Opinião

Tabu do suicídio: como podemos prevenir e cuidar de muitas vidas

No Brasil são registrados todos os anos mais de 10 mil suicídios por ano, mas o tema pouco é debatido.

Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense. Colunista
Débora Nazari | Cientista social, jornalista, escritora e adamantinense.
(Imagem: Claudia Soraya/Unsplash). (Imagem: Claudia Soraya/Unsplash).

A morte sempre foi uma entidade muito difícil para os seres humanos lidarem desde que povoamos nosso planeta. Os rituais de sepultamento, o choro, a lamentação, a perda e a saudade fazem parte do corpo e da mente humana, mas desde pequenos precisamos nos acostumar com a ideia de que um dia não estaremos mais aqui. Se pouco é falado sobre o morrer, menos ainda é falado sobre o outro lado que leva a morte de pessoas de maneira chocante que é o suicídio.

O suicídio é, segundo o sociólogo Émile Durkheim, “todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado”. De acordo com a teoria durkheimiana há três tipos de suicídio: o egoísta, o altruísta e o anômico. Os dois primeiros discorrem sobre o ato em que o indivíduo (ego individual) se sobrepõe ao ego social, ou seja, quando as relações e os laços entre indivíduos e sociedade se afrouxam, e a pessoa não vê mais sentido e razão para viver. O terceiro ocorre em situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras sociais, gerando desorganização e caos para a normalidade que já não existe. É essa sensação de não querer mais viver e estar em conjunto que faz com que muitas pessoas se suicidem todos os dias. É esse tabu que a campanha Setembro Amarelo procura quebrar para prevenir mortes e poupar vidas.

Segundo a campanha Setembro Amarelo são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo, sendo que cerca de 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar e abuso de substâncias ilícitas. O Brasil é o oitavo país em número de suicídios, sendo que em 2012 foram registradas 11.821 mortes, cerca de 30 por dia. Entre 2000 e 2012, houve um aumento de 10,4% na quantidade de mortes, sendo observado um aumento de mais de 30% em jovens. O que nos assusta é a idade potencial do suicida, pois 1/4 dos jovens entre 18 e 24 anos considerou seriamente suicídio nos últimos 30 dias de acordo com o relatório do U.S Department of Helth and Human Services/Centers of Disease Control and Prevention (2020).

A pessoa que pensa em se matar está sofrendo e sabemos que existem fatores de riscos e sinais de alerta, por isso é muito importante que a rede de apoio dessa pessoa fique atenta. Além de transtornos psicológicos, muitas pessoas se matam por diversos fatores como histórico pessoal (traumas) ou fatores estressores ambientais (morte de parentes, separação de pais, falência, perda de emprego etc). Quem está com um amigo ou familiar em sofrimento também deve ficar alerta ao perceber um comportamento que sugira suicídio, como mensagens de despedidas nas redes sociais, doação de posses importantes, acúmulo de comprimidos e pesquisas sobre meios de tirar a própria vida como objetos ou mesmo locais.

Nem todas as pessoas dão sinais tão claros, mas observar qualquer comportamento que seja estranho pode ser um bom indicativo de que algo não anda bem no coração e na mente do ente querido. Nós que vivemos apressados com as demandas do dia a dia pecamos ao não escutar e ver o outro, seja um filho ou amigo do trabalho. Por isso se fazer presente e estar por quem sofre é o que nos enlaça como sociedade. Os professores que notam atitudes e falas desconexas, os irmãos que narram conversas estranhas, os pais que observam seus filhos, os vizinhos que cumprimentamos e tantos outros elementos podem nos ajudar a prevenir esse ato tão cruel que é tirar a própria vida.

Acolhimento, palavra amiga e ouvir são ferramentas que ajudam o outro. Juntos somos mais fortes.

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Para quem sente que precisa de ajuda ou gostaria de falar com alguém, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é um serviço gratuito que realiza apoio emocional e prevenção de suicídio 24 horas por dia, através do telefone (basta ligar para o número 188). Esse é um espaço seguro de acolhimento para ouvir a pessoa que está sofrendo.  

Também no dia 16/09, às 19h, o Colégio Adamantinense Objetivo promove um debate online com especialistas das áreas de psicologia, direito e sociologia, sob coordenação da professora Karina Marton, para integrar a campanha do Setembro Amarelo em prevenção ao suicídio.

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