Memória

Crônicas de outrora: Gumercindo Romanini – Um dos idealizadores da FAFIA

Um breve relato sobre o Sr. Tino Romanini e a criação da FAFIA.

Tiago Rafael | Professor, historiador e gestor ambiental Colunista
Tiago Rafael | Professor, historiador e gestor ambiental
Tino Romanini foi o quinto prefeito de Adamantina e governou a cidade de 5 de abril de 1965 a 4 de abril de 1969 (Reprodução). Tino Romanini foi o quinto prefeito de Adamantina e governou a cidade de 5 de abril de 1965 a 4 de abril de 1969 (Reprodução).

Nesta última semana, fomos pegos novamente de surpresa, com a partida do Sr. Gumercindo Romanini (Tino). Não há novidade alguma em dizer que este fora um dos prefeitos da terrinha em meados da década de 1960. No entanto, poucos sabem que ele fora um dos idealizadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Adamantina - FAFIA (atual UNIFAI).

Em 2008, quando ainda cursava a minha graduação em história, optei, juntamente com a Profa. Dr. Izabel Castanha Gil, em desenvolver um trabalho inédito de pesquisa, justamente sobre o surgimento das Faculdades Adamantinenses Integradas – FAI (atual UNIFAI).

Muitos desafios se colocavam, pois haviam algumas fontes, mas estavam “espalhadas”. Legislações, referenciais teóricos, imagens e entrevistas. Muitas delas feitas com um gravadorzinho de fitas k-7. É nesse momento que, conheci o Sr. Gumercindo (Tino) e tantos outros que também já nos deixaram e fizeram parte disso tudo. Abaixo, reproduzirei alguns trechos de minha pesquisa, e de algumas informações obtidas à época.

Gumercindo Romanini (Tino) foi o quinto prefeito de Adamantina, tendo exercido o cargo no período de 5 de abril de 1965 a 4 de abril de 1969, pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Era advogado e agropecuarista e também possuía vasta experiência na administração municipal, tendo sido chefe de gabinete de seu irmão, o então prefeito Euclydes Romanini (1953-1957) e vereador na quarta legislatura (1961-1964). (LIMA, 1999, p. 130)

Algumas peculiaridades e informações até então desconhecidas, puderam ser esclarecidas a partir de seus relatos. Por exemplo, antes da FAFIA, o Sr. Antonio Cescon, prefeito anterior, havia tentado implantar uma Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas em Adamantina. Sua autorização deu-se pela lei municipal n° 646, de 21 de novembro de 1962, mas tal tentativa não foi aprovada pelo Ministério da Educação.

Por outro lado, já na administração de Tino Romanini, outra tentativa foi feita para a instalação de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Pela lei municipal n° 812, de 3 de janeiro de 1966, a prefeitura colocaria à disposição da Associação Brasileira de Educadores Lassalistas a quantia de CR$ 48.000.000 (quarenta e oito milhões de cruzeiros), dispostos em parcelas de doze milhões de cruzeiros anuais, no entanto, devido à influência de empresas particulares que dominavam o ensino na época, a proposta foi rejeitada. Acerca desse fato o Jornal O Adamantinense publicou, no dia 30/1/1966, a seguinte matéria:

 

Em palestra que mantivemos com o Sr. Prefeito, soubemos que os Lassalistas, apesar dos bons ofícios desenvolvidos, e da verba de 48 milhões de cruzeiros, votados para 4 anos, não estão muito interessados na instalação da Faculdade de Filosofia de Adamantina, que seria a primeira escola de Ensino Superior da Congregação Lassalistas. [...] Não podemos contudo esmorecer. Temos que gastar nossos últimos cartuchos para que a nossa faculdade seja uma realidade. As forças vivas do município, Prefeito e Câmara se de tudo, nada conseguirem com os Lassalistas, enveredar por outro caminho, para que tenhamos no próximo ano instalada, a nossa tão decantada e almejada Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, ou pelo Estado ou pelo Município ou mesmo por outra organização de ensino. O que não podemos é perder a faculdade, por que se ela nos escapar, todas as outras nos escaparão. (Faculdade de Filosofia. Jornal O Adamantinense nº 3, ano I, p. 1, 30/1/1966)

 Faculdade de Filosofia. Jornal O Adamantinense nº 3, ano I, p.1, 30/1/1966.

