Pequenas Mentiras

O ritual

Pequenas Mentiras traz novo texto de César Carvalho.

Por: Cesar Carvalho | pequenasmentiras49@gmail.com
O ritual

Um vilarejo no alto de uma montanha, nas cordilheiras dos Cárpatos, congrega uma pequena população que vive basicamente da agricultura e da criação de ovelhas. Suas casas concentram-se num platô, exceto uma, mais acima e perto de uma igreja, que, segundo os habitantes, era residência dos padres.

Diariamente, e antes de raiar o sol, os montanheses participam da missa num costume que se estende por séculos. A poucos metros da entrada, uma enorme cruz se interpõe entre os devotos que, um a um, param em sua frente, chacoalham todo o corpo e entram na igreja. Foi este ritual que chamou a atenção de Tiago Fontes, um antropólogo dedicado ao estudo de religiões. Ao tomar contato com alguns poucos artigos que tratavam do assunto ficou curioso e, ao mesmo tempo, insatisfeito.

Alguns autores diziam que o ritual teria nascido de uma antiga prática pagã e assimilada pelos padres na tentativa de converter os montanheses à sua fé. Outros diziam que o ato de chacoalhar foi introduzido por imigrantes indianos que acreditavam na incorporação de espíritos e acabou integrando-se à liturgia local.

Tiago não se convenceu. Viajou ao Vaticano, consultou tudo o que foi possível sobre a região e sua prática exótica; conversou com autoridades eclesiásticas, mas, para sua surpresa, eles a desconheciam. Se quisesse mais informações, teria mesmo que ir às fontes primárias, visitar o local, conversar com os habitantes e tentar decifrar o enigma. Afinal, caramba, ele era ou não um pesquisador? E pesquisador tem que ir direto à fonte.

Ao chegar, Tiago foi recebido com pompa e curiosidade. Acostumados ao isolamento, era raro receberem visitas e mais raro ainda a de um antropólogo. Diante da dificuldade em explicar qual era seu objeto de estudo, e sentindo-se um pouco constrangido, escondeu suas reais intenções e esclareceu que viveria algum tempo no vilarejo para conhecer seu estilo de vida.

Como a cidade não possuía hotéis, nem estavam acostumados a hospedar visitantes, ofereceram-lhe a casa próxima da igreja que estava vazia e poderia ser ocupada até terminar sua pesquisa. Além do que, disseram, facilitaria sua ida à igreja para participar da missa.

No dia seguinte, Tiago acordou num sobressalto. Era um dos habitantes chamando-o para assistir à missa, como era o costume. Vestiu-se às pressas e surpreendeu-se com a quantidade de pessoas que faziam fila para entrar na igreja. Cada um deles parava diante da cruz, chacoalhava o corpo, depois seguia para o interior, aguardando o início da cerimônia. Tiago prestou atenção e, ao chegar sua vez, repetiu os gestos da melhor maneira que pôde. Na saída, a mesma coisa: pára-se diante da cruz, chacoalha-se o corpo e cada um segue seu rumo.

Nos primeiros dias, o antropólogo limitou-se a acompanhar as atividades dos montanheses sem fazer perguntas. Depois, mais familiarizado, começou a questioná-los sobre o ritual. Todos diziam a mesma coisa: era uma prática que existia desde tempos antigos, provavelmente desde que o vilarejo fora construído há muitos séculos. A mesma explicação lhe foi dada por um velho padre que, aposentado, dedicava-se a traduzir do latim velhos manuscritos do pequeno acervo da igreja.

Tiago já estava quase abandonando sua pesquisa quando um acidente lhe favoreceu. Era tarde da noite e redigia, em seu diário de campo, os motivos que o levavam a desistir do projeto, quando ouviu um barulho no andar inferior da casa. Pegou a lamparina – o vilarejo não tinha energia elétrica – e dirigiu-se ao local de onde o ruído provinha. Não encontrou nada, mas percebeu que uma parte do assoalho soava falso. Bateu o pé uma vez e ouviu um som oco. Bateu com mais força, o assoalho abriu-se e ele caiu numa espécie de porão, bastante estreito. Acendeu o isqueiro e surpreendeu-se. O espaço estava vazio, à exceção de uma prateleira onde encontrou folhas manuscritas, bastante velhas, quase se desfazendo. Manipulou-as cuidadosamente. Suas páginas, escritas em latim, lhe eram incompreensíveis. Talvez aquelas folhas contivessem alguma informação importante, quem sabe.

No dia seguinte nem esperou ser chamado, foi logo à igreja, chacoalhou o corpo diante da cruz e rezou. Terminada a missa acompanhou o velho padre e explicou-lhe o que havia encontrado. O padre examinou o manuscrito e concordou em traduzi-lo:

− Veja esta data. Estas folhas foram escritas no século XI. Pode ser importante.

As vinte e quatro horas de espera lhe pareceram uma eternidade. Depois da missa, no dia seguinte, o padre pediu-lhe que o acompanhasse até sua casa. Sua curiosidade era tanta que tentou conversar, mas o padre, sisudo, pediu-lhe silêncio. Tiago não entendeu, mas obedeceu.

Em sua casa, o padre lhe ofereceu um chá, sentou-se à escrivaninha e começou a folhear cuidadosamente o manuscrito. Tiago, emudecido, aguardava ansioso e acompanhava cada gesto do ancião que, finalmente se pronunciou:

− Acho aconselhável você esquecer este manuscrito.

Tiago, surpreso, gaguejou:

− Eeeesquecer?! Por quê? O que tem nele?

− Aquilo que você procura, a origem de nosso ritual.

Tiago não conteve sua alegria. Exaltado, levantou-se da cadeira e dirigiu-se ao padre:

− Mas isso é maravilhoso. O senhor já pensou, explicar como nasce um rito!

− Maravilhoso e mortal. Explicar o rito é matar o rito, por isso sua origem deve ser mantida em segredo. O mistério deve permanecer para que a fé seja mantida. O sagrado não pode ser revelado. Você precisa entender isso.

Tiago, com a respiração ofegante, sentou-se:

− O que está nesse manuscrito, o senhor pode me dizer?

− Desde que você prometa não revelá-lo.

− Concordo, mas, por favor, me diga.

− Este manuscrito é, na verdade, o diário do padre que iniciou, de forma involuntária, este ritual. Antes de iniciar a construção da igreja ele ergueu a cruz que está lá até hoje, mas, houve um acidente. A cruz caiu-lhe sobre uma de suas pernas, quebrando-a. Ele ficou aleijado para o resto da vida e, pior, traumatizado, cada vez que passava em frente a ela, seu corpo chacoalhava. Seus discípulos, achando que era uma espécie de reverência, começaram a imitá-lo.

− Ora, e por que o padre não impediu isso?

− Esse era seu dilema. Teve medo de confessar sua fragilidade. Os montanheses que vieram para cá, vendo o comportamento do padre e de seus discípulos, começaram a imitá-los. O padre morreu e, até hoje, as pessoas se chacoalham na frente da cruz. E isso é tudo.

− Posso ficar com o manuscrito?

− Melhor não. Este segredo não pode sair daqui.

Tiago ficou em silêncio. Olhou para o padre, olhou para o manuscrito, e disse:

− Bem, acho que não tenho mais nada a fazer por aqui. Mas, antes de ir embora, o senhor poderia arrumar-me um copo d água?

O padre saiu e Tiago pegou o manuscrito, escondeu-o sob sua roupa e se dirigiu à porta de saída. O padre voltou com o copo d água, Tiago bebeu e se despediu.

Horas depois o vilarejo entrou em polvorosa. O corpo de Tiago fora encontrado no fundo da cordilheira junto com inúmeras folhas manuscritas se deteriorando.

O velho padre, ao ver o corpo, disse:

− Avisei que ele tomasse cuidado com as janelas da casa. Estavam deterioradas e poderiam despencar na cordilheira se nelas se apoiasse.

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