Na cadeia
César Carvalho traz novos desdobramentos sobre a missão de dois índios, na tentativa de impedir o desmatamento da floresta.
Acorrentados, Baiá e Avati foram conduzidos pelos corredores da prisão. Os prisioneiros gritavam e acenavam na passagem dos dois, empurrados com violência pelos policiais. Na frente da cela, enquanto um deles abria a porta, o outro tirava as algemas. Depois, empurrou-os. Fechou a porta, olhou para os dois e disse:
− Hora de conhecer o novo chefe.
No interior da cela, um semicírculo de homens em pé formou-se em torno de Baiá e Avati, parados próximo à porta, desconfiados. Ninguém se mexia até uma voz sair do fundo da sala:
− Deus ta comigo! Foi só falar que nada acontece e aparecem esses dois – e riu. Levantou-se com a faca na mão e abriu passagem entre os prisioneiros na direção de Baiá e Avati, falando com certa alegria:
– Carne fresca! Hummm e limpinhos – passou a mão pela cabeça de Avati, franziu o nariz e disse:
– Saíram do banho agora - deu um passo na direção de Baiá, parou em sua frente e, franzindo novamente o nariz, disse:
– Mas parece que o banho não foi dos melhores. Eles têm um cheiro estranho – e voltou a ficar em frente a Avati, para quem apontou a faca e perguntou:
− Vocês não são daqui, né?! De onde vocês são?
Avati olhava-o surpreso, sem descuidar da faca, bem próxima de seu rosto. O velho, girando a faca em pequenos círculos, falou agressivo:
− Olha aqui, garoto, quando faço uma pergunta tem que responder. Entendeu?
Avati olhou para a ponta da faca, voltou a olhar para o velho e olhou para Baiá, pedindo ajuda. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Avati sentiu a ponta da faca encostar-se em seu pescoço acompanhada da voz ameaçadora:
− Tá querendo me fazer de bobo, é?!
Baiá, percebendo a ameaça, interveio:
− Avati não fala sua língua. Deixa ele quieto.
O velho dirigiu-se a Baiá. Aproximou-se de seu rosto, encostou-lhe a faca no pescoço e, sarcástico, falou:
− Não é que a carne fresca aqui mal acabou de chegar e já quer mandar?! –caindo na gargalhada. Os prisioneiros, que acompanhavam atentos, começaram a gritar em coro:
− Dá uma lição neles, Mucura!
Baiá sentiu aumentar a pressão da faça enquanto Mucura falava irritado:
− Pelo visto vocês ficarão aqui um bom tempo. Então aqui é a sala de treinamento e vocês serão treinados para me obedecer, ouviu? – aumentou a pressão da faca, aproximou sua boca do rosto de Baiá e disse:
− E quando for falar comigo tem que me chamar de senhor Mucura, entendeu?
Baiá, impassível, não lhe tirou os olhos. Mucura franziu o nariz, fungou e comentou:
− Vocês dois tem um fedô esquisito.
Os músculos do rosto de Baiá se contraíram, ele respirou fundo, a pele ganhou uma coloração avermelhada e as mãos se fecharam. Mucura perguntou:
− Qual é seu nome?
Baiá respondeu lacônico:
− Baiá.
− De onde vocês são?
Baiá ficou quieto. Não pronunciou palavra. O velho repetiu a pergunta e aumentou a pressão da faca:
− Olha aqui, moleque, se não aprender por bem, vai aprender por mal – e gritou – não vou perguntar de novo, de onde vocês são?
Diante do mutismo de Baiá, Mucura não hesitou, deu-lhe um soco no abdômen com a mão esquerda, sem tirar-lhe a faca do pescoço. Baiá recebeu o golpe sem reagir. O velho falou:
− Gente como você só pode ser índio, com esse fedor esquisito.
Recuperando-se do golpe, Baiá olhou para Mucura e falou, em tom de desafio:
− Mas índio não é Mucura.
O velho franziu os olhos e voltou a cabeça para trás, surpreso:
− Que você ta falando? Que você quer dizer com isso?
Avati voltou-se para Baiá e perguntou:
− Mucura é o nome dele?!
Baiá respondeu:
– É, e ele não sabe que Mucura é gambá. Bicho mais fedido da floresta − e ambos caíram na gargalhada.

