Memória

Adamantina, placas, monumentos e homenagens a este ou aquele personagem

A história por trás de algumas homenagens da cidade de Adamantina.

Tiago Rafael Colunista
Tiago Rafael
Desfile cívico. Administração de Antônio Cescon (1961/1965). Destaque para as faixas fixadas em via pública, de saudação aos politicos da época (Arquivo). Desfile cívico. Administração de Antônio Cescon (1961/1965). Destaque para as faixas fixadas em via pública, de saudação aos politicos da época (Arquivo).

“Debaixo do tapete dessa memória histórica oficial, existem outras memórias que dão conta de outras experiências vividas, especialmente aquelas que remetem às condições adversas dessa colonização e aos seus conflitos sociais.” (MARTINELLI, p. 55)

* * *

Ao andar pela terrinha é comum ver este ou aquele nome de rua, prédio, praça e muitas vezes nem saber quem foi o dito cujo. Pois bem, desde criação e posterior emancipação, a cidade de Adamantina traz dentro de sua história homenagens a personagens “não tão conhecidos”, “políticos” e alguns ditos “pioneiros”. Isso me lembrou de um artigo escrito pelo Historiador e Prof. Dr. Marcos Martinelli a alguns anos atrás.

Em seu artigo, “Projeto de metrópole da cidade de Adamantina”, ele relata:

A autocelebração progressista não se limitou a construir a imagem do futura metrópole da cidade, ela também se voltou para a construção do passado. No bojo da construção glorificadora do progresso do município veio também a exaltação de personagens pertencentes aos grupos dominantes locais, considerando-os como os atores responsáveis pelo desenvolvimento do município, portanto, os únicos a serem dignos de entrar para a memória histórica local. (2006/2007, p. 52)

Desfile na década de 60, e mais uma faixa com saudação a políticos (Arquivo).

Desfile na década de 60. Destaque para as faixas com saudação aos políticos, no centro de Adamantina (Arquivo).

O então prefeito de Adamantina, Euclydes Romanini (1953/1957), recepcionando o então governador do Estado de São Paulo, Lucas Ngueira Garcez (Arquivo).

 

Nesse sentido, pegando um “gancho” no texto supracitado, é bem fácil verificar nos inúmeros espaços da cidade, nomes ligados a esta ou aquela “família tradicional”. Quanto ao “Seu Zé e a Dona Maria” que também estiveram por aqui desde o início, que também batalharam e lutaram, sequer foram e/ou são lembrados por estes ou aqueles do “poder”.

Da mesma forma, acrescenta:

Estabelecido o município, os logradouros públicos passaram a ser nomeados pelos poderes locais. O espaço urbano constituía-se, portanto, num espaço a ser ocupado tanto por homens como por monumentos e nomes de personagens históricos, que teriam marcado a memória da cidade. Ruas, avenidas, praças, bancos das praças, vitrais da Igreja Matriz foram, assim, disputados como lugares de perpetuação da memória dos “fundadores do município” e dos agentes  sociais que seriam os responsáveis pelo desenvolvimento. (idem, p. 53)

Assim, muitos foram e continuam sendo os espaços de divulgação dos “fundadores do município”. Vejamos como exemplo a Avenida Paulista que chegou a ter o seu nome alterado para Adhemar de Barros, em virtude de seus partidários do legislativo à época. O fato mais curioso nisso tudo é que, um pouquinho antes, ele era encarado como “o inimigo” de Adamantina. Mas, vai entender! Não é!? (idem)

Primeira audiência com o governador Adhemar de Barros, concedida ao prefeito Antônio Cescon e vereadores (Arquivo).

E não para por aí! Se você der uma folheada nos jornais da época, provavelmente verá dizeres como: “Governador Amigo de Adamantina”, “Deputado de Adamantina”, “Grande Benfeitor”, etc. E por fim, ainda era comum vê-los se tornarem “Cidadãos Adamantinenses”, serem exaltados nos desfiles de aniversário, etc.

Exaltação  a Jânio Quadros, em publicação no jornal A Comarca de Admantina, em 1955 (Arquivo).

Publicação em "O Adamantinense", de 13 de novembro de 1966, destaca o "Grande" depututado de Adamantina (Arquivo).

Publicação da época destaca benfeitores da cidade (Arquivo).

Conforme já contado por aqui, em meio a tais brigas de poder entre as lideranças políticas locais de outrora, até o busto que homenageava o então falecido Padre Aquino, que também fora prefeito da cidade, chegou a ser arrancado em meio a tais “confusões e ocasos de outrora”, como uma forma de se perpetuar somente um lado da história.

Rua Deputado Salles Filho, nos anos 50. Nome à rua dado em homenagem ao político (Arquivo).

Avenida Deputado Cunha Bueno, nome dado em homenagem ao político (Arquivo).

 Enfim, vários e vários são os exemplos nos nomes de ruas, praças, viadutos, escolas, bairros, prédios públicos, etc., de “fundadores”, “pioneiros”, “bandeirantes” que a “história deles” quis perpetuar. Mas, sempre fica o questionamento: E os outros? E aqui fica a dica: Por que não resgatar os “pioneiros anônimos” que “também” fizeram história por aqui? Afinal, a história pode ser contada por inúmeras vozes e não somente por aquela que esta ou esteve no poder.

 Alguns dos políticos que elencam os nomes de ruas e praças da cidade: Ihity Endo, Jamil de Lima, depuptado Salles Filho, Francisco Gimenes Roda Filho, deputado Cunha Bueno, Miguel Abdo, Euclydes Romanini e outros (Arquivo).

Tiago Rafael dos Santos Alves

Professor, Historiador e Gestor Ambiental

Membro Correspondente da ACL e AMLJF

tiagorsalves@gmail.com 

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