Memória

O Foto Paulista e o Artesão do Imaginário de Progresso

Uma breve análise sobre a construção do Imaginário de Progresso de Adamantina através das fotos de Hidetaka Hasegawa.

Tiago Rafael Colunista
Tiago Rafael
Foto Paulista, estúdio de Hidetaka em Adamantina (Arquivo Histórico da Cidade de Adamantina, digitalizadas e organizadas por Fabio Noda Hasegawa. Reprodução: Revista Contemporartes). Foto Paulista, estúdio de Hidetaka em Adamantina (Arquivo Histórico da Cidade de Adamantina, digitalizadas e organizadas por Fabio Noda Hasegawa. Reprodução: Revista Contemporartes).

“A fotografia é uma das poucas coisas que tem poder sobre o tempo: ela o paralisa.“

(Autor desconhecido)

* * *

Recentemente, em uma conversa com alguns amigos, comentávamos sobre como a tecnologia tem avançado e facilitado as nossas vidas. Internet, redes sociais, likes e curtidas, smart tv’s, até que chegamos a comentar sobre um ponto onde a atual juventude sequer conheceu, o tal do “revelar as fotos”.

Se você, assim como eu, chegou a pegar a época das câmeras analógicas, deve se lembrar que era um fato comum, tirarmos inúmeras fotos, e quando o “filme” acabava íamos até um dos “fotos” da terrinha para revela-los. Isso poderia demorar alguns dias, mas nos contentávamos com a espera. O único problema era quando a foto “queimava”. Ou seja, você pagava por uma foto inutilizável. É claro que, sobre tais avanços já escrevi por aqui ou ali, é só dar uma olhada! (reveja aqui).

Em meio a tal assunto, acabei me recordando do autor principal de tudo isso, o fotógrafo. E claro, a terrinha já contou e conta com vários deles. No entanto, e aqui peço uma breve licença ao demais, acredito que grande parte da história de Adamantina tenha sido registrada pela família Hasegawa, proprietários do tão famoso Foto Paulista.

A família já no Brasil. O orifício na parede da casa, indicado por uma flecha, é o cômodo onde o pai, Sigeki, revelava as fotos.

Foto Paulista, estúdio de Hidetaka em Adamantina.

Por incrível que pareça, novamente a tecnologia nos auxiliou, em uma breve busca pela internet, acabei localizando um relato do neto do Sr. Hasegawa, Fábio Noda Hasegawa, que utilizou a obra de seu avô Hidetaka Hasegawa, como base para a sua dissertação de mestrado.

Sobre isso Fábio relata:

Meus avós, tanto do lado paterno quanto materno, vieram do Japão no início do século XX, seguiram o movimento migratório japonês do estado de São Paulo, e por volta de 1950 instalaram-se na recém constituída cidade de Adamantina, de grande colonização japonesa. Nessa migração da área rural para a área urbana, meu avô paterno, Hidetaka Hasegawa, com a abertura do estabelecimento fotográfico Foto Paulista, retoma a profissão que seu pai possuía antes de sair do Japão (1)

“O imigrante japonês”, foto que em 1958 teve reconhecimento pelo governo japonês com um prêmio.

E continua:

Somente após a chegada de Hidetaka a Adamantina e a adoção oficial da atividade de fotógrafo é que se pode encontrar um maior número de registros de sua autoria, notando-se nos assuntos fotografados características pessoais intimamente ligadas a sua trajetória, documentando não somente o que viu, o existente, o indicial, mas registrando uma realidade experimentada no seu cotidiano [...]

[...] O inicio da trajetória social de Hidetaka Hasegawa em Adamantina se entrelaça com o início da própria cidade e também de uma nova modalidade social que era ser fotografado, e que Hidetaka, nas suas visitas aos pequenos proprietários agrícolas da comunidade japonesa que compunham boa parte da população da cidade, começava a oferecer. (2)

Instalação de equipamento para abertura de poços artesianos

Grupo Escolar (Atual EE Profa Fleurides Cavallini Menechino).

É fato comum presenciar em algumas fotos históricas “típicas” da cidade alguns traços luminosos e marcantes de alguns pontos e esquinas, como uma “vitrine imediata do progresso”, permeando o imaginário de seus idealizadores (políticos e empresários) sobre isso Fábio também comenta:

[...] a busca constante de Hidetaka por novas técnicas e estilo de fotografia, assim como o gosto de registrar o seu cotidiano, fez com que a cidade fosse um dos temas principais de suas fotografias. Com isso, várias imagens fotográficas foram produzidas, de acontecimentos sociais até arquitetura das calmas e bem planejadas ruas da cidade. E devido ao caráter simbólico da representação visual, começou a gerar interesse por parte da elite (políticos e empresários) que passa a utilizar suas fotografias como propaganda de uma cidade em pleno desenvolvimento e progresso. (3) (Grifo nosso)

“Luzes da Cidade” (1954), símbolo imagético da “cidade jóia” (Adamantina), consagrando Hidetaka como fotógrafo oficial.

Avenida Rio Branco, uma das ruas mais importantes da cidade.

Registro do cotidiano da cidade.

Além disso, Fábio ainda pontua em seu relato:

Dentre muitas fotografias, duas em especial ganham destaque: “A chegada do trem”, inaugurando a esperançosa estação ferroviária com seu progresso e legitimando a hegemonia política e econômica frente as outras cidades da região; e a “Luzes da cidade”, que efetivava com seus elementos visuais essa busca da cidade pelo desenvolvimento, e que auxiliou Adamantina na obtenção do título de uma da cinco cidades em maior progresso no Brasil [...] (4) (Grifo nosso)

“A chegada do Trem”, uma das fotos mais emblemáticas do trabalho do fotógrafo.

E conclui:

[...] Assim, meu avô Hidetaka buscou concretizar o desejo em alcançar os objetivos traçados por ele e pelos seus familiares ainda no Japão, firmando-se por meio de sua obra fotográfica, como um tipo de artesão do imaginário de progresso da cidade de Adamantina. (5) (Grifo nosso)

 Lateral do Banco do Comércio e do Grande Hotel.

Assim, inicialmente o que seria apenas mais uma crônica semanal derivada de um bate-papo, abriu espaço para uma reflexão e análise bem mais ampla, e claro, com o rigor acadêmico que lhe compete. A nós, historiadores cabe tudo isso e mais um pouco, vê-se a foto, muitas vezes oficial, mas raramente o seu autor, nesse caso, o “Artesão”. A família Hasegawa o nosso muito obrigado!

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e AMLJF

tiagorsalves@gmail.com

_____________________

 (1) Conferir em: <https://revistacontemporartes.blogspot.com/2013/07/hidetaka-hasegawa-um-artesao-do.html> Acesso em: 08/02/2020.

(2) Conferir em: <https://revistacontemporartes.blogspot.com/2013/07/hidetaka-hasegawa-um-artesao-do.html> Acesso em: 08/02/2020.

(3) Idem

(4) Idem

(5) Idem

IMAGENS:  Arquivo Histórico da Cidade de Adamantina, digitalizadas e organizadas por Fabio Noda Hasegawa. Reprodução: Revista Contemporartes.

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