Memória

Jamil de Lima, Colégio Madre Clélia Merloni e um pouco de história

Um breve relato sobre a criação do Colégio Madre Clélia Merloni em Adamantina.

Tiago Rafael | Professor, historiador e gestor ambiental Colunista
Tiago Rafael | Professor, historiador e gestor ambiental
Fachada do atual prédio do Colégio Madre Clélia em construção em meados de 1950 (Arquivo Pessoal de Therezinha Tófoli). Fachada do atual prédio do Colégio Madre Clélia em construção em meados de 1950 (Arquivo Pessoal de Therezinha Tófoli).

“Os dias passam; / As noites se sucedem; / As perguntas se multiplicam; / A expectativa cresce...”

Madre Clélia Merloni

* * *

Na última semana, após revirar alguns dados referentes a algumas pesquisas já realizadas sobre alguns pontos da história da terrinha, acabei me deparando com o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de minha graduação em Pedagogia, onde abordei o surgimento do Colégio Madre Clélia Merloni em Adamantina. Naquela época eu ainda ministrava algumas aulas em tal colégio e tinha algumas curiosidades sobre a sua fundação. Cabe destacar que meu humilde trabalho, em nada se compara a dissertação de mestrado da Prof. Therezinha E. Tófoli, intitulada: Educação feminina em Adamantina: Instituto de Educação Madre Clélia (1951-1978). E por aqui, agradeço a seu imenso auxílio em minha pesquisa.

 

Como se sabe, a administração de tal colégio está a cargo das Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, instituto este fundado por Madre Clélia Merloni em 1894. No entanto, por aqui nos ateremos a chegada de tal congregação à cidade de Adamantina e compartilharei alguns pontos de destaque da referida pesquisa.

 

Família de Jamil de Lima (Álbum das Família Pioneiras de Adamantina).

 

Segundo as fontes pesquisadas à época, as primeiras Irmãs Apóstolas, chegaram à cidade no início da década de 1950, pois havia-se a intenção de fundar um orfanato nesta localidade, e a administração do mesmo deveria ser confiada a alguma Congregação religiosa. Diante disso, personagens políticos locais se destacaram na introdução das Irmãs na cidade de Adamantina, em especial o Sr. Jamil de Lima.

 

Segundo o Prof. Cândido Jorge de Lima:

 

Jamil de Lima, que residia em Marília, conseguiu trazer para Adamantina em 1950, as educadoras da ordem das Irmãs Missionárias Zeladoras do Sagrado Coração de Jesus, que administravam a Santa Casa de Marília e em Bauru possuíam uma faculdade. (1999, p. 218)

 

Dados históricos presentes nos Arquivos Históricos do Colégio Madre Clélia destacam:

 

No dia 30 de março de 1950, foi solenemente lançada a 1ª pedra para a construção do prédio onde deveria funcionar o orfanato “Madre Clélia”. Foi doado generosamente às Irmãs Missionárias Zeladoras do Sagrado Coração de Jesus, pelo Sr. Jamil de Lima e Exma. Sra. Cecília Bechara Lima (Pai da Irmã Maristela Lima) (Grifo nosso) (s/d)

 

Tal fato também é confirmado em Wernet:

 

O Senhor Jamil de Lima tinha uma filha na Congregação, Ir. Maristela, falecida em 13/7/1966. Ele doou para a entidade um terreno na entrada de Adamantina, cidade nova e promissora, localizada na alta paulista. Em 30 de março de 1950 foi lançada a pedra fundamental do prédio, cujo objetivo inicial seria o funcionamento do Orfanato Madre Clélia. (grifo nosso) (2000, p. 115)

 

Mediante os fatos acima descritos vimos que a principal motivação da vinda das Irmãs Apóstolas para a cidade de Adamantina foi a atuação do Sr. Jamil de Lima. O mesmo fora um “grande articulador político” na vida pública da cidade, Lima em seu livro sobre Adamantina destaca:

