Opinião

Mulheres homenageadas e o PIB da Vassoura

Homenageada pela iniciativa, Prof. Dra. Izabel Castanha Gil escreve sobre o protagonismo da mulher.

Izabel Castanha Gil Colunista
Izabel Castanha Gil
Mulheres homenageadas e o PIB da Vassoura

Toda homenagem é sempre uma construção social. Alguém tem a ideia, alguém a valida e confirma os indicados, alguém acredita e patrocina o evento, outros a legitimam com sua presença. Por fim, temos os homenageados. Como são escolhidos? Certamente, por atenderem aos objetivos dos proponentes. De modo geral, são pessoas que se destacam na comunidade em ações de solidariedade, empreendedorismo, expressão intelectual, esportiva ou artística, ou outro tipo de destaque. Para quem recebe a homenagem, é sempre um momento de alegria e gratidão, que dá brilho a sua biografia e estimula ao seu caminhar.

Nesta oportunidade, refiro-me à iniciativa da Rádio Life FM, em parceria com o CVV polo Adamantina e com o Interact Club, homenageando mulheres da comunidade local. Um rico conteúdo foi agregado ao evento, como palestras, atrações culturais, sessões de beleza, entre outras atividades, culminando com um coquetel.

O esforço dos organizadores e a visibilidade dessa iniciativa despertam algumas reflexões. Somos oito mulheres homenageadas, atuantes em diferentes segmentos econômicos e sociais, que, por algum motivo, despertamos a atenção da comissão organizadora. Mais que profissionais, nessas circunstâncias nos revestimos de um papel social mais amplo. Por meio de nós, outras mulheres são também representadas e homenageadas. Muitas delas, de importância altamente relevante no meio em que vivem, porém invisíveis aos olhos da sociedade. São mulheres que cuidam de familiares com doenças crônicas ou deficiências severas, que lhe sugam a vitalidade em intermináveis tratamentos médicos, outras que se consomem em trabalhos repetitivos, como o trabalho doméstico, mas que proporcionam estabilidade na sua própria casa e, muitas vezes, nas casas de outras pessoas, outras cujos companheiros são mais imaturos que elas e, por isso, recaem sobre seus ombros as responsabilidades maiores da família, outras que criam seus filhos sozinhas, e tantas situações conhecidas por todos nós.

É aí que entra o ainda pouco conhecido PIB da Vassoura. Trata-se de uma metáfora aplicada a uma situação que tem ocupado pesquisadores nacionais e estrangeiros: quanto representa, para a economia de um país, o trabalho feminino não remunerado? O nome técnico é conta satélite ou economia do cuidado e toma como referência o tempo gasto com os afazeres domésticos, os cuidados com as crianças, idosos e doentes, o cultivo de alimentos, em especial em hortas e pequenas criações domésticas e outras tarefas do cotidiano. Embora ainda sem uma metodologia de consenso entre os pesquisadores, o IBGE considera que essa movimentação feminina representa cerca de 10% do PIB (Produto Interno Bruto). Imagina quanto custaria ao orçamento familiar a aquisição desses bens, os serviços de cuidadores, e a economia doméstica obtida com os reaproveitamentos?

Esse estudo é relevante para a elaboração de políticas públicas para as mulheres, inclusive com reflexos sobre a aposentadoria daquelas que sempre cuidaram das suas famílias, sem contribuírem com a previdência social. Outra importância refere-se à valorização do trabalho feminino, passando a ser visto sob a perspectiva da cooperação e do reconhecimento. tanto para aquelas que exercem atividade remunerada externa e que acumulam a responsabilidade da supervisão das atividades domésticas, quanto daquelas que trabalham ininterruptamente sete dias por semana, doze meses por ano, sem direito ao descanso semanal remunerado, férias e aposentadoria.

Há um longo e árduo caminho a ser percorrido por mulheres e homens para a construção de uma sociedade justa e equitativa, passando inicialmente pelo autoconhecimento. Essa consciência leva a um caminhar em paralelo, reforçando que as diferenças de sexo e de gênero servem para enriquecer as relações, afastando as dominações doentias. Cada um com as suas especificidades e ambos com o mesmo propósito da dignidade e do respeito mútuo.

Às idealizadoras e idealizadores do Glamour Mulher, o meu muito obrigada. Às homenageadas, as minhas reverências. Às mulheres invisíveis, o meu reconhecimento.

 (*) Prof.ª Izabel Castanha Gil

ETEC Prof. Eudécio Luiz Vicente e UNIFAI

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