Sociedade

Afinal seria o Brasil um país preconceituoso?

Até quando teremos de perder vidas para nos olharmos como iguais?

Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com Colunista
Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense | nazaridebora@gmail.com
(Reprodução: @VolpeImagens) (Reprodução: @VolpeImagens)

Quem começou a ler esse texto e pensou “não”, pode parar por aqui. Existe preconceito no Brasil? Não só existe, como ele se multiplica que nem praga em preconceito racial, estético, sexual, religioso e entre tantos outros. Num país feito de mestiços, deveríamos estar com a palavra desonra estampada em nossas testas cada vez que morre alguém proveniente de crime de ódio racial.

Em que momento da vida passou a ser “normal” espancar uma pessoa até a morte dentro de um supermercado? Quantas vidas perdemos e perderemos ainda em 2020 decorrente desse crime hediondo? Num país em que 56,10% da população se declara negra, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, o que choca além do brutal crime é a incapacidade de pensar num outro como igual. Ninguém fez nada, aliás, os celulares estavam a postos para gravar e viralizar o conteúdo brutal, mas ninguém teve a decência de dar um safanão nos agressores? Cadê os heróis? Cadê o cidadão? Cadê a polícia? Cadê a humanidade?

Temos uma questão cara aos brasileiros, a da sua identidade étnica, fonte de discursos mais inflamados do que informativos, que projetam muitas vezes o que há de pior na cabeça de um ser humano. Somos parte de um preconceito racial estruturado e alimentado pelo ódio ao diferente, ao que não reconhecemos como igual. Já é errado pensar num conceito de raça, visto que biologicamente temos apenas uma, a raça humana, mas o repúdio aos grupos étnicos e nossas misturas tem nos afundado para um lugar que temo não haver mais volta.

Eu poderia citar Hannah Arendt e a banalidade do mal, ou explanar sobre Guy Debord e a sociedade do espetáculo em busca de uma explicação sociológica para o que estamos presenciando diariamente em supermercados, farmácias, van escolares, bloquinhos de carnaval e dentro da própria casa, mas nem tamanha intelectualidade dá conta de entender o lado podre de cada ser que parece se espalhar pelo corpo e mente das pessoas como um vírus imbatível.

Que sociedade estamos desenhando para nosso Brasil? Em quem se transformará esse país calejado e cansado de tanto ódio. Estamos num período muito simbólico de eleições, de quando encerramos governos e temos renovação democrática, mas infelizmente ainda temos o estereótipo da política branca como padrão. Segundo reportagem do G1, o perfil médio do prefeito eleito no 1º turno no Brasil é homem, branco, casado, com ensino superior e 49 anos. Esse país é de quem e para quem? Se eu já tenho muita dificuldade de identificação com nossos representantes, imagina se você é homem ou mulher, preto, índio, pardo, gay, trans, bi. Parece que não vai chegar nunca a vez de olharmos pra um representante da sociedade e nos sentirmos iguais ou pelo menos parecidos. Tenho uma notícia para te dar, não existem pessoas brancas no Brasil. Somos latinos, somos todos mestiços. Não se sinta especial por achar que você é branco, no caso, é só privilegiado (e mimado) mesmo.

Imagina você acordar e descobrir que o seu vizinho foi espancado até a morte por contada cor da pele dele? Ou de ficarem te olhando quando entra numa loja? Ou de fazerem você descer do carro, pois parece suspeito? Ou de pedirem para ver sua bolsa na saída de um estabelecimento? Ou de fingirem que não te veem no bar quando você quer fazer um pedido? Ou te negarem um emprego? Precisamos parar de normalizar a segregação socioespacial. Temos sim de fazer um escândalo por cada vida perdida! Depredar um espaço e organizar um tuitaço não vai resolver o problema, precisamos de consciência, respeito, educação e mobilização social sendo praticadas todos os dias. Violência gera mais violência, temos de dar um basta para que outras vidas não sejam perdidas e nem julgadas pela cor da pele. Não se omita, pois vidas pretas, pardas, amarelas e indígenas importam sim.