Um Passarinho me contou...

O dia que o trem parou

Leia texto de João Passarinho para o livro Antologia – 1ª Antologia de contos, poemas e crônicas regionais.

João Passarinho e Tiago Rafael dos Santos Alves Colunista
João Passarinho e Tiago Rafael dos Santos Alves
João Passarinho tem texto inserido na 1ª Antologia de contos, poemas e crônicas regionais, organizado por Izabel Castanha Gil e José Braz Oliveira (Divulgação) João Passarinho tem texto inserido na 1ª Antologia de contos, poemas e crônicas regionais, organizado por Izabel Castanha Gil e José Braz Oliveira (Divulgação)

Eu nasci e fui criado

À margem da ferrovia

Da companhia Paulista,

Na colônia que havia.

Trem chegando, trem partindo

E a gente só assistindo.

Adamantina crescia.

 

O meu pai, ferroviário

Trabalhava no armazém

Conferindo os produtos

Transportados pelo trem.

E nos pedia cuidado

Pra não fazer o errado,

Mas criança vai além

 

O meu maior desejo

Era ver o trem parar

Defronte da minha casa.

Ficava a imaginar

Grande movimentação,

Como se fosse a estação.

Minha vida era sonhar

 

Como nada acontecia

Eu tomei a decisão

De forçar o trem parar,

Pois seria a solução.

Já cansado de esperar

Pro meu sonho realizar

Entrei logo em ação.

 

Eu já tinha um dez anos,

Fabriquei um lampião.

Usei lata, arame, vela

E papel vermelho, então.

Comecei me preparar

Pra fazer o trem parar

Muito antes da estação.

 

E naquela mesma noite,

Lampião já fabricado,

Fiquei defronte de casa

Aguardando preocupado,

Pois estava decidido

Fazer tudo escondido

Pra não ser testemunhado.

 

Do trem o som do apito

Mostrou que era o momento.

Acendi meu lampião

Pra praticar meu intento.

Fui então perto da linha

E vi o trem que lá vinha.

Começava o meu tormento.

 

Levantei a luz vermelha,

Comecei a sinalizar.

De repente a brecada.

Ouvi o trem se arrastar.

Senti um grande pavor,

Foi um momento de horror,

Dali busquei escapar

 

Saindo em disparada

Logo entrei num matagal

Apagando o lampião

Numa escuridão total.

O lampião foi jogado

O trem estava parado

E eu senti que fiz um mal.

 

Correndo longa distância

Uma grande volta eu dei.

Pelos fundos lá de casa,

Abri o portão e entrei.

Sem querer ser descoberto,

Não vendo ninguém por perto,

Fui pro meu quarto e deitei.

 

Bastante arrependido,

Permaneci lá quietinho.

Nem conseguia dormir

Pensando ali sozinho:

Se dessa eu escapar

Juro que vou me emendar.

E rezava bem baixinho.

 

Meses, anos se passaram

E eu morrendo de medo.

A minha vida tranquila

Transformou-se num degredo.

Um menino amedrontado,

Dia e noite assustado,

Que guardava um segredo.

 

E durante muito tempo

O medo me atormentou

Mas o fato ocorrido

Jamais alguém comentou.

Aquilo foi encerrado,

Mas pra mim ficou marcado [1]

 

O texto integra o livro: Antologia – 1ª Antologia de contos, poemas e crônicas regionais, lançado no último dia 26/11/2019 em Adamantina.

 

João Passarinho

Funcionário Público Municipal

Escritor, Cordelista e Contador de histórias

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e da AMLJF

 ____________

[1] PASSARINHO, João. O dia que o trem parou. In: GIL, Izabel Castanha, OLIVEIRA, José Braz de. (Org.) Antologia – 1ª Antologia de contos, poemas e crônicas regionais – 1ª Ed. Adamantina/Osvaldo Cruz, SP: Impress, 2019. p. 32-33.

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