Pequenas Mentiras

O amigo do meu amigo

Confira o novo texto de Cesar Carvalho, em suas Pequenas Mentiras desta semana!

Por: Cesar Carvalho | pequenasmentiras49@gmail.com
O amigo do meu amigo

Estava cansado e precisava de um banho. Meu escritório, praticamente às escuras num final de tarde outonal, tinha apenas a tela do computador para iluminá-lo. Antes de encerrar o expediente, como sempre, navego pelas páginas do Facebook. Gosto de chamá-lo de jornal plural. Publica-se de tudo, de notícias importantes a bobagens, na maioria acompanhadas de fotos: a última refeição, o namorado(a), o cachorrinho. Esse tipo de coisa. Como as publicações − a maioria chama de post, velha mania brazuca de aportuguesar o inglês − veiculam numa velocidade estonteante, muitas a gente perde se não salvar à parte. Selecionei e salvei várias. Uma me chamou muito a atenção. Era sobre um jornalista que havia desaparecido. Até aí, nada demais. Um monte de gente desaparece e nem todos são notícia. Mas este era. Ele fora contratado por uma agência de comunicação para criar avatares, personagens fictícios de redes sociais. Depois de um tempo começaram os problemas. Assumiu a identidade dos personagens que criava. Enlouqueceu. Minha curiosidade aguçou. Mesmo com a notícia salva não deixaria sua leitura para depois. Essas histórias de múltiplas personalidades me fascinam.
Mal terminei de salvar o arquivo a luz do escritório acendeu-se e eu assustei. Era Julinho, um amigo e morador provisório de meu apartamento, acompanhado por um jovem e fazendo, como sempre, a maior algazarra, mas sempre se desculpando:
− Oh, Bartê, não sabia que você estava trabalhando. Olha. Este é o Buk. Tá morando nos Estados Unidos e veio passar uns dias em Sampa.
Meio contrariado levantei-me da cadeira e fui cumprimentá-los. Eles sentaram no sofá, onde deito e relaxo quando necessário e por isso o mantenho, e eu sentei na poltrona, usada para leituras. O conforto tem seu preço: as visitas indesejadas também se sentem confortáveis e me atrapalham por mais tempo.
Sem ter o que falar e sem conhecer o companheiro de Julinho, puxei assunto pelo óbvio:
− O Julinho disse que você mora nos Estados Unidos. Faz o que lá?
− Moro sim... Em Hollywood. Trabalho? Sim, sim, faço máscaras cenográficas.
− Máscaras?! Interessante. Gosto muito de cinema. Qual seu nome? Talvez já o tenha visto em algum filme.
− É Buk, Buk Feicidi, mas você nunca viu meu nome em filme não. Minha empresa produz as máscaras sob encomenda e nem sempre é citada nos créditos.
− Desculpe – insisti – como é mesmo seu nome?
−  Buk, Buk Feicidi – soletrou lentamente.
− Curioso. Tirando o di, de Feicidi, seu nome é Facebook ao contrário.
Não sei que cara eu fiz enquanto falava, mas deve ter sido muito estranha porque ele ficou indignado e tirou um documento do bolso:
− Não acredita? Ta aqui. Olha. Minha identidade.
Por pura educação recusei a oferta, mas a curiosidade era grande e meus olhos percorreram as linhas do documento onde li Buk Feicidi.
Percebendo o amigo constrangido e eu sem jeito, Julinho convidou-nos para um café na cozinha. Buk aceitou de prima.
Saíram e eu voltei à escrivaninha. Estava curioso e não tomaria banho antes de terminar de ler a notícia. Reiniciei o computador e ela estava lá, estampada no ponto em que parei. Retomei a leitura e descobri que o jornalista de múltiplas personalidades fora visto recentemente na metrópole paulista depois de fugir de um hospício nos Estados Unidos. Apresentava-se como Buk Feicidi.

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