Do Muquifo às peripécias bancárias
Onde dormir e como sobreviver na selva de pedras? Cesar Carvalho traz novos desafios a serem vividos pelos índios Baiá e Avati.
Baiá e Avati haviam saído da prisão há algumas semanas e estavam morando numa pensão chamada Muquifo, numa cidade periférica, a uns trinta quilômetros do Palácio. Na entrada, um portão de ferro dava para o corredor composto de pedaços de ladrilhos misturados com a grama que crescia descuidada. No quarto, ocupado por três outros jovens que só apareciam à noite, Baiá e Avati instalaram suas redes. Perto do forro estendiam-se varais improvisados com barbante com as roupas penduradas desordenadamente. Papéis, pontas de cigarros e embalagens de balas, doces e bolachas jogados no piso decoravam o ambiente como para dar sentido ao nome da pensão.
Descobriram o Muquifo por acaso. Sem lugar para dormir, instalaram-se nos bancos de um bosque, próximo ao Centro do Poder. Acostumados à vida na selva, dormir ao relento não seria nenhuma novidade. Estavam quase pegando no sono quando um dos encarregados de vigiar o parque chegou e advertiu-os do perigo de ali permanecerem. Poderiam ser confundidos com mendigos e presos. Baiá e Avati se entreolharam. Agora sabiam o significado da palavra mendigo e não estavam dispostos a voltar para a prisão. O vigilante apercebeu-se da situação dos dois e indicou-lhes o endereço da pensão que, certamente, teriam condições de pagar.
Para Baiá morar no Muquifo tornou-se um problema tedioso. O Centro do Poder era longe, trinta quilômetros. Começou indo a pé. Muito demorado. Mesmo em passo rápido, quase correndo, gastava cerca de cinco horas para chegar e outro tanto para voltar. Chegava exausto. Na selva andava por muito mais tempo e com mais dificuldade devido aos obstáculos naturais da floresta, cipós, matos, os bichos, cobras, mas não se cansava tanto. Na floresta não tinha o ar malcheiroso e cinzento da cidade. Os pensionistas o aconselharam a usar o ônibus, seria mais rápido e menos cansativo. De fato, constatou Baiá, era mais rápido e menos cansativo, porém custava caro e o dinheiro dos dois era bastante limitado. Aliás, estava prestes a acabar. De qualquer maneira, a pé ou de ônibus, as tentativas de falar com o prefeito eram inúteis. Foi expulso várias vezes da recepção do palácio – numa delas foi ameaçado pela segurança – e não conseguiu encontrar ninguém que lhe desse orientação. Pensou em desistir. Voltar para sua aldeia. Aí se lembrou do avô e de suas histórias e do tempo que ficou imobilizado olhando o rio. Respirou fundo, adquiriu novo ânimo e retomou a rotina. Nos dias que ficava no Muquifo, deitava na rede, cantava, dormia e sonhava. Era um tédio com o qual logo se acostumou.
Para Avati morar no Muquifo foi uma sorte. Ganhou a simpatia de um dos colegas de quarto, Junior, um jovem com pouco mais de vinte anos, idealista e solidário, que resolveu aproveitar as noites livres para ensiná-lo a falar português. Era assistente de pedreiro e havia parado os estudos. Mãe doente e com o filho bebê, não tinha como continuar estudando. Um dia abandonaria aquele emprego por outro melhor e voltaria aos estudos. Queria ser advogado, profissão onde melhor se pode praticar a palavra como ferramenta. Construir mundos imaginários, mas críveis. O advogado constrói as evidências, tá ligado? Avati estava sempre ligado, mas não captava o sentido da pergunta filosófica do mestre. E o mestre, crente no poder da palavra, empenhava-se em ensiná-lo a falar e a escrever. Sem dar importância ao ronco dos outros dois, que chegavam invariavelmente bêbados, deitavam e dormiam, prestava atenção em cada palavra, em cada letra que Junior lhe ensinava. Durante o dia, enquanto Baiá perambulava pelo Centro, Avati esforçava-se em apreender as lições do mestre e seguir à risca seus conselhos. Assim, alternava a prática da caligrafia com a leitura e, quando cansado, pedia licença à dona da pensão para assistir TV e acostumar o ouvido à sonoridade da língua. Pouco tempo depois Avati se fazia entender.
Naquela manhã nada indicava que a rotina mudaria. Os três colegas de quarto saíram antes do nascer do sol e Baiá e Avati, algumas horas depois, levantaram e dirigiram-se à cozinha, onde tomaram o café da manhã – meio copo de café com leite e uma fatia de pão com manteiga. Avati, como fazia todos os dias, reclamou que a comida do branco não tinha gosto, que faltava tapioca ou beiju e, antes de engolir o último naco do pão amanteigado e beber o último gole do pingado, expressou sua saudade da aldeia. Até aqui, tudo normal. Depois do café Avati iria estudar em seu quarto e Baiá, certamente, pegaria o ônibus ou iria a pé até o Centro do Poder. Mas não. A dona da pensão chegou e os planos mudaram. Eles deveriam pagar a estadia ou cair fora. Entreolharam-se. Estavam sem dinheiro. Arrumaram suas coisas e saíram caminhando em direção ao Centro do Poder. Por algum tempo andaram em silêncio até que Avati perguntou:
− A gente vai voltar para a aldeia?
− Claro que não. A gente está só começando.
– Começando?
– Avati, não adianta ter pressa. A gente tem que ser persistente. A água parou no buraco. É só um tempo. O buraco enche e ela continua.
Avati começou a rir e a debochar das metáforas do amigo. Baiá parou, colocou seu alforje no chão da calçada e riu. Continuou rindo, sem perceber que o amigo ficou sério de repente, e só parou com a voz angustiada de Avati:
− E como a gente vai fazer sem dinheiro?
