Sociedade

Sobre escolhas e caminhos que a vida nos ensina

Como você está se sentindo hoje? Preparado para mudar e crescer?

Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com Colunista
Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com
(Imagem: Greg-Rakozy em Unsplash). (Imagem: Greg-Rakozy em Unsplash).

Dia desses estava numa ligação com uma grande amiga que agora vive na cidade do Porto, em Portugal, sobre os caminhos que a vida nos deu. Nossa história começou na pós-graduação, quando uma mulher de roupas estampadas e a bolsa altamente new hippie definitivamente chamou a atenção da mulher cinzenta em que eu me encontrava na época. Passado o estranhamento daquela bomba colorida e do meu mau humor, descobri nas diferenças uma das amizades mais bonitas e importantes da minha vida, daquelas que depois de anos você percebe que já estava lá muito antes de vocês se conhecerem.

Essa amiga e eu particularmente temos trajetórias opostas, pois nascemos e crescemos em Estados e culturas diferentes, mas foi na grande selva de pedra paulistana que começamos a amadurecer juntas. Temos os mesmos pais, daqueles que têm trajetórias de trabalho interessantíssimas e também são os “pais ainda casados” diante da onda de divórcio que assola as famílias de nossos amigos, então curiosamente ambas percebemos que essa criação de pais altamente presentes e com casamentos bem sucedidos talvez tenha nos confundido sobre a vida aqui fora.

O tempo tem passado muito depressa e isso é uma percepção que não temos na escola, pois quando adolescentes sempre imaginamos um futuro hipotético de liberdade e escolhas bem sucedidas, mas a coisa não é bem assim. Já falei algumas vezes que nós, os millennials ou geração Y, fomos iludidos nos anos 90-2000 com a propaganda de que teríamos bons empregos e relacionamentos descolados, mas no fundo estamos todos perdidos, ainda mais na situação da pandemia do novo coronavírus.

Quem tem a minha idade sabe que trabalho virou uma faca de dois gumes, ou você está muito realizado ou está muito instável, não é por uma questão de oferta, mas pelo mundo ter aberto mil novas possibilidades do que podemos fazer e no qual resultou na grande questão que nos cerca que é “eu não sei o que eu quero da vida”. Sim, muita gente está lidando com essa sensação nos campos emprego e relacionamento e temo que isso desencadeie um crescimento exponencial de uma vida frustrante no futuro.

Soa negativo e é para nos preocuparmos, principalmente quando observamos as taxas crescentes de depressão e ansiedade em pessoas jovens, porque o que era para ser um movimento de descoberta e aprendizado está se tornando um fardo para muitos. A amiga de Portugal disse uma frase que me fez pensar muito que foi mais ou menos assim: “Sabe, eu já percebi que vai demorar um tempo para eu entender quem eu sou nessa nova trajetória”, no caso ela se referia a carreira, pois assim como muita gente ela está em mudança e tentando entender o quem sou eu nesse mundo do trabalho. Não é fácil, fomos programados desde crianças a saber quem somos e o que fazemos, mas essas respostas podem levar anos para serem respondidas ou até mesmo se transformarem conforme crescemos.

“Eu não sei o que eu quero” é a frase que mais escuto de amigos e conhecidos nesses últimos anos, uma batalha repleta de dor e frustração, mas no qual exige muita força interna para tomarmos decisões e mudar esse quadro. No âmbito das relações românticas, notamos a inconstância e o medo de compartilhar a vida com o outro por conta de um ideal que projetamos, por isso muita gente está perdendo a oportunidade de conhecer pessoas incríveis por estar preso nessa frase matadora. Mas como podemos resolver tudo isso? Não há uma resposta correta, isso exige muito autoconhecimento e capacidade de se ouvir, lembrando que escutar o seu coração é diferente de escutar e pensar só no seu lado da coisa, afinal vivemos em sociedade e todas as decisões que tomamos afetam uma cadeia de pessoas.

O movimento mais difícil é esse que minha amiga em questão já fez, o de diagnosticar o que incomoda e começar a mexer os pauzinhos para entender o que está sentindo. Nunca será simples, pois pode ser que você precise dos planos B, C e D para começar a tomar atitudes ou ter a coragem de assumir aquilo que quer e o que não quer, mas o importante é não ficar na inércia de uma possibilidade ou ficar preso no eterno “E se”. Você já olhou para sua vida hoje? Se está doendo é porquê está correto. Esse mal estar vai passar, entretanto ele precisa que você olhe com paciência e sinceridade para o que tem feito recentemente, não adianta correr atrás de um coach ou achar que a coisa vai cair do céu, pois a vida é sim dura e é luta. Pode começar pequeno, quem sabe uma ligação de um amigo era a faísca que você precisava para acordar e finalmente mudar a frase para “eu não sei o que eu quero, mas vou fazer de tudo para descobrir”.

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