 

Diante disso, partiu-se para o Conselho Estadual de Educação, com a proposta da criação de uma autarquia municipal. A criação de uma faculdade por meio de uma autarquia municipal era a maneira adequada para o momento, uma vez que o CEE não pretendia expandir para o interior os campi das universidades públicas estaduais e que também não houve interesse dos grupos educacionais particulares, tendo em vista baixa população da jovem cidade. Devido a falta de investimentos destes grupos, a opção possível era sua organização jurídica como uma autarquia municipal, o que de certa forma era mais vantajoso, pois os investimentos e as verbas para supri-la no início, sairiam do erário público municipal. Cabe ressaltar, ainda que, além de ser uma entidade pública, a instituição poderia cobrar mensalidades de seus alunos.

Diante da situação, o então prefeito Gumercindo Romanini nomeou para tal propositura uma pequena comissão composta por: Antonio Jorge, Cássio Stersi dos Santos, Osvaldo Fiorillo e Otávio Manara, colocando-os à frente dos processos burocráticos de criação da autarquia. (Faculdade de Filosofia é realidade. Jornal O Adamantinense n° 78, ano II, p. 1, 2/7/1967)

 

Faculdade de Filosofia. Jornal O Adamantinense nº 73, ano II, p. 6, 28/5/1967.

 

As idas para a cidade de São Paulo eram frequentes, pois eram necessários diversos documentos exigidos pelo Conselho Estadual de Educação. Como já mencionado, havia o fato do “elitismo”[1] por parte dos analisadores da proposta. Antonio Jorge, o idealizador técnico da faculdade e primeiro vice-diretor da FAFIA, relembra como foi uma das idas ao órgão:

 

O prefeito dessa época era o Tino Romanini. Fomos para São Paulo, no Conselho Estadual de Educação, e levamos a nossa proposta. No entanto, éramos indagados pelo fato de querermos construir uma faculdade numa cidade com poucos habitantes. (Entrevista concedida em 22/7/2009)

 

Pelo fato de Adamantina possuir uma população pequena em relação a outros grandes centros regionais, seria bem provável que a proposta fosse rejeitada. No entanto, com a intermediação do então Deputado Estadual José Costa, afiliado da ARENA, a proposta foi aceita. Acerca do acontecimento relembra Antonio Jorge de seu diálogo com o então governador Laudo Natel, pertencente à ARENA, mesmo partido do deputado, de Osvaldo Fiorillo e do então prefeito Gumercindo Tino Romanini:

 

O deputado nos levou para falar com o governador. Aí o governador disse:

- Escuta! Vocês tiveram a coragem de enfrentar essa “bicharada” toda contra os senhores?

- Eu achei que devia fazer isso. [disse Antonio Jorge]

- Então o senhor pode ir ao Conselho Estadual de Educação, que eu vou mandar aprovar com urgência. (Entrevista concedida em 22/7/2009)

 

E assim nascia a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FAFIA. Sua autorização para implantação deu-se por conta da Lei Municipal nº 853, de 29 de junho de 1967, e pelo Decreto Estadual nº 49.969, de 12 de julho de 1968, assinado pelo então governador do Estado de São Paulo, Roberto Costa de Abreu Sodré. Seu funcionamento foi autorizado pelo professor Paulo Ernesto Tolle, presidente do Conselho Estadual de Educação.

 

Faculdade de Filosofia é realidade. Jornal O Adamantinense nº 78, ano II, p. 1, 2/7/1967.

Publicação da lei que cria a FAFIA. Jornal O Adamantinense nº 79, ano II, p. 4, 9/7/1967 (Parte 1).

