Reflexões Matutas

Partejar, das tradicionais parteiras à ressignificação do parto contemporâneo

Nascer e morrer, polos da existência humana.

Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com Colunista
Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com
Báb Ignatikha sendo recebida por uma família em Lucélia/SP nos anos 1960 (Fonte: Acervo da família Vazniac). Báb Ignatikha sendo recebida por uma família em Lucélia/SP nos anos 1960 (Fonte: Acervo da família Vazniac).

Par.to [do lat. partus, us, de parere] s.m 1 O ato de dar à luz, de dar nascimento a um ser vivo 2 fig. Criação do espírito, obra literária, descobrimento científico (BUENO, 2010). Fazendo jus ao nome dessa coluna, “Reflexões Matutas”, esse texto se debruçará sobre as dores e prazeres inerentes ao parto. Tendo plena ciência de que o parto, em si, não se situa nas vivências do mundo masculino, busco por vozes, que sutilmente gritam por serem ouvidas.

Inerente à continuidade da vida, em quase todas as culturas, por mais distantes que estivessem, o parto era e é sinônimo de sororidade*. Nos rincões paulistas, entre os rios Peixe e Aguapeí, ao menos desde 1920, nas isoladas colônias que posteriormente dariam origem a dezenas de cidades, as parteiras atuavam. A cavalo, de carroça, ou mesmo a pé, viajavam por entre as propriedades rurais num cenário marcado ora pelos cafezais em formação, ora pela imponência da mata virgem.

No atual território luceliense, na antiga colônia Balisa, onde viviam búlgaros, russos e ucranianos, o número de “bábas”, palavra que em russo e búlgaro significa avó, ou mesmo parteira, era expressivo. As bábas Ignatikha e Eufimia Lukianchuk eram famosas por seu ofício dentre os eslavos. Já no bairro rural fundado por alemães, também em Lucélia, a chamada Colônia Paulista, Frau Phil era quem acompanhava as parturientes e acolhia as suas crianças.

Adaptando-se à realidade tropical, essas mulheres aprendiam a usar ervas nativas dessa terra para auxiliar outras tantas a parir. Havia na colônia Balisa, até mesmo o “Dia da bába”, data em que as mulheres se reuniam na casa de suas doulas, presenteavam-na e passavam a noite cantando e dançando, numa comemoração exclusivamente feminina.

Bába Eufimia Lukianchuk na colônia Balisa Fonte: Acervo da família Lukianchuk.

Sobre a parteira baiana, que era referência em Gracianópolis, atualmente Tupi Paulista, escreveu a geógrafa e cronista Izabel Castanha Gil, em 2019, em um dos capítulos da 1ª antologia de contos, poemas e crônicas regionais:

Júlia de Souza, a querida e respeitada dona Sinhá, nasceu na Bahia, em 1941 e veio com o marido, Antônio de Souza, para trabalhar nas lavouras de café. O conhecimento prático e a autoconfiança adquiridos com suas ancestrais permitiam-lhe que acolhesse as primeiras crianças que nasceram em Gracianópolis e nos primeiros anos do novo município, que se emancipou com o nome de Tupi Paulista. Durante muitos anos, antes que chegassem os primeiros médicos e que a Santa Casa da Misericórdia fosse construída, dona Sinhá foi a principal referência das gestantes do lugar. A mulata baiana veio completa: intenção de ficar, conhecimento prático para realizar partos, empatia e muita religiosidade.

Baianas, mineiras, pernambucanas, japonesas, letãs, alemãs, búlgaras, russas, portuguesas e espanholas. Mulheres muitas vezes despidas da alfabetização, mas munidas por saberes seculares e hereditários para que acompanhassem o belo processo de replicação da vida humana sobre a Terra.

Bába Ignatikha sendo recebida por uma família em Lucélia/SP nos anos 1960 (Fonte: Acervo da família Vazniac).

Por quase toda a história da humanidade o parto ocorreu nas mais diferentes posições, sendo que o corpo de cada mulher era e é capaz de identificar a posição mais confortável para dar à luz. Nas culturas indígenas é muito comum que até hoje o parto ocorra com as mulheres de cócoras, tal como ocorria em todo o globo.

Todavia, no século XVII, algo muda as estruturas e noções acerca do nascer. O rei francês Luis XIV, marcado por seu ego inflado, possuía um “hobby” fora do comum: gostava de ver suas esposas parindo e, por isso, as companheiras do monarca eram mantidas sobre um leito com as pernas abertas, a fim de espantar o tédio do soberano. Símbolo de desenvolvimento, não demorou para que as bizarrices do Palácio de Versalhes se difundissem por todo o mundo ocidental.

