Pequenas Mentiras

Confissões ébrias

Os índios Baiá e Avati e uma nova experiência na cidade grande, ao redor da mesa de bar.

Por: Cesar Carvalho | pequenasmentiras49@gmail.com
Confissões ébrias

Avati não gostou nada de andar com um desconhecido. Talvez um inimigo, por que não? Desde que chegara ao mundo dos brancos havia vivido poucas e boas, o suficiente para ficar desconfiado:
− Baiá, a gente nem chegou e já foi preso. Levei uma pedrada na cabeça e quase roubaram a gente. E você aceita andar com esse cara que nem conhecemos? E se for um inimigo?
Rindo, Baiá colocou sua mão direita no ombro de Avati e respondeu:
− Precisa aprender a acreditar Avati.
Avati deu alguns passos à frente, olhou direto nos olhos de Baiá, e, indignado apontou seus dedos para Jotabê, que não entendia nada do que falavam exceto – Claro! Só um idiota não o perceberia e ele, Jotabê, não era um idiota – que Avati estava falando dele, na língua deles. E falava em voz alta, áspera, quase gritada, exalando raiva:
− Só porque ele chegou dando risadinha você já ficou enfeitiçado. Aceitou ir pra esse lugar que eles chamam de bar, que a gente nem sabe o que é. E se for uma armadilha? E se botarem a gente de novo na gaiola? Ou nos matarem?
Baiá acelerou seus passos até chegar bem próximo de Avati, colocou sua mão direita sobre o ombro e falou em tom sereno, quase professoral:
− A gente não caça nem pesca sem entrar no rio. Só tem um jeito de entrar no mundo dos brancos... É entrar. Deuses mandaram um amigo para a gente e a gente tem que abraçar ele com gosto.
Avati, sem levar em conta o que ouvira, advertiu:
− Já é noite e nem temos lugar para dormir. Não dá pra dormir em lugar nenhum aqui nesse inferno. E hoje é dia de Luison.
Baiá riu. Esticou seu braço pelas costas do amigo, apertou-o carinhosamente e aproximou ainda mais sua boca no ouvido de Avati e disse – hoje é lua nova. Luison só aparece na cheia – voltou a rir e continuou –  vamos entrar na civilização por esse tal de bar – deu um sorriso amigável, tirou seu braço das costas do amigo e aproximou-se de Jotabê.
Os comícios dos diferentes partidos e candidatos às vagas municipais haviam terminado há pouco, e a multidão havia se dispersado rapidamente. Na praça restaram poucas pessoas que aproveitavam a noite para conversar com os amigos, namorar, ou simplesmente passear. As crianças brincavam enquanto alguns jovens, outros nem tanto, olhavam no céu a linha curva, branca e brilhante desenhando num quase sorriso, a lua. O vento fresco da primavera e o clima ameno impregnavam o cenário de tranqüilidade. Baiá e Jotabê pareciam estar integrados a ele, pois andavam lentamente, animados, conversadores. Avati caminhava pisando duro à frente dos dois.
Jotabê estava fascinado por Baiá e não deixava de fazer-lhe perguntas. Sabia que daquela fonte poderia extrair muita água. Puta merda, nunca tinha visto um cara ser tão poderoso com as palavras como esse. Ele enfeitiçou todo mundo. Enfeitiçou inclusive a Jotabê que se considerava esperto demais para se deixar influenciar por qualquer pessoa. E poderia lhe render ganhos políticos. A pergunta que se fazia – seria capaz de torná-lo seu aliado?  − só seria respondida se tentasse convencer o índio. Por outro lado, talvez não devesse se preocupar tanto, pois Baiá dava sinais evidentes de interesse respondendo às perguntas de forma animada, sempre sorridente.
Mesmo não entendendo tudo o que falavam, a Avati não passou despercebida a animação do amigo conversando com quem poderia ser inimigo. Só deixou de remoer seu ódio quando pararam à frente do bar cuja placa iluminava a calçada e ostentava o nome em letras pretas, cintilantes: Bar Marrocos, dia e noite. Jotabê se dirigiu aos dois, apontou para o luminoso e falou com certo orgulho:
