Memória

O Defunto, o Prefeito e o Santo

Um breve texto sobre o primeiro sepultamento ocorrido na cidade de Adamantina.

Tiago Rafael Colunista
Tiago Rafael
Fachada do Cemitério de Adamantina, na década de 50 (Foto: Arquivo Histórico Municipal). Fachada do Cemitério de Adamantina, na década de 50 (Foto: Arquivo Histórico Municipal).

“É interessante passar por um cemitério e imaginar que cada lápide representa uma história que ganhou um ponto final.”

Gerson Obscure

* * *

Uma coisa curiosa, mas ao mesmo tempo interessante se dá com base no que nós, historiadores, muitas vezes utilizamos como fontes históricas. Uma vez, já ouvi aqui ou ali, que para se conhecer a história de tal localidade, deve-se ir primeiro ao cemitério da mesma. Estranho, mas faz todo o sentido.

E parece que tal ideia, tem ganhado inúmeros adeptos em algumas cidades. Em São Paulo, no Cemitério da Consolação, diversos são os artistas, escritores, políticos e autoridades, por lá sepultados. Dessa forma, alguns desses túmulos acabam se tornando pontos de visitação de alguns turistas e até mesmo com visitas guiadas.

Vista aérea do Cemitério de Adamantina, na década de 50 (Reprodução: Livro Reviver Adamantina/João Carlos Rodrigues). 

Pois bem, mas vamos ao que interessa. Um fato que sempre me chamou a atenção, principalmente por morar ao lado do cemitério local, se dá com relação ao primeiro sepultamento realizado por aqui. E pelo que acabei descobrindo, é um fato um tanto quanto curioso.

Sobre isso, o Sr. João Carlos Rodrigues em seu livro, narra o fato:

[...] as pessoas que faleciam no patrimônio, eram enterradas em Lucélia. Um cidadão chamado Antônio proclamava que quando morresse não gostaria de ser enterrado em Lucélia. Quando Adamantina passou a município, o prefeito recém-eleito iria construir o cemitério. Porém, incrivelmente, o cidadão Antônio veio a falecer. E agora, sem cemitério. Parece coisa de novela, mas como o falecido era Antônio, o prefeito Antônio e o dia de Santo Antônio, atenderam o desejo do falecido. (RODRIGUES, 2016, p. 280)

Segundo relata o Prof. Cândido Jorge de Lima:

Em 13 de junho de 1949, por meio da Lei de nº 7, a Câmara Municipal decretou e o Sr. Prefeito, promulgou, a desapropriação, para utilidade pública, de uma área de 2 há e 52 ares, de propriedade do Sr. Abel de Souza Araújo, para construção do referido cemitério (1999, p. 78).

E assim, deram início a construção do atual cemitério, claro que tudo isso em tempo recorde, afinal não havia muito tempo. Sobre isso, Sr. João ainda acrescenta:

Demarcaram o local do cemitério (local atual) rapidamente, arrancaram alguns pés de café, escolheram um conhecido que entendia um pouco de enxadão (primeiro coveiro), que se encontrava no velório, e assim praticaram o primeiro sepultamento no cemitério local e cumpiram o desejo do falecido. (Idem)

E assim se deu, o Sr. Antônio (Bellotti), foi o primeiro a ser sepultado na terrinha, por ordem do Prefeito Antônio (Goulart Marmo) e no dia de Santo Antônio (padroeiro da cidade). Ah... E como se não bastassem tantos “Antônios”, o primeiro encarregado do cemitério também era um Antônio (Correia de Souza).

Antônio Goulart Marmo, prefeito de Adamantina na década de 50 (Reprodução: Livro Reviver Adamantina/João Carlos Rodrigues).

Enfim, a nós, historiadores, cabe a recordação, mesmo que seja a mais curiosa e estranha possível.

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e AMLJF

tiagorsalves@gmail.com

Publicidade

Clinica Lu Applim
Cinema

Publicidade

Insta do Siga Mais