De ladrões e políticos
Diante de ladrões e políticos, os índios Baiá e Avati têm novas decepções na selva de pedra.
Na casa lotérica, Baiá e Avati foram prontamente atendidos. O caixa entregou o montante de dinheiro a Baiá que, ao conferi-lo, percebeu que estava recebendo menos do que constava no extrato que lhe foi entregue pela gerente do banco. Baia questionou a diferença entre os valores ao que o caixa respondeu:
− É que tem que descontar os impostos, moço.
− Impostos?! Que impostos?! A mulher do banco disse que o valor é este aqui ó – e mostrou o extrato para o caixa – e ela não falou nada de imposto não.
− Com certeza ela se esqueceu de te informar. Mas tem desconto sim.
Baiá, sentindo-se enganado, colocou o extrato sobre o balcão, deu um murro na madeira e falou em voz alta:
− O que você está me dando é muito pouco e eu quero meu dinheiro do jeito que está aqui neste papel.
Uma senhora idosa e bem vestida, que aguardava sua vez de ser atendida, acompanhou toda a discussão. Diante da indignação de Baiá, resolveu interferir. Ela examinou o extrato e o documento. Descobrindo que eram índios logo entendeu a tramóia e dirigiu-se ao caixa:
− Que você pensa estar fazendo? Enganando o moço? Isso é roubo.
− Mas, senhora, tem imposto a descontar sim. É a lei.
Ainda mais indignada do que Baiá, a senhora contestou:
− Lei?! Que cara de pau! Que lei é essa que permite descontar um imposto que nem no extrato consta? Você está pensando o quê? Só porque ele é índio você acha que pode roubá-lo? Entregue logo o dinheiro ou teremos que chamar a polícia.
Descoberto o engodo e amedrontado pela ameaça, o caixa resignou-se e, contra a vontade, entregou a parte do dinheiro que faltava a Baiá que agradeceu a senhora e saiu.
Na rua, mais calmo, Baiá perguntou a Avati:
− Você entendeu o que o branco queria fazer?
− É. Mais ou menos. O que é aquilo que ele falou de imposto?
− Não sei direito. A cabeça do branco é muito complicada. Se não fosse aquela mulher a gente ficaria quase sem dinheiro. Ai a mulher falou que era roubo e ameaçou chamar a polícia. Se não fosse isso...
− Na aldeia ele seria morto, ou expulso. Ninguém da nossa gente rouba.
− Mas, aqui, pelo visto, não acontece nada para o branco. É claro que ele estava roubando a gente. Aquele papel estava escrito um valor bem maior do que ele deu pra mim. A mulher tem razão, é roubo. Mas ficou por isso mesmo.
− Mas ele ficou com vergonha. Você viu a cara dele, toda sem jeito?
− E do que adianta ficar envergonhado? Com certeza ele deve fazer isso todo dia. E, sabe Avati, o que acho mais estranho? Quando eu fiquei na aldeia dos brancos, estudando, eu morava na maloca de uma mulher muito brava. Ela me dava um monte de trabalho, inclusive comprar coisas. Quando eu chegava, ela conferia o dinheiro e se faltasse qualquer coisinha, por mais insignificante que fosse, pegava uma madeira que tinha uns buracos na ponta e batia na minha mão. Doía muito. Ela batia e dizia: - práprende anão roubá.
− Você roubava?
− Claro que não Avati. Tá maluco? A primeira coisa que a gente aprende na aldeia é não roubar. Agora, aqui no mundo dos brancos, não sei não. Depois de hoje a gente tem que ficar esperto.
− Isso me dá vontade de voltar para a aldeia. O que a gente vai fazer quando o dinheiro acabar. Passar fome? E vamos dormir onde? Na floresta a gente pode dormir em qualquer lugar, aqui não. Lá, a gente não passa fome. Tem de tudo. Os homens caçam, pescam. As mulheres cozinham mandioca, beiju, tapioca, tudo que a gente precisa. Aqui não. Aqui precisa de dinheiro. Será que todos os brancos têm dinheiro? O que eles fazem quando ficam sem? Roubam?
− Talvez seja por isso que o branco tentou nos roubar. Mas não parece que ele precise de dinheiro não. Sei lá.
− Já pensou se nossa aldeia viesse morar na cidade, junto com os brancos? Acho que todos morreriam de fome.
