Pequenas Mentiras

Lugar de mendigo é na cadeia!

Cesar Carvalho traz seu novo texto, em Pequenas Mentiras desta semana. Leia “Lugar de mendigo é na cadeia!”.

Por: Cesar Carvalho | pequenasmentiras49@gmail.com
Lugar de mendigo é na cadeia!

Fim de tarde. As lojas estão fechando. As calçadas quase vazias. Dois policiais estavam encostados à parede.  Pouco a fazer naquele turno, conversavam para dissipar a monotonia. Um deles viu o caminhão estacionar duas quadras abaixo e dois jovens desembarcarem. Chamou a atenção do amigo:
− Olha aquilo. Dois malandros dando sopa. Vamos, China, vamos lá, trabalhar!
Os dois caminharam observando o comportamento dos jovens. O menor deles encostou-se ao poste, colocou o alforje no chão, enquanto o outro, um pouco mais alto e mais musculoso, se despedia do motorista e subia na calçada. Parou em frente ao amigo, deslizou o alforje até o chão, olhou para os lados de forma indecisa, com quem diz, para onde ir?
China reparou no tamanho dos alforjes:
− Acho que pretendem ficar um bom tempo por aqui. Olha a sacola deles.
O colega, que olhava para o jovem encostado no poste, comentou irônico:
–Olha só a calça do carinha? É maior do que ele – e riu.
China complementou:
− E são cabeludos! Devem ser ripes.
A poucos metros de distância, os dois policiais foram surpreendidos pelo movimento brusco que o mais alto deles fez, colocando-se de frente, em posição de defesa. Assustados, os policiais sacaram suas armas:
− Mãos pro alto.
Com as mãos levantadas, os jovens foram empurrados até a porta fechada da loja e revistados.
− Que merda é essa?! – disse China, segurando alguns galhos com folhas secas e pedaços de cipó – tem que ir pro laboratório. Pode ser algum tipo de droga.
− Você pirou, China? Fazer droga com mato? – voltando-se para o mais alto – Ei, você, qual é seu nome? – e cutucou-lhe as costas com o cano do revólver.
− Baiá.
− E o que é isso? – forçou o rosto de Baiá na direção de China, acocorado remexendo os alforjes.
− Vegetal.
− E pra que serve? – gritou China.
− Pra fazer chá, curar doença.
Com o revolver apontado, o policial pegou as algemas e aconselhou China:
− Acho melhor grampear esses cara e levar esse negócio aí, ó – apontou com o cano da arma para os pedaços de cipó e folhas nas mãos de China e completou – pro laboratório.
China fechou os alforjes e foi ajudar o amigo. Aproximou-se do menor, que murmurava alguma coisa para Baiá e gritou:
– Cala a boca! – e deu-lhe uma coronhada na cabeça – Só fala quando a gente mandá. Que tão fazendo aqui? Não sabem que é proibido pedir esmola? E esse monte de erva? Para fazer chá! Duvido. E aí, não vai responder não – e cutucou o jovem com o cano da arma – por acaso é surdo?
− Ele não fala sua língua – respondeu Baiá, que observava a cena com o corpo encostado na porta de ferro da loja.
− Viu isso, Vlado, ele não fala nossa língua! - e riu – agora a gente tá importando mendigo.
− Caralho, China. Eles devem ser índios. Grampeia eles.
Enquanto China algemava os dois, Vlado pedia uma viatura para levar os prisioneiros. Alguns curiosos pararam e cochichavam entre si, se perguntando o que teria acontecido. Seriam ladrões? Traficantes? Andarilhos? Pouco depois a viatura chegou e os algemados colocados dentro do camburão.
− Baiá, o que está acontecendo?!
− A gente está sendo preso, Avati.
− Preso?! A gente vai virar escravo de homem branco?
− Não sei. Acho que não. – Baiá fez uma longa pausa, ajeitou as mãos algemadas atrás do corpo e falou compassivo − bem que o seu Manuel avisou.
− Seu Manuel?! Quem é seu Manuel? E avisou o quê?
− O motorista do caminhão. Ele falou que a gente parecia mendigo. Gente que pede comida pra viver.  Aqui eles prendem
− Pede comida? Branco não sabe caçar?
 