Sem entender o que falavam, o velho ficou irritado e começou a dar pulinhos e a gritar, tentando impor a autoridade que sentia perdida diante das gargalhadas dos dois. Aumentou a pressão da faca sobre o pescoço de Baiá, que começou a sangrar. O velho, cada vez mais nervoso, aumentava a pressão da faca. Num gesto rápido, com sua mão direita, Baiá agarrou o braço de Mucura e afastou a faca de seu pescoço, ao mesmo tempo que torcia-lhe o punho e dava-lhe um chute na canela. Mucura curvou-se. A faca desprendeu-se de sua mão e Baiá deu-lhe um tranco, jogando-o de joelhos ao chão, pegou a faca e colocou-a sobre o pescoço de Mucura, que temia por sua vida. Baiá tranqüilizou-o:
− Baiá só mata bicho para comer.
Os demais prisioneiros, vendo Mucura caído, avançaram aos gritos para proteger o chefe, mas Avati posicionou-se em defesa de Baiá, impedindo-lhes a passagem. A princípio, hesitaram até Macura ser derrubado, então avançaram sobre Avati que, apesar do esforço e ter derrubado alguns, logo foi jogado ao chão enquanto levava pontapés e socos. Alguns detentos tentaram aproximar-se de Baiá, que aumentou a pressão da faca. Mucura, desesperado, mandou todo mundo parar. Avati recompôs-se e aproximou-se de Baiá.
Atraído pelo barulho, os guardas do presídio correram até a cela. Baiá, com a faca na mão e mantendo Mucura ajoelhado, viu os guardas, aumentou a pressão da faca e falou:
− Baiá só tem um chefe, e ele é o cacique – olhou para os guardas que abriam rapidamente a porta, jogou a faca para fora da cela e se levantou.
O primeiro guarda a entrar foi até Baiá e deu-lhe uma pancada nas pernas com o cassetete. Baiá se curvou e levou outra pancada nas costas. O segundo guarda empurrava Avati dando-lhe pancadas de cassetetes nas costas e Mucura, histérico, gritava:
− Castiga esse galo de briga prá valer. Olha a faca que ele trouxe – e apontou para o corredor, mas a faca já havia sido apanhada pelo guarda que ficara fora.
Os dois foram algemados e levados para outra cela, mais lotada e menor. Ao tirar-lhes as algemas, o policial falou, em voz baixa, o suficiente para ser ouvido pelos encarcerados:
− Esses aqui encararam o Mucura – empurrou os dois para dentro, fechou a cela e se retirou com o parceiro.
Baiá e Avati, desconfiados, pararam, olharam aguardando o pior. Mas os prisioneiros aproximaram-se sorridentes, abraçando-os e cumprimentando-os por enfrentarem Mucura. Agora, mais descontraído e sentindo-se acolhido, Baiá respondeu às perguntas curiosas dos companheiros de cela e dizia não entender por que estavam ali. Um deles, rindo, explicou que tinha sido preso pela mesma razão, mendicância. Ali, naquela cidade, pedir esmolas era crime inafiançável. Baiá contestou:
− A gente é índio, só vestiu roupa de branco.
Fez-se certo silêncio. Depois começaram a rir e a bombardear Baiá de perguntas que ele traduzia para Avati. Ao explicar que estavam ali com a missão de impedir o desmatamento da floresta, tiveram o apoio imediato e unânime dos companheiros de cela. Um deles chegou a orientar Baiá a ir até o Palácio conversar com o Presidente, mas logo foi desestimulado por outro companheiro que o lembrou do fato de os dois índios estarem presos, sob acusação de mendicância, sem nenhuma chance de saírem em pouco tempo, se saíssem. O apoio irrestrito dos presos à sua causa deixou Baiá tão animado que não chegou a perceber que eram eles que não tinham chance de serem soltos. E, para espanto de Avati, era primeira vez, desde que tinham iniciado a viagem, que isto acontecia, começou a cantarolar:
preguiça era gente
gente como a gente,
mas pra mãe mentia
carne que ela comia
gosto de veado tinha
ela não sabia
ele não dizia
era a coxa do filho
que comia
e não do veado
que caçara.
caçar? como?!
se à caça só ia
ao chegar dos caçadores.
revelado trambiqueiro
praga a mãe jogou
de barriga pra cima
ele ficou
e de gente
bicho-preguiça virou
Tratados como heróis, tiveram o privilégio de dormir em colchões enquanto a maioria improvisava suas camas no piso duro e irregular feito de cimento batido.
Mas, se Baiá e Avati tiveram uma noite tranqüila, o mesmo não se pode dizer do delegado que, no meio da noite, recebeu um telefonema: um cinegrafista ameaçava veicular as imagens de índios sendo presos pela polícia.
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