− A gente vai morrer se os brancos continuarem a desmatar nossa floresta, isso sim.
Enquanto caminhavam carregando seus alforjes Baiá e Avati viram ao longe uma praça pública abarrotada de gente e dividida ao meio por um muro construído de madeira. Em ambos os lados, a multidão se aglomerava e o ruído chegava distante e incompreensível aos seus ouvidos. Curiosos, resolveram aproximar-se para ver o que estava acontecendo. Avati observou a divisão e comentou:
− Olha Baiá, os brancos estão reunidos. Eles têm tribos diferentes? O que será que estão decidindo? E como podem decidir alguma coisa fazendo tanto barulho?
Ao chegarem perto, viram o palanque onde se concentravam alguns políticos que, em plena campanha eleitoral, apresentavam suas propostas de governo. Dependendo do que diziam, a multidão levantava os braços, gritavam palavras de ordem e aplaudiam o candidato. Avati não entendia muito bem o que estava acontecendo e perguntou a Baiá que, apesar de ter melhor compreensão do português, não conseguia alcançar o significado das palavras proferidas pelos candidatos e seus assessores.
− Não estou entendendo direito não, Avati. Eles estão falando em combater a corrupção, acabar com propinas. Não sei o que é isso não. Vamos ver o que a outra tribo está falando, quem sabe a gente consegue entender melhor.
Retornaram pelo mesmo caminho até chegarem ao início do muro e foram abrindo caminho entre a multidão. Diferente da anterior, onde as pessoas vestiam roupas coloridas, verde e amarela, e portavam bandeiras, além de faixas com frases de apoio ao candidato, nesta predominava roupas avermelhadas, bandeiras vermelhas, além da bandeira nacional.
− Olha Baiá, eles usam roupas diferentes para dizer de que tribos são. Não sabia que branco também tem tribos diferentes. Achei que fosse tudo uma coisa só, uma tribo única, de brancos, mas não.
Aos poucos aproximaram-se do palanque. Ambos prestavam a maior atenção ao que se falava. Um senhor, segurando um microfone, discursava andando de um lado a outro. O volume da voz, ampliado pelas caixas de som, impressionava os dois índios. Parece a voz de Tupã, pensava Avati, que, com seu vocabulário limitado, conseguia entender algumas palavras ouvidas antes, do outro lado da praça, que se repetiam: corrupção, propina, privatização. Todavia, ao ouvir a frase “a profissão mais honesta é a do político, porque, por mais ladrão que seja, tem que ir para a rua, encarar o povo e pedir voto” pronunciada pelo homem que andava de um lado a outro, segurando o microfone, ficou desorientado. Entendia o sentido de honesto, entendia o sentido de ladrão, mas, caramba, o que isso tem a ver com encarar o povo e pedir voto? E o que é político? Só pode ser coisa de branco, como alguém pode ser honesto e ladrão ao mesmo tempo?
Anoitecia e Baiá chamou Avati. Além do barulho ensurdecedor das caixas de som que os incomodavam, e sem lugar para dormir, precisavam se retirar. Pressionado pelas pessoas que, enfeitiçadas pelo discurso do candidato, se comprimiam na frente do palanque abriram espaço com dificuldade. Quando chegaram ao limite da concentração, com as pessoas mais dispersas, ficaram à vontade e Avati, ansioso queria entender aquela frase ouvida a pouco, então, questionou Baiá:
− Você sabe o que é político?
− Sei não, Avati. Deve ser um tipo de cacique.
− Tem uma coisa que achei esquisita. Aquele branco que dançava lá na frente, com voz de trovão, falou que político é honesto, mas aí falou que também é ladrão. Como pode ser ladrão e honesto?
− Acho que a gente vai demorar em entender o branco, Avati. Eles falam, falam, falam e eu ouço cada palavra, mas, e daí? Não entendo nada. É como se tivessem duas línguas diferentes, uma fala coisa que entendo; aí tem outra que usa as mesmas palavras, mas não dá para entender.
Uma luz forte surgiu de repente ofuscando os dois. Avati se apavorou. Bateu no ombro de Baiá:
− Baiá, que é aquilo. Está vindo em nossa direção. O homem ta segurando um pau de fogo e o outro aquela coisa esquisita. É uma arma, Baiá. Que a gente vai fazer? Vem na nossa direção! Eles vão nos atacar e a gente não tem arma pra se defender.
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