 

Jamil de Lima foi um dos fundadores da cidade. De origem libanesa, naturalizado brasileiro. [...] foi responsável pelos loteamentos da Vila Jamil de Lima, Jardim Paulista, Vila Industrial e Jardim Aviação, dotando toda a sua extensão de energia elétrica e iluminação pública, às suas expensas, o que, posteriormente fez incorporar ao patrimônio da cidade. Nasceu em 25 de abril de 1900 e faleceu em 25 de abril de 1973, e pediu para ser sepultado em Adamantina. Era comerciante em Marília, vendeu tudo e investiu em Adamantina, construiu muitos prédios, ocupando vária datas de esquina. Foi um dos articuladores da emancipação político-administrativa do município, alcançada em 1949. Vereador de 1953-1957. Batalhou pela criação da comarca, Delegacia de Ensino e empréstimos para o saneamento básico. Construiu às suas custas o prédio do primeiro Ginásio e Escola Normal de Adamantina, trazendo os professores. Conseguiu a vinda das Irmãs Missionárias Zeladoras do Sagrado Coração de Jesus, e ajudou a construir o primeiro Colégio Madre Clélia. Trabalhou na construção do viaduto sobre os trilhos da ferrovia. Doou seis quarteirões de sua propriedade aos Irmãos Lassalistas para construção do prédio do ex-seminário. Foi sócio e fez construir o Grande Hotel e o Lar Cristão de Meninas. Trouxe para Adamantina o Banco Bandeirantes, primeira agência bancária da cidade e a Drogasil [...] (grifo nosso) (1999, p. 47)

 

Jamil de Lima muito auxiliou na criação de diversos órgão na cidade de Adamantina, e o Colégio Madre Clélia foi uma de suas ações porém, destaque-se que o mesmo possuía uma filha na referida Congregação.

Fachada do Colégio Madre Clélia em 1951 (Arquivo Pessoal de Therezinha Tófoli).

 

Assim, em 15 de janeiro de 1951 chegaram à cidade a Irmã Imaculada Gulin (Angela Gulin)  e mais quatro Irmãs  responsáveis pela fundação da instituição. Em fevereiro do mesmo ano iniciaram-se as aulas do curso primário, em regime de externato voltado exclusivamente ao sexo feminino.

 

Em fevereiro, iniciaram-se as aulas do Curso Primário, registrado sob nº 1, em 21 de fevereiro de 1951, pelo Ato nº 1.281, com cerca de uma centena de alunos. Sendo posteriormente submetida a a abertura de curso ginasial.

 

Uma das principais dificuldades no início de seu funcionamento foi a longa distância enfrentada pelas alunas e também as Irmãs até o centro da cidade. O mesmo fora construído em uma área bem afastada de onde emergia urbana e comercialmente a cidade, local onde atualmente se encontra instalada a ETE Prof. Eudécio Luiz Vicente. Ressalte-se também o fato de que na época as estradas ainda eram de terra e a situação piorava quando chovia. Diante disso, a prefeitura auxiliava transportando as alunas com um caminhão. (TÓFOLI, 2003, p. 74)

 

Em pouco tempo a instituição conseguiu um ônibus destinado ao transporte de seus alunos. Neste período o Sr. Constante Ortolan, era o motorista do Colégio Madre Clélia e era o responsável por toda locomoção das alunas e das Irmãs. Pouco tempo depois o ônibus veio a ser substituído por uma perua Kombi.

 

Com os cursos primário e ginasial funcionando, a instituição ainda carecia de muitas coisas, a estrutura do prédio ainda era precária, tendo em vista o aumento no número de alunas e as aspirações de suas diretoras.

 

Cópia da ata de lançamento da pedra fundamental do novo prédio do Colégio Madre Clélia (Reprodução/Jornal A Comarca de Adamantina).