Após a segunda metade do século XX, ganham escala os partos hospitalizados. Se até então os mistérios que envolviam o parto eram mérito da mãe, que acompanhada por outras mulheres da família ou de seu círculo de confiança originava a vida, doravante há um micro cosmos na sala de parto, que embora tenha seus louros pela diminuição no número de mortes por problemas durante o parto, desconsidera uma série de fatores intrínsecos à humanidade e ao protagonismo de parir. A tríade do sistema convencional se faz presente na grande maioria dos partos hospitalizados. O capitalismo desenfreado, o patriarcado e o colonialismo estão simbolicamente mui bem representados.

No processo do parto o lobo frontal diminui a atividade e o sistema límbico se torna mais ativo. Embora a sociedade tenha se afastado das práticas naturais do parto, o corpo conhece o que é preciso ser feito, mas nosso excesso de racionalidade tenta inibir esse caráter instintivo. A mulher que consegue driblar essa razão e encontrar um ambiente confortável, se entrega aos desejos que o corpo gera no intuito de parir. O ambiente hospitalar possui uma série de atravessamentos que removem essa liberdade. Há mães que desejam caminhar, ficar de quatro, ficar nuas, e expressar a dor ou o êxtase que estão sentindo da maneira que vier, mas se sentem inibidas e não confortáveis diante de outras pessoas que vão julgar e não entender esses comportamentos (Raqueli Braga Flumian, 2021).

Raqueli é psicóloga perinatal e acompanhante de partos. Ela ainda vincula esse modelo pragmático, frígido e mercantilizado de parto às lógicas hegemônicas de nossa sociedade, que é, em seu cerne, incapaz de aceitar a liberdade sexual, logo, é incapaz de aceitar a multiplicidade de formas de parir. Durante o parto todos os hormônios presentes na relação sexual são elevados à décima potência, é um momento instintivo e não lógico.

Numa sociedade em que as expressões sexuais das mulheres são reprimidas, o mesmo acontece durante o parto, (Não é à toa que as cesarianas fazem tanto sucesso) pois nesse modelo a mulher deixa de ser protagonista (esse papel é assumido pelo médico) e passa a ser passiva, um corpo inerte sobre uma maca, sem controle algum sobre o que é feito consigo mesma. A sociedade  tem dificuldade em lidar com os movimentos naturais de uma mulher que está parindo, seus gemidos e suspiros, pois tanta liberdade, força einstinto assustam uma sociedade em que se busca o modelo feminino da bela, recatada e do lar. E os benefícios de uma mulher que se sente fortalecida, respeitada, e capaz de parir não fortalece apenas a ela mesma e ao seu bebê, fortalece a sociedade como um todo (Idem).

Flumian aponta também que a violência obstétrica perpassa as questões de gênero, explícita no pensamento racista e colonialista, por meio de pesquisas quantitativas.

Há pesquisas extremamente contundentes apontando que as mulheres negras sofrem ainda mais violência obstétrica do que mulheres brancas. A violência obstétrica é um dos fatores que levam à depressão pós-parto. (Idem).

Os debates sobre os temas relacionados  a tantas formas de dar à luz, vem ganhando espaço nos grupos e coletivos de mulheres nos últimos anos. A violência obstétrica, que ainda é um tabu, começa a deixar de sê-lo. E mesmo na mídia, documentários como “O renascimento do parto”, que trata sobre a temática, possui grande notoriedade.

Repensar as formas de nascer, compreender as forças estruturantes à cultura mercadológica e massificada com que recebemos um ser humano no mundo, assim como desenvolver o senso crítico acerca dos lugares de poder, os arranjos e configurações de um parto suplanta o parto em si, diz respeito a compreender a lógica da descartabilidade que rege toda a sociedade pós moderna, gerando vícios e desumanizando toda a humanidade por meio da mercantilização da maternidade em todas suas instâncias e fases.

Grato a todas as mulheres, que, por meio de seus olhares, palavras, opiniões e vidas, tornaram esse texto possível: Alina Kaledina Ortega, Irene Vasnhak, Izabel Castanha Gil, Izabel Cristina Sanches Castagna Zulato, Luzimara Dilibaltov, Raqueli  Braga Flumian e Sidinéia dos Santos Silva.

Convite: live com o tema “Desmistificando o parto, um assunto para mulheres e homens” por meio dos instagrans @psicologia_raqueliflumian e @victor_hugo_klark, 12 de abril, às 20h.

Contato da psicóloga Raqueli  Braga Flumian: (18) 98148-3306.

*Sentimento de irmandade entre mulheres, colaboração feminina.

Referências:

BUENO, Silveira. Mini dicionário da língua portuguesa. São Paulo: DCL, 2010.

GIL, Izabel C. & OLIVEIRA, José Braz (Org). 1ª Antologia de contos, crônicas e poemas regionais.1ªed. Adamantina/Osvaldo Cruz/SP: Impress, 2019.