Na delegacia, Baiá e Avati foram colocados numa sala estreita, com um pequeno banco de madeira para duas pessoas; uma escrivaninha com um computador antigo, desligado e uma cadeira. Com a sala trancada e sem ninguém por perto, Avati, apesar de algemado, sentiu-se mais à vontade para conversar com o amigo. Sentaram-se no banco, mas Baiá estava indiferente às tentativas de comunicação. Permanecia quieto. Os músculos do rosto contraídos. Avati percebia a tensão do amigo, mas nada podia fazer. Baiá sempre se calava diante de qualquer tentativa de conversa. Dali a pouco entraram dois policiais escoltando quatro garotos, algemados. Sem outro espaço, sentaram-se no chão, encostados à parede logo depois da entrada. Dois deles tinham ferimentos leves no rosto e no braço. Um deles, o primeiro a sentar-se, olhou para os policiais e perguntou:
− A gente vai ter que ficar com esses mano aí, ó?! – e apontou para Baiá e Avati.
Os policiais ficaram indiferentes à pergunta. Saíram e fecharam a porta. O garoto, que parecia ser o líder do quarteto, reclamou:
− Esses caras fedem.
Avati, mesmo sem entender a língua, percebeu a agressividade da frase pela expressão de ódio nos olhos de Baiá. Instintivamente pousou a mão em sua perna e num gesto de deixa pra lá, não vale a pena, apertou-a. Baiá limitou-se a desviar os olhos para Avati que entendeu o recado. Ele não os agrediria. Avati recostou-se na cadeira, satisfeito, pois evitara o pior. Absorto em seus pensamentos, Avati mal percebeu Baiá levantar-se e caminhar duro em direção aos jovens. Apavorado, ia começar a levantar para detê-lo quando dois policiais entraram. Baiá hesitou, parou e voltou a sentar-se. Os jovens foram retirados. Logo em seguida entrou uma mulher de meia idade, magra, sorridente. Sentou-se, ligou o computador e chamou Baiá.
Acompanhando-o com o olhar, deu um sorriso e comentou – nossa, que homem bonito! Baiá aproximou-se, ela indicou a cadeira e Baiá sentou-se. Ela franziu o nariz, sentindo algum cheiro estranho, mas não deu importância. Começou a preencher o formulário, parou. Inclinou o corpo para pegar o telefone, na ponta da mesa, próximo de Baiá, voltou a franzir o nariz. Pegou o telefone, teclou o número do ramal. Ao ser atendida, ficou sabendo que os policiais responsáveis pela detenção de Baiá e Avati não estavam, haviam saído para uma emergência.
A porta se abriu e entrou um jovem sorridente, com terno social e uma gravata borboleta. Ela interrompeu a conversa telefônica:
− Pode deixar. A pessoa que vai resolver a questão acabou de chegar. – Desligou o telefone e se dirigiu ao jovem:
− Chegou na hora certa, Jorge – apontando para Baiá e Avati – você está ciente da detenção destes dois?
Ele riu, inclinou o corpo, e disse com ironia − Boa noite, Maria Clara, - voltou a rir, fez uma pausa e continuou – to ciente, sim. Eu vi quando chegaram. Dois ótimos policiais esse Vlado e esse China.
− Jorge, pelo amor de Deus, você quer colocar sua carreira em risco? Esses dois são índios!
− E daí? Infringiram a lei, tem que pagar.
− Se o pessoal dos Direitos Humanos souber desses dois, esqueça sua carreira. Voltará a ser escrevente.
Jorge, que até esse momento havia se mantido a certa distância da escrivaninha, aproximou-se, inclinou o corpo, aproximou os lábios do rosto de Maria Clara e murmurou sedutor:
− Enjaula logo esses dois e vamos tomar aquele drinque, hum!
Maria Clara esticou o pescoço, beijou o rosto de Jorge, e disse baixinho:
− Não diz que não avisei – fez uma pequena pausa e completou – o drinque é por sua conta.
Depois que Jorge saiu, Maria Clara levantou-se da cadeira, foi até Avati, chegou bem perto, franziu o nariz, cheirou o ar, fez uma cara de desagravo e voltou a seu lugar. Pegou o telefone. Ao ser atendida, autorizou:
− Pode vir buscar os meliantes – riu – o ambiente precisa ser higienizado. Tá muito fedido.
Mais uma vez Avati não compreendeu as palavras ditas, mas o olhar de Baiá e seu rosto tensionado traduziam a gravidade da situação. Mais uma vez Avati temeu pelo pior.
Dois policiais entraram. Maria Clara aconselhou:
− Vê se consegue dar um banho neles. Tão carentes.
Na cela, super lotada, dois detentos jogavam baralho. O mais velho, um cara velho, carrancudo, tinha em suas mãos uma faca bastante afiada e pontuda, tipo punhal. Punhal artesanal. Mas nenhum deles parecia estar preocupado com isso. Pelo menos até o momento em que o velho pegou a faca, ergueu-a e, com força, espetou-a no centro da mesa improvisada, uma caixa de papelão que desmontou com o impacto, e disse:
− Tô de saco cheio, mano. Nada acontece!
Um detento, encostado na grade, viu os dois índios avançarem na direção da cela. Esticou a cabeça para melhor olhar o corredor, se virou e disse:
− Esquenta não, chefim. Tá chegando carne fresca.

Mais colunas