava em sua oca, estava numa casa de homem branco. Um dos corpos ronronou. Baiá girou a cabeça e viu quem estava deitado no chão, perto da porta, movimentar-se. Hesitou alguns segundos. Levantou-se e saiu em silêncio.
Com a cabeça latejando, a primeira coisa que fez ao fechar a porta foi pressionar a testa e as têmporas com os dedos por algum tempo. Respirou fundo. À sua frente, a poucos metros, um rio. Baiá deu um sorriso tímido e caminhou em sua direção, murmurando em voz baixa:
– Do jeito que está minha cabeça nem ouvi o barulho do rio. Poderosa essa água de branco... Pinga... Cachaça... É bom.
Foi até o rio, tomou um banho e fez inúmeras e infrutíferas massagens para diminuir a dor de cabeça. Caminhando pela margem, encontrou uma vara de bambu, com a ponta bastante aguda. Baiá examinou-a detidamente. Logo que chegara à beira do rio percebera a abundância de peixes em suas águas mansas e cristalinas e esta vara poderia servir perfeitamente. Com a ponta dos dedos tirou algumas lascas tornando-a mais pontuda. Agora sim, dá para pescar alguns peixes.
O resultado da pescaria não poderia ter sido melhor. Quando Avati o encontrou, estava acocorado ao lado da lança improvisada, junto aos peixes – alguns pacus com três a quatro quilos cada – pensando em como os levaria para a casa. Avati chegou perto, abaixou-se, pegou a lança, examinou-a, olhou para Baiá e disse, rindo:
− Com isso aqui você pescou... – apontou para os peixes e girou o dedo indicador desenhando um círculo no espaço – tudo isso?!
Baiá levantou a cabeça e, sem que o amigo lhe percebesse o mau humor, disse:
− Vem me ajudar.
Avati agachou-se, pegou um peixe e trespassou-o na lança de bambu. Baiá levantou-se para ajudá-lo. Avati falou com gravidade:
− Muito peixe. Vai perder tudo.
Baiá, sem responder, começou a espetar os peixes na vara de bambu enquanto Avati segurava uma das extremidades. Depois de algum tempo, ao pegar o último peixe, dirigiu-se a Avati e perguntou:
− Como a gente veio parar aqui?
− Você não se lembra? De nada?
– Lembro que a gente foi até aquele lugar, o Marrocos, e bebeu...
− Você caiu.
Baiá olhou para Avati com os olhos franzidos, terminou de espetar o peixe na vara e segurando-lhe a ponta começou a caminhar sem dizer palavra.
Jotabê, que estava na frente da casa, logo que os viu, saiu correndo, fazendo algazarra e comemorando os frutos da pescaria. Querendo ajudar, pegou no meio da vara de bambu e levantou-a de forma abrupta. Avati e Baiá, pegos de surpresa, a soltaram. Os peixes caíram e Jotabê, sem que os dois entendessem o motivo da alegria, ironizou seu desleixo.
Danilo, que preparava o café da manhã, ouviu as gargalhadas de Jotabê e, curioso, saiu. Achou graça no jeito dos três carregarem a vara com os peixes espetados. Baiá e Avati seguravam as extremidades enquanto Jotabê, com as duas mãos, a parte rachada do bambu, o que o fazia andar meio de lado, e fora do ritmo estabelecido por Baiá, à frente. Ao chegarem à porta da cozinha, Danilo orientou-os a colocar os peixes sobre o fogão de lenha e, antes que entrassem, fez questão de contar quantos tinha. Cinco! Que fazer com tanto peixe? Não tinha ideia. Nem geladeira para conservá-los por dois dias. E, outra coisa, o povo indígena, que ele saiba, não desperdiça. Eis aí uma boa pergunta a se fazer.
Sentado à mesa, próximo do fogão de lenha, Baiá tomava café e ouvia com atenção a pergunta de Danilo. Engoliu o café e respondeu:
− Na floresta, se tiver fome caço pesco colho e como. Mundo dos brancos é diferente. Não tem caça. Não tem pesca. Não tem árvore para colher fruto. Tem que ter dinheiro. Aqui, na beira do rio, casa do Danilo, não tem que pagar peixe. Só pescar.
− Mas estraga – falou Danilo meio contrariado.
Jotabê começou a rir e disse:
− Nem parece que você é natureba. É só fazer conserva.
− E quem sabe fazer conserva? – perguntou Danilo.
− Com certeza ele sabe – respondeu apontando para Baiá no exato momento em que este abaixou a cabeça, movimento que Jotabê interpretou como sinal de concordância, e pressionou as têmporas, gesto que ignorou.
Baiá e Avati se entreolharam. O que era fazer conserva?
Danilo que viu Baiá pressionar as têmporas e contrair o rosto perguntou, preocupado:
− Tá se sentindo bem?
Jotabê começou a rir e a apontar para Baiá enquanto dizia:
− Ressaca! Tá de ressaca – e ria.
Baiá olhou de soslaio para Avati, que estava à sua direita, voltou os olhos para Jotabê e falou:
- Res-sa-ca?!
− É. Day after – riu – acompanhado pelo gosto de cabo de guarda-chuva e a cabeça oca. E ontem você bebeu todas – cantarolou – eu vou beber, beber até cair – riu e continuou – vou te contar. Faz alguns anos. Tomei um porre tão grande que minha ressaca durou três dias. Imagine. Três dias com a cabeça oca e aquele gosto de cabo de guarda-chuva.
Avati, diante da simpatia e cordialidade de Jotabê e Danilo se deixou conquistar abandonando a desconfiança que tivera a princípio, quando os conhecera na noite anterior. Afastado o receio de eles serem inimigos, sentiu-se mais seguro para falar em seu português carregado.
− Bebida de branco arde garganta. Deixou Baiá estranho.
− Só me deixou com a cabeça doendo – defendeu-se Baiá – de ressaca, igual falou Jotabê. Baiá continua Baiá. Esquisita é essa comida de Danilo. Pão escuro, massudo. Mas bom.
− Você não viu nada ainda, Baiá. Esse pão ainda dá para comer, mas o arroz que ele cozinha, credo!
− Questão de hábito, Jotabê – defendeu-se Danilo – e depois, tem mais, comida integral é medicina preventiva. Ajuda a melhorar sua qualidade de vida e se livrar de médico.
Baiá levantou-se animado e disse, dirigindo-se à entrada da sala:
− Então Baiá e Avati vão fazer peixe.
− Aonde você vai? – perguntou Danilo.
− Buscar faca para fazer peixe.
− Então tira o sapato para entrar aí. Esse piso de lona emborrachada só aceita pezinhos delicados e descalços – e riu.
Baiá voltou com uma faca e aproximou-se do fogão onde estavam os peixes. Tirou-os do bambu e disse:
− Precisa lavar antes de cortar. Aonde tem água?
− Água é só na bica, lá fora, subindo por aquela trilha ali ó, tá vendo? – Danilo apontou para fora, pela janela – mas deixa isso para mais tarde, mais perto do horário de almoço. Vamos caminhar pelo morro até o alto da montanha. Lá dá para ver a cidade. É bem bonito.
Todos concordaram. Baiá colocou sua faca sobre a mesa e, dirigindo-se a Jotabê, disse:
− Ontem você falou que Baiá podia ser político, né?
− E quê político – exclamou Jotabê.
− Baiá quer aprender. Você ensina Baiá a ser político?