Publicação da lei que cria a FAFIA. Jornal O Adamantinense nº 79, ano II, p. 4, 9/7/1967 (Parte 2).

 

Já aprovada e instalada, a aula inaugural foi realizada no Ipê Clube de Adamantina, tendo como ministrante o professor Erasmo de Freitas Nuzzi, presidente da Câmara de Ensino Médio do Conselho Estadual de Educação. Por meio dos decretos 643 e 644, de 28 de julho de 1967, o prefeito municipal Gumercindo Tino Romanini deu posse aos professores Cássio Stersi dos Santos e Antonio Jorge, respectivamente, como diretor e vice-diretor. Os primeiros cursos autorizados foram Letras, Pedagogia, Estudos Sociais e Ciências, e, no seu primeiro vestibular, foram inscritos 314 alunos. (LIMA, 1999, p. 233)

 

Aula inaugural da FAFIA, realizada no Ipê Clube, em 4/8/1968. Da esq. para direita: Fernando Chagas Fraga, Elio Micheloni (Prefeito), Prof. Vitório Emanuel Ielo (Delegado de Ensino), Irmã Verônica Sbríssia, Antonio Jorge (Vice-diretor da FAFIA), Cássio Stersi dos Santos (Diretor da FAFIA), Armindo Silva, Prof. Erasmo de Freitas Nuzzi, Gumercindo Romanini, Dep. Estadual José Costa, Deuber Junqueira Franco (Delegado Regional de Polícia), Tosyo Niama, Gervásio Rodolfo Pozzeti, Manoel Gaspar e Wilson Mata (Fonte: Arquivos da UniFAI). 

 Aula inaugural da FAFIA, realizada no Ipê Clube, em 4/8/1968 (Fonte: Arquivos da UniFAI). 

Em matéria do dia 4/8/1968, o Jornal O Adamantinense publicou a seguinte matéria sobre a aula inaugural da FAFIA:

 

Adamantina vive hoje um marco histórico em sua trajetória de conquistas e contínuo progresso. Do sonho à realidade. Da realidade à prática e eis que hoje temos o funcionamento de nossa tão sensacional conquista, a FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS, como autarquia municipal. Numa iniciativa de fôlego e de visão do Prefeito Gumercindo Romanini que contou com o apoio de seus mais diretos colaboradores. [...] Convidamos, em nome do Prefeito, a todos os adamantinenses a comparecerem no Ipê Clube e prestigiarem sobremaneira a aula inaugural de nossa Faculdade, que vem fazer com que Adamantina firme-se definitivamente como a “Capital da Nova Alta Paulista” e fator de seu maior desenvolvimento. (grifo nosso) (Prof. Erasmo de F. Nuzzi pronuncia hoje aula inaugural. Jornal O Adamantinense nº135, ano III, p. 1, 4/8/1968)

 

Prof. Erasmo de F. Nuzzi pronuncia hoje aula inaugural. Jornal O Adamantinense nº 135 ano III, p. 1 4/8/1968

 

Durante cerca de oito meses, as aulas foram ministradas no Colégio Madre Clélia Merloni, que se tratava de um colégio confessional feminino, até que as instalações definitivas da FAFIA estivessem prontas.

 

Vista parcial do prédio da FAFIA em construção, em 1968. Fonte: Jornal O Adamantinense nº 128, Ano III, p. 2. 13/6/68.

 

Convite de Formatura – Paraninfo: Tino. Primeiro convite de formatura da FAFIA (Arquivo pessoal da Sra. Sueli Fernandes).

 

Enfim, não queria me prolongar muito, mas alguns dos trechos acima, são uma pequena parte do que um dia pesquisei sobre a história da FAFIA (atual UNIFAI). Dificuldades existiram no início, e não foram poucas (isso pode ser assunto para outro texto). No entanto, vale relembrar um pouco daquilo que “alguns” fizeram para que ela se tornasse o que é hoje. Ave Tino!

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e da AMLJF



[1] Alguns membros do CEE não concordavam com a interiorização das Faculdades de Filosofia.

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