− Este é o bar que falei para vocês. É uma maravilha. Aqui se mistura tudo – riu – tem de tudo: puta, professor, escritor, artista, bancário, só não tem banqueiro – riu – e a vantagem é que a gente ouve muita história. Desde história verdadeira até mentira da grossa. Vamos entrar?
Baiá e Avati não entenderam muito bem o que Jotabê estava dizendo, mas aprenderam o que era um bar: duas portas abertas dando acesso a um salão comprido e estreito, iluminado por luzes fluorescentes e paredes de azulejo branco. Avati, atento e curioso, observou quatro jovens ocupando uma mesa à esquerda da porta, na calçada, que gesticulavam uns para os outros sem pronunciar palavra, como se fosse uma conversa muda. Nunca tinha visto algo parecido. Talvez Baiá soubesse, mas estava tão entretido na conversa com Jotabê que desistiu de pedir qualquer esclarecimento, se bobear nem tinha prestado atenção naquele quarteto estranho. Para o branco não pediria explicação de maneira alguma. Não entregaria ouro para bandido. Ficaria calado o maior tempo possível. O inimigo não deveria saber que ele não falava bem o português.
Logo que entraram no bar, chegou Danilo que andava atrás de Avati, na mesma direção dos três. Ao chegar ao salão dos fundos e parar na frente de uma das mesas, Jotabê reconheceu-o e o apresentou aos índios. Sentaram-se, e enquanto esperavam o garçom, Danilo tomou a palavra para evitar aquele usual e detestável silêncio quando desconhecidos se encontram:
− E o que vocês vieram fazer aqui, vindo de tão longe?
Jotabê, mais do que precipitado, começou a responder à pergunta, sem dar qualquer chance a Baiá ou Avati. Mesmo que animada, a rapidez da fala e o constante engolir de sílabas denunciava sua ansiedade e seu contentamento em ter conhecido Baiá e o que ele poderia lhe trazer de benefícios políticos e, quem sabe, até uma graninha:
− Cara! Vieram fazer uma denúncia contra o desmatamento da floresta. São corajosos. O Baiá – aponta o dedo para um, depois para o outro, sentados à sua frente – e o amigo dele aqui, o Avati, vivem isolados da civilização, você acredita? O Baiá é a exceção, foi o único a estudar numa escola na Amazônia. É louco, né?! Eles não sabem nada da gente e estão com um baita problema, tão acabando com a terra deles. Estão sendo encurralados...
O garçom chegou e Jotabê parou de falar. Danilo pediu um café expresso. Jotabê, apontando o indicador para Danilo, dirigiu-se a Baiá e Avati:
− Não liga pra ele não. Só bebe café. Não sabe o que é bom. Vocês já tomaram cachaça... Pinga?
Baiá e Avati entreolharam-se. Não sabiam o que era cachaça, nem pinga. Jotabê continuou:
− Então vocês vão saber o que é bebendo. Você só sabe o gosto do pudim se botá ele na boca – dá uma risadinha, faz uma pausa e se dirigiu ao garçom – traz três doses de pinga e uma cerveja, bem geladinha.
Avati, sentado de costas para a entrada do bar, volta e meia olhava para trás na tentativa de ver o quarteto gesticulando um ao outro. O que seria aquilo? Branco é esquisito mesmo. Um fica olhando pro outro e mexendo as mãos. Às vezes riem, às vezes ficam sérios. Coisa estranha mesmo para um índio que nunca conhecera a civilização e muito menos tivera contato com surdos-mudos. Enquanto o garçom anotava o pedido, Danilo questionou Avati:
− Por que você olha tanto para aquele pessoal? Desde a hora que a gente entrou você olha pra eles com jeito estranho.
O tom de voz e o olhar ríspido eram suficientes para Avati perceber que estava sendo, de alguma maneira, desafiado. Recuou a cadeira e colocou as mãos à frente do peito, com os punhos semicerrados.
− Porra, Danilo, não precisa dar duro assim, companheiro. Eles tão chegando agora. De repente nunca viram nenhum surdo-mudo conversar – contemporizou Jotabê, estranhando o comportamento do amigo.
− Não quero nem saber. Não tolero preconceito – e, sem desviar os olhos de Avati, espalmou a mão sobre a mesa com certa violência. (Continua na próxima semana)

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