Baiá, pensativo, passou os dedos sobre o queixo. Ambos sabiam que o problema era sério. Sem dinheiro sobreviveriam na floresta, não na cidade. Bateu fome? Pega arco e flecha e caça. Ou pesca. Na cidade precisa de dinheiro. E dinheiro acaba logo.
− Avati, lembra quando a gente foi pegar os documentos no Posto? Lembra que eles deram pra gente um cartão dizendo que era dinheiro?
− Mas você mesmo falou que um papel duro não pode virar dinheiro.
− É claro que não Avati. Eu sei como é o dinheiro. Você também sabe. Você pegou. Papel mole. Precisa de muito para comprar comida. Como é que um papel duro pode virar dinheiro, Avati? Só se os brancos fossem mágicos... – fez uma pausa, acocorou-se na calçada e convidou Avati a fazer o mesmo, pousou a mão direita sobre o queixo segurando o cotovelo com a mão esquerda e continuou falando, fazendo certo suspense – mas eles fizeram uma mágica, sabia? Eu vi. Nas minhas andanças pelo Centro vi homem branco enfiando esse papel duro numa máquina esquisita e sair dinheiro. A gente só tem que encontrar essa máquina.
Poucas horas depois a encontraram num shopping, próximo da entrada da cidade. Orientado pelo funcionário do banco, Baiá introduziu o cartão magnético. Na tela, a mensagem: compareça a uma agência para regularizar seu cadastro. Leu em voz alta a mensagem, olhou, com cara de dúvida para o funcionário, mas ele orientava outro cliente. Tocou em seu ombro, para chamar-lhe a atenção. O funcionário pediu para esperar. Esperou. Na fila, cada vez maior, alguém reclamou da demora. O funcionário terminou de orientar o cliente e voltou-se para Baiá que disse:
– Não entendi. Comparecer na agência para regularizar cadastro. Que é isso?
Com cara de enfado, o funcionário explicou:
− Passe por aquela porta giratória e fale com uma das gerentes. Lá elas regularizam seu cadastro e você pode pegar o dinheiro.
Avati foi o primeiro a ser barrado na porta. Colocou seu alforje na frente do corpo para poder entrar, mas a porta travou, soando o alarme. O segurança, lá de dentro, falou em voz alta:
− Tem que tirar tudo que é de metal e colocar ali, naquela bandeja.
Avati, cujo português ainda era precário, não entendeu. Olhou para Baiá que, distraído, não percebeu a dificuldade do amigo. O segurança aproximou-se da porta e apontou para Avati o local onde deveria deixar os objetos metálicos. Avati só entendeu o gesto do guarda indicando que deveria se afastar. Afastou-se, perdido. Outros clientes passaram pela porta, desviando-se de Avati que impedia a passagem. O funcionário do banco, vendo a aglomeração aproximou-se. Baiá, já inteirado do assunto, explicou o que estava acontecendo. O funcionário perguntou:
− Vocês estão carregando alguma coisa de metal?
Diante da concordância de Baiá, o funcionário disse:
− Então, coloca aqui nessa bandeja e passa pela porta.
Baiá e Avati retiraram de seus alforjes algumas facas e umas poucas moedas em dinheiro. Embasbacado, o funcionário disse:
− Vocês não podem entrar com arma dentro do banco. Tem que guardar naqueles armários ali, ó – apontou para o armário e, em voz baixa, continuou – aparece cada maluco!
No interior do banco, foram atendidos por uma jovem gerente. Baiá explicou que queria tirar o dinheiro do cartão. A jovem esclareceu:
− Não, moço. O dinheiro o senhor tem que sacar lá fora, no caixa eletrônico.
− Mas o moço falou que tinha que vir aqui...
− Ah, entendi. Mas, aqui eu regularizo seu cadastro e, depois, o senhor volta lá e saca o dinheiro. Por favor, passe-me seus documentos.
Baiá tirou sua carteira de identidade do bolso e entregou para a moça junto com o cartão. Olhou para Avati e disse em sua língua nativa:
− Esses brancos têm uma magia muito complicada para fazer sair o dinheiro do cartão. Não consigo entender.
A gerente conferiu os dados, regularizou o cadastro e devolveu os documentos para Baiá:
− Pronto, agora é só sacar e – entregou-lhe um papel – aqui está o valor que você tem disponível.
No hall de entrada, onde estavam os caixas eletrônicos, Baiá estranhou a ausência de movimento. Quando chegaram estava repleto de pessoas que faziam fila, ou para entrar na agência, ou para utilizarem-se dos caixas eletrônicos. Mas agora só tinha o funcionário encostado num balcão que, ao ver Baiá dirigir-se ao caixa, advertiu-o:
− O sistema não está funcionando.
Baiá não entendeu:
− Mas a moça falou que agora era só vir aqui e pegar o dinheiro!
− Mas o sistema caiu.
− Caiu? Onde? Não estou vendo ninguém caído.
− Vocês não são desse mundo não, é? Sistema não é gente. É o que faz a máquina funcionar, entende?
Diante do estranhamento de Baiá, o funcionário encurtou a conversa:
− Olha, faz o seguinte. Tá vendo aquela loja ali, ó – e apontou para a casa lotérica do outro lado da rua, em frente ao shopping – vão até lá. Talvez consigam.
Desconsolados, saíram do banco sem entender nada. Avati, preocupado, questionou:
− E agora, o que a gente vai fazer? Estamos sem dinheiro.
− Vamos fazer o que o moço mandou: entrar naquela maloca.
− E vai dar certo?
− Sei lá. Temos que tentar.