 

Diante disso, a instituição necessitava de novas adaptações e havia a possibilidade da construção de um novo prédio porém, havia uma certa preocupação com o Sr. Jamil de Lima, o doador do primeiro terreno. Para tanto, as Irmãs esperavam a vinda da Superiora Provincial para resolução deste entrave.

 

Segundo a Profa. Therezinha E. Tófoli:

 

Surgiu um impasse na escolha do local para isso: a prefeitura doara um terreno na parte mais central da cidade, o que era do gosto dos moradores, mas a Madre Provincial reivindicava a construção no mesmo terreno em que o colégio estava instalado. No entanto, pelo lugar ser distante, as irmãs também queriam a nova construção na cidade. (2003, p. 75)

 

No ano de 1954, a Superiora Geral da Ordem, Madre Speranzina Morelli, que viera para resolver a questão, aceitou a proposta do então prefeito Euclydes Romanini, e o prédio passou a ser construído num ponto mais central da cidade, onde atualmente está localizado.

 

O então prefeito Euclydes Romanini, procede com as doações para construção do novo prédio. Em 23 de março de 1954, pela lei de nº 259, doa a quadra de nº 159 e em 7 de maio de 1956, pela lei de nº 339, doa o trecho da Rua Arno Kiefer, entre as Alamedas Navarro de Andrade e Fernão Dias (fato este que justifica a interrupção desta rua). (LIMA, 1999, p. 218-219)

 

Localização do Colégio Madre Clélia, em 1950 e o local da construção do novo prédio (Reprodução).

 

A construção do novo prédio encontrou inúmeras dificuldades para sua edificação. Segundo dados coletados de uma “Nova redação mais sucinta sobre o Histórico do Colégio”:

 

E a construção ía em meio de grandes dificuldades, falta de material, de auxílio, de operários, de dinheiro, etc. Ao iniciar o trabalho em 1956, foi prejudicado por uma tremenda tempestade, as colunas de cimento armado foram contorcidas pelo vento. E desde o início o prédio veio sofrendo a influência das contradições: ora os erros, ora as incompreensões que adiavam a transferência do prédio. (Grifo nosso) (s/d)

 

Tal escrita em destaque nos leva a subentender que as Irmãs se encontravam impacientes esperando a transferência do novo prédio. Ressalte-se que neste período se iniciaram as aulas do Curso Normal e o segundo ano fora dispensado por falta de salas. Acerca do fato Tófoli comenta:

 

Em 1956, teve início a primeira turma do Curso de Formação de Professores Primários, antigo Curso Normal. Nesse ano as irmãs receberam, pela terceira vez, ainda na “casa pobre”, a Revma. Madre Geral Speranzina Morelli. Em 1957 o Curso Normal não pôde continuar por falta de sala e de irmãs registradas. Foi dispensado o segundo ano, e as alunas foram transferidas para uma escola estadual, atitude que provocou descontentamento às irmãs. (Grifo nosso) (2003, p. 78)

 

A “Nova redação mais sucinta sobre o Histórico do Colégio” também traz um pequeno relato sobre este fato:

 

O ano de 1957 começou cheio de dificuldades, o Curso Normal, já iniciado, não poderia continuar por falta de sala e de Irmãs registradas. Foi necessário dispensar o 2º ano, sendo as alunas transferidas para uma escola leiga, de péssimas condições morais e culturais, o que muito fez sofrer as Irmãs. (Grifo nosso) (s/d)

 

Finalmente com suas novas instalações aprovadas pelo Ministério da Educação e Cultura, pelo Processo nº 89.135/51, a mudança de prédio se deu no dia 19 de março de 1958.

 

Enfim, conforme já relatado, estes são apenas alguns trechos do que um dia pesquisei. Me ative apenas aos pontos ditos “históricos” e “decisivos” por aqui. Sobre tal assunto, destaco que, “muita água passou debaixo da ponte”. Mas isso é tema para outro texto e em outro momento.

 

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e da AMLJF

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