Sociedade

Procura-se: altruísmo

Se a humanidade não se salvar, onde iremos parar? Está mais do que na hora de cuidarmos uns dos outros.

Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com Colunista
Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com
(Imagem: Matthew Henry/Unsplash). (Imagem: Matthew Henry/Unsplash).

Caminhamos muito provavelmente para o fim de um dos anos mais difíceis do nosso século. Gostaríamos de não ter que ver mais notícias sobre o coronavírus, mas infelizmente essa pauta está longe de acabar. Com mais de 7 milhões de brasileiros infectados, não há uma pessoa em nosso país que não conheça alguém que foi pego pelo vírus. Oramos por aqueles que amamos, torcemos para menos pessoas serem entubadas e vibramos cada alta do hospital. Nesse período entre festas, celebrar o Natal de 2020 foi um desafio para muita gente, pois de um lado tivemos os resistentes que teimaram em fazer reunião com mais de 30 familiares e aqueles que ficaram de coração partido por não poderem estar com pais e avós.

Muito se leu sobre como 2020 mudou a humanidade, como daqui para frente teremos outro comportamento, como seremos mais solidários e como alcançaremos a resiliência depois de tamanho aprendizado, mas isso não é bem verdade. Se tem uma coisa que o coronavírus escancarou foi o egoísmo humano em proporções inimagináveis da contemporaneidade. Precisaríamos de uma pandemia de meditação para talvez alcançar 10% de sabedoria e tocar o coração das pessoas, para quem sabe assim sairíamos dessa espiral de ego em que estamos.

Para quem vive numa cidade caótica e gigante como eu, todo dia é uma maratona de tristeza, infelizmente nossos olhos se acostumam aos ver os moradores de rua puídos dormindo embaixo de ponte, a não dar bom dia pro cobrador de ônibus, ao ficar irritado com o calor no trânsito logo pela manhã, a perder a paciência com um funcionário e já abstrai que o preço de um cafezinho está 10 reais. Tudo isso porque o egoísmo está tão alto, e você que precisa minimizar os danos da cabeça, acaba botando tudo no piloto automático.

Sempre me incomodou essa coisa de todo mundo sabe da vida de todo mundo no interior, as vantagens de estar numa capital é que você quiçá sabe os nomes dos seus vizinhos de prédio, mas tanto lá quanto aqui, o egoísmo é o mesmo. Nesse Natal estranhíssimo para mim, que passei apenas com pais e irmão, senti uma falta tremenda dos meus primos, mas optamos pra deixar a saudade esperar mais uns meses, enquanto todo mundo ainda sobrevive.

Sobrevive mesmo, pois logo logo serão 200 mil brasileiros que não celebrarão nunca mais o Natal. São irmãos, pais, amigos, tios e avós que morreram por conta de um vírus e muitos deles por egoísmo de tantos outros. Como o SigaMais apurou recentemente,  as festinhas clandestinas e aglomerações nesse recesso de fim de ano custam para nossa Adamantina, pois a conta vem, seja ocupando leitos na Santa Casa, gastando recursos e contaminando mais gente porque uma meia dúzia de egoístas se acham gente diferente e diferenciada para ocupar os espaços com festinhas.

Não precisa de psicólogo e nem sociólogo pra diagnosticar o mal do século, o egoísmo nos move desde que criamos a propriedade privada. O que preocupa é esse egoísmo avançado, daquele que falta respeito pela vida do outro, pelo coração que bombeia um ser humano igual a você. Se 2020 for o capítulo 1 da pandemia, onde iremos parar? O que as quase 200 mil mortes significam para cada um de nós? Sinto muito para você que perdeu um ente querido, este ano tem sido difícil de respirar, todo meu respeito e sentimento para quem chegou até aqui.

O ano de 2020 talvez deixe mais cicatrizes que aprendizados, pois para os egoístas é muito difícil sair da zona de conforto do Eu. Para 2021 fica o meu pedido, procure o altruísmo que vive em você, ele está só ai esperando uma oportunidade de aparecer.

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