Um Passarinho me contou...

O sapato, o cinema e a mentira

Era proibido ir ao cinema descalço. Sem dinheiro para comprar um sapato, amigos criam uma solução.

João Passarinho e Tiago Rafael dos Santos Alves Colunista
João Passarinho e Tiago Rafael dos Santos Alves
O sapato, o cinema e a mentira

Nessa época, eu devia ter uns oito anos de idade. Tinha uma vontade de entrar no Cine Santo Antônio, pois no Cine Adamantina, eu já tinha ido, meu irmão trabalhava lá e nós íamos sempre.

Mas, eu tinha mesmo era uma vontade danada de entrar no tal do Cine Santo Antônio, porém era proibido entrar descalço. E naquela época, eu não tinha calçado e nem minha mãe tinha condições financeiras para comprar um.

Sabendo disso, minha mãe com dó, me deu o dinheiro para eu poder assistir um filme e entrar no “bendito” do cinema. No entanto, aí surgia o outro problema, o calçado. Mas, é claro que eu não ia pedir para minha mãe comprar um. Ela já havia dado o dinheiro para o cinema, já tava bom.

Falei com um amigo e lhe contei o ocorrido.

– Passarinho, eu vou pedir dinheiro para minha mãe. Nós vamos juntos. – dizia o “lerdo” todo entusiasmado.

– Mas, eu não tenho como ir descalço. – dizia eu preocupado.

– Eu tenho um par de sapatos em casa, usei quando fui em um casamento. Quando eu voltava pisei no barro e minha mãe lavou. Ele tá lá na cerca. – explicava meu amigo. De fato, o sapato estava na cerca. Mas, já fazia quase uns 6 meses. O “lerdo” tinha deixado lá esse tempo todo. E como o sapato era de couro, havia enrijecido e ele estava mais duro do que o balaústre da cerca que estava pendurado.

– Vamos fazer o seguinte... Você calça um no seu pé e eu calço o outro no meu e nós amarramos um pano no outro pé como estivéssemos machucados. – continuava meu amigo.

– Combinado!

No domingo, próximo ao horário da matinê, chegamos eu e o “lerdo” do meu amigo na esquina próxima ao cinema. Sentamos na calçada e calçamos o tal do sapato. Aquilo lá, machucava demais, o pé em meio aquele couro ressecado e apertado, era horrível.

Amarramos o pano no outro pé e lá fomos nós, mancando até a bilheteria. Compramos o ingresso e ficamos esperando o horário de entrada. Quando deu o horário, o porteiro nos olhou “dos pés a cabeça”, viu os pedaços de pano amarrados, mas não disse nada. Enfim, entramos e assistimos o filme.

Assim, nesse dia eu me lembro que manquei por duas vezes, uma de mentira, para poder entrar no cinema e a outra, de verdade, por conta do sapato do “lerdo” do meu amigo. Fiquei umas boas semanas com o pé todo danado por conta do couro, mas assisti o filme. 

João Passarinho

Funcionário Público Municipal

Escritor, Cordelista e Contador de histórias

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL