Reflexões Matutas

Dia do índio; dia de luta!

Data é de reflexão e problematização de uma causa secular.

Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com Colunista
Victor Hugo S. Souza | Historiador, professor, entusiasta das causas regionais e pauliceiense | profvictor97@gmail.com
Expedição geográfica descendo o rio do Peixe em 1906, e Índio Kaingang encontrado na incursão   (Arquivo Pessoal: José Carlos Daltozo). Expedição geográfica descendo o rio do Peixe em 1906, e Índio Kaingang encontrado na incursão (Arquivo Pessoal: José Carlos Daltozo).

“Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.” dizia a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal no ano de 1500, ao tratar dos povos nativos desta terra. Os indígenas, provavelmente, não gostaram do sabor daquilo que lhes foi oferecido, e cuspiram fora os alimentos concedidos pelos europeus.

O dissabor dos aborígenes sul-americanos no século XV não é apenas de um incômodo sensorial. É uma síntese do porvir, uma história secular que parece estar longe de resolver-se em território brasileiro. Enquanto o homem branco tenta “enfiar goela abaixo” as regras do jogo, os nativos seguem, expelindo o colonialismo contemporâneo.

No estado de São Paulo, durante as décadas medianas do século XX, a ocupação da área localizada entre os rios Aguapeí e Peixe não foi muito diferente, ao tratar da população indígena que vivia às margens do, até então, desconhecido rio Aguapeí.

“Eu achava-me armado de revólver e com este dei dois tiros que continha; tendo eu dado o último tiro, os índios gritavam ‘upa upa’, mas sem saírem do matto; sentido-me então ferido por uma flecha na virilha direita, tratei então de me retirar...”,  Relato de Olavo Hummel, acerca do ocorrido em 18 de julho de 1905, quando o engenheiro presidia a exploração do rio, para o governo do estado, posteriormente, ocupar a área.

Os indígenas chamados “corôados”, em razão de seu corte de cabelo, resistiram, desde o início, ao projeto de integração da “Zona da Mata”, conforme citam alguns mapas do final do século XIX. Pouco tempo depois, a Mata Atlântica  seria destruída, para o plantio de café e para a construção da linha férrea, resultando também na extinção dos indígenas que viviam na área.

Desde a chegada dos europeus até os dias atuais, as terras indígenas são mais legítimas em nome do capital, do patrimônio e do colonialismo, sobretudo religioso. Logo, a matança que jamais teve um fim, os ataques e os estereótipos em torno dos povos naturais dessa terra encontram respaldo numa mentalidade provinciana, que parece ainda dialogar muito bem com os bestiais lusíadas aqui chegados há cinco séculos.

Num artigo publicado em 2011, denominado “O colono e o índio na ocupação da Nova Alta Paulista”, Jovial apresenta informações sobre esse processo:

A incursão no território Kaingang começou por volta de 1895, de maneira ainda tímida, mas sempre caracterizada pela ação truculenta dos *bugreiros, que agiam inicialmente a mando de *grileiros que se aventuravam no espigão entre os rios do Peixe e Aguapeí, onde lotearam e vendiam ilegalmente terras *devolutas. As atrocidades cometidas contra os Kaingang e as transações ilegais terras deram, portanto, o tom do início da ocupação deste vasto território.

O povo Kaingang foi alvo da marcha capitalista que abriu e expandiu uma nova fronteira agrícola, impulsionada pela expansão do café e acelerada pela construção da ferrovia da Cia Paulista de Estrada de Ferro, rumo ao Estado de Mato Grosso. Diante de tal situação, os Kaingang eram considerados um entrave para as estratégias expansionistas da ferrovia e também para as rentáveis (e ilícitas) transações de terras.

Expedição geográfica descendo o rio do Peixe em 1906 (Arquivo Pessoal: José Carlos Daltozo).

Em outubro de 2020, a música “Saudade de Adamantina” do musicista Samuel Rabay também aborda esse período. Ganhou notoriedade em Adamantina e região em razão das críticas tecidas sobre a cidade (leia mais). A letra de Rabay explicita a formação predatória do lugar. “Adamantina surge do massacre dos Kaingang da nossa região, pela FEPASA eletrificada matando indígena com tiro de oitão”.

Índio Kaingang encontrado durante expedição do rio do Peixe  (Arquivo Pessoal: José Carlos Daltozo).

Embora o presente texto reflita acerca do passado, as questões inerentes aos indígenas são parte do presente. São problemáticas inerentes à realidade regional, estadual e nacional. Diante disso, cabe a essa coluna trazer ao conhecimento da comunidade as vozes indígenas que resistem por essas bandas. Finalizo o texto com as palavras da indígena guajajara, moradora do assentamento da reforma agrária Nova Canaã, em Dracena:

“Meus familiares já sofreram diversas situações de preconceito, ouvimos coisas como: indígenas não trabalham, o governo é quem sustenta os índios, que somos bêbados...Esses são comentários mentirosos de quem não conhece a realidade indígena. É por isso que os movimentos indígenas são maravilhosos. Nós podemos lutar por nossos direitos, lutar por condições de vida que estão de acordo com os valores de cada etnia” Damiris Pompeu, (26), etnia Guajajara, natural de Barra do Corda/MA e moradora do assentamento Nova Canaã em Dracena, entrevista cedida em 20 de abril de 2021.

Bugreiro: Pessoa responsável pela “caça aos indígenas”

Devolutas: Terras que pertencem ao estado

Grileiro: Ladrão de terras.

Publicidade

Tio Panda Adamantina

Publicidade

Insta